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domingo, 22 de fevereiro de 2026

O acaso a meu favor - Página 85

Por Verônica.

Ao perceber que já nos colocamos em risco demais, puxo-a para mim só para sentir o peso do corpo dela contra o meu e o ritmo da sua respiração misturado ao meu. — Já está na hora de sairmos daqui, se não quisermos problemas — digo, baixo, mesmo que cada parte de mim queira prolongar aqueles segundos.

Vejo-a assentir. Não nos beijamos. Apenas ficamos ali, compartilhando o mesmo ar, o mesmo calor, o mesmo silêncio cheio de tudo. Deixo que ela saia primeiro e, assim que a porta que leva ao galpão se move, o som do metal arrastando atravessa meus ouvidos alto demais para aquela manhã ainda adormecida.

— Verônica? — ouço a voz do Augusto no meio do breu. — O que está procurando nesse escuro?

Agradeço mentalmente ao meu cérebro por funcionar tão rápido quando preciso de uma resposta — seja ela totalmente verdadeira ou não.

 Ainda sinto o cheiro da Clara na minha roupa e preciso vestir a minha expressão de rotina antes que a luz revele qualquer coisa.

— Bom dia, Augusto — o cumprimento com uma tranquilidade que não corresponde ao que meu coração está fazendo agora.

O silêncio do galpão parece amplificar tudo.

— Eu pedi para a Clara ligar para mim. Não a viu pelo corredor? — digo, escolhendo as palavras com cuidado, me equilibrando naquela linha tênue entre a verdade e a mentira.

Não consigo ver a expressão dele na escuridão, mas o pequeno intervalo antes da resposta faz meu corpo inteiro ficar em alerta.

— Sim, sim. Eu a vi.

E então a luz se acende.
Branca. Direta.
Revelando nossos rostos, nossas feições ainda marcadas pelo início da manhã — e, no meu caso, pelo que acabou de acontecer.
Piscar se torna necessário, mas mantenho a postura firme. Profissional. Intocável.
Por dentro, ainda estou no escuro com ela.

Ao pegar minha bolsa em cima de uma das prateleira do galpão, vejo Augusto se afastar em direção ao salão para ajudar os meninos a abrir o mercado. Só então percebo que já chegaram os outros funcionários. 

Quando ele some do meu campo de visão é que solto o ar preso nos pulmões.

Um suspiro longo. Necessário.

Como aquela menina conseguiu seguir exatamente a minha linha de raciocínio?

A pergunta vem acompanhada do gosto dos lábios dela ainda vivo na minha boca, como se o beijo tivesse acontecido há segundos, e não minutos.

Passo a língua discretamente sobre os lábios, num gesto automático, e fecho o armário.
Sigo para o meu escritório.
Ali dentro, protegida pela porta que se fecha atrás de mim, volto a ser a Verônica de todos os dias. A que resolve. A que decide. A que ninguém questiona.

Ligações.

E-mails.

Planilhas.

Números.

Pedidos.

Respostas firmes.

O mundo volta para o eixo da rotina, mas meu corpo ainda carrega o eco do que aconteceu no escuro do galpão.
……

As horas passam sem que eu perceba.
Só noto o tempo quando, quase por instinto, meus olhos procuram por Clara nas câmeras.
E ela não está.
O alerta é imediato.

Franzo a testa e olho para o relógio.
Ainda não é o horário de almoço dela.
Até porque ela vai almoçar comigo.
A certeza disso é tão natural que a ausência dela começa a me incomodar de verdade.
Abro todas as câmeras, uma por uma, percorrendo cada corredor do mercado, cada setor, cada ponto cego que eu conheço de cor.
Até que encontro.

E o que vejo faz meu maxilar travar.
Clara.
Com ela. De novo.
Elise.

Sinto o sangue ferver de um jeito rápido e perigoso, completamente diferente da calma calculada que sustentei durante toda a manhã.

Meu corpo se inclina para frente na cadeira sem que eu perceba, como se a proximidade com a tela pudesse mudar alguma coisa.

O jeito como Elise fala perto demais.
A forma como Clara se mantém ali.
O tempo que dura.
Tempo demais.

Uma irritação densa sobe pelo meu peito, misturada com algo que reconheço na mesma hora e que me recuso a nomear.
Não é só raiva.
É pior.

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O acaso a meu favor - Página 84

 Por Clara…

Ao tentar presumir o que Verônica queria fazer, não sei se entro em pânico ou em êxtase. Quando a vejo olhar para o relógio de pulso, ouço o barulho da porta se abrindo. Um meio sorriso travesso me escapa antes mesmo de eu perceber, e quando ela me dá as costas, entendo exatamente o que devo fazer. Não penso duas vezes antes de segui-la.

Enquanto caminho atrás dela, não consigo evitar analisá-la. A saia lápis desenha o corpo de um jeito que parece calculado, firme, seguro. A blusa social vermelha — um marsala elegante — contrasta com a postura confiante que ela carrega sem esforço algum. Verônica anda como quem sabe exatamente quem é. E isso me desarma.

Ela abre a porta lateral do mercado, olha rapidamente para os lados antes de entrar. Meu coração acelera com o simples gesto. Tudo ali parece clandestino demais para uma manhã comum.

Assim que entro, ela fecha a porta atrás de nós com cuidado excessivo. O silêncio do lugar vazio nos envolve. O mercado ainda dorme, mas meu corpo está completamente acordado.

— "A gente tem alguns minutos" — ela dizia, em tom baixo, quase sério demais para quem claramente está sentindo o mesmo que eu.

Cruzo os braços, tentando fingir normalidade.

— Você sempre irá fazer isso? — provoco. — Me sequestra cedo, me trazer para lugares vazios…

Ela ri de canto, aquele riso que não mostra tudo, mas promete.

— Só quando vale a pena.

Nos encaramos por tempo demais. O espaço entre nós diminui sem que nenhum passo seja dado. Sinto o cheiro dela de novo, aquele mesmo da noite passada, e meu estômago reage imediatamente.

— Verônica… — começo, sem saber exatamente o que dizer.

Ela inclina levemente a cabeça, atenta, como se cada palavra minha importasse mais do que deveria.

— Clara — responde, usando meu nome como se fosse algo delicado.

E ali, naquele mercado ainda fechado, com o medo de alguém chegar a qualquer segundo, percebo que não é só desejo.

É vontade de ficar.

Mesmo quando não é o lugar.

Mesmo quando não é a hora.

Verônica dá um passo à frente, finalmente rompendo o espaço invisível que nos separava. O ar parece mais denso quando ela se aproxima, como se o mundo lá fora tivesse sido suspenso só para aquele instante.

Sinto os dedos dela tocarem minha cintura com cautela primeiro, quase pedindo permissão. Mas o toque esquenta rápido, firme, decidido. Meu corpo responde antes que minha mente consiga formular qualquer argumento sensato. Seguro o tecido da blusa dela entre os dedos, sentindo a textura macia sob minhas mãos, a temperatura da pele que aquece por baixo.

Ela me olha como se estivesse confirmando algo que já sabia.

E então me beija.

Não é um beijo apressado. É um beijo que carrega um peso doce, um gosto de reencontro. Os lábios dela demoram nos meus como se estivessem reaprendendo o caminho. Há cheiro de perfume misturado ao café que provavelmente tomou antes de sair de casa. Há cheiro de saudade — aquele impossível de explicar, mas que eu reconheceria em qualquer lugar.

Ela desliza uma das mãos para minha nuca, os dedos se entrelaçando no meu cabelo com delicadeza possessiva. Meu coração dispara de um jeito quase irritante. Eu me aproximo mais, pressionando nossos corpos, sentindo a firmeza dela, a segurança que me envolve inteira.

Quando o beijo se aprofunda, solto um suspiro contra a boca dela. Verônica responde com um som baixo, quase um murmúrio satisfeito, como se estivesse esperando por aquilo desde sempre — ou, pelo menos, desde a última vez que estivemos assim.

Ela se afasta por um segundo, só o suficiente para encostar a testa na minha. Nossos narizes se tocam de leve. Os olhos dela estão mais escuros.

— Eu estava com saudade — ela admite, a voz rouca, sincera demais para alguém tão controlada.

Eu arqueio uma sobrancelha, fingindo indignação enquanto ainda tento recuperar o fôlego.

— Não acredito que estava com tantas saudades, nos vimos a poucas horas.

Ela ri baixinho, aquele riso que vibra no peito e passa direto para o meu. Os dedos dela apertam levemente minha cintura, como se estivesse me punindo pela provocação.

— Algumas horas são demais — responde, roçando o polegar na minha pele, desenhando círculos lentos que me fazem arrepiar. — Principalmente depois de ontem.

Sinto meu rosto esquentar, mas não recuo. Pelo contrário, puxo-a de volta pela gola da blusa, selando nossos lábios outra vez, dessa vez com menos paciência e mais verdade.

O beijo ganha intensidade, mas ainda carrega cuidado. Há pressa no toque, mas não há desespero. Só vontade. Vontade de ficar ali, mesmo com o risco, mesmo com o relógio correndo contra nós.

Quando finalmente nos afastamos, o silêncio do mercado parece diferente. Não é mais vazio. Está carregado de respirações descompassadas e olhares que dizem mais do que qualquer declaração poderia dizer.

Verônica encosta a testa na minha de novo, fechando os olhos por um instante.

E eu percebo que, se dependesse de mim, o mercado poderia abrir, o mundo poderia bater à porta.

Eu ainda escolheria ficar exatamente ali. Com ela.

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O acaso a meu favor - Página 83

 Por Verônica…

Ao reconhecer aquela silhueta andando com uma serenidade quase insolente, como se não devesse nada a ninguém, meu sorriso surge antes mesmo que eu tenha tempo de pensar sobre isso. E o pior: eu paro a caminhonete. Definitivamente, estou ficando louca.

Observando suas expressões, quase consigo ler o que se passa na cabeça dela. A dúvida, o cálculo rápido, a tentativa de manter o controle. Então falo antes que ela desista:

— Vem… acredito que ninguém esteja nos esperando a essa hora. — digo em tom leve, quase brincando, só para tranquilizá-la.

E quando ela sorri de volta, sei que parar foi a melhor loucura que cometi naquela manhã.

Ela entra no meu carro e ocupa exatamente o mesmo lugar de ontem, e isso já é o suficiente para me deixar inquieta. Como se aquele banco tivesse memória. Como se o corpo dela ali ainda carregasse tudo o que ficou suspenso na noite passada.

Como faltavam apenas algumas quadras até o mercado, não houve tempo para uma saudação à altura do que ela merece. Não um beijo, não um toque, nem sequer uma palavra certa. Apenas a levei comigo até o nosso destino, guardando tudo o que eu gostaria de ter feito para depois.

Ao parar em frente ao mercado, olho para ela — e, como se fosse combinado, a encontro me olhando de volta. Confiro o relógio de pulso. Ainda nos restam alguns minutos.

Desligo o motor, mas não desço. Nem ela. O mercado ainda está fechado, escuro por dentro, e o silêncio da rua parece maior do que deveria. Olho de novo para o relógio. Ainda temos tempo. Pouco… mas temos.

É estranho como vinte minutos podem parecer eternos e insuficientes ao mesmo tempo.

Sinto uma euforia quieta crescer dentro de mim — aquela que não dá vontade de rir alto, mas de segurar, de proteger. A lembrança da noite passada volta inteira: o beijo lento, o quase, o toque contido, a respiração compartilhada. Tudo isso ainda está aqui, pairando dentro do carro como um segredo quente.

Mas, ao mesmo tempo, qualquer barulho me deixa alerta.

Um carro passando mais devagar.
Um passo distante.
Qualquer movimento na esquina.

Meu corpo reage num misto de ansiedade e prazer. Quero esse momento só nosso, mas sei que ele é frágil. Que basta alguém chegar cedo demais para quebrar o encanto.

Olho para Clara de novo. Ela está quieta, mas não distante. Há algo no jeito como ela segura a alça da mochila, como cruza as pernas, como evita me encarar por tempo demais. É o mesmo nervosismo bom que eu sinto.

— Ainda é cedo. — digo, mais para mim do que para ela.

Ela sorri de canto, como quem entende tudo sem precisar de explicação.

E nesse sorriso, percebo que não importa se alguém chegar daqui a cinco ou a vinte minutos. Nada apaga o que vivemos. Nada desfaz o que já aconteceu entre nós.

O medo está ali, sim.
Mas a euforia…
A euforia é maior.

Porque, mesmo com o coração acelerado e os olhos atentos à rua, eu sei:
algumas coisas, quando acontecem, acontecem para sempre.

Desço do carro depressa, como se minha vida dependesse disso. Dou a volta quase correndo e abro a porta dela, tudo sob o olhar atento de Clara.

Ela desce rápido também, mas não deixa de me lançar um olhar cheio de perguntas — uma grande interrogação silenciosa estampada no rosto. É nesse instante que abro um sorriso para ela. Um sorriso cúmplice.

Como se estivéssemos fazendo algo proibido. Parada diante dela, sinto o peso de tudo o que sou e de tudo o que quero ser entrar em conflito. A Verônica responsável sabe que isso é arriscado. Que alguém pode chegar a qualquer momento. Que não é hora nem lugar.

Mas a outra…
A outra está eufórica.

Porque Clara está ali, diante de mim, com aquele olhar curioso e cúmplice, como se confiasse em mim sem perceber o quanto isso me desmonta.

Quero afastá-la. Quero protegê-la.
E, ao mesmo tempo, quero ficar exatamente onde estou.

Dou um passo para trás, só o suficiente para parecer racional, mas não o bastante para quebrar o clima.

— A gente tem pouco tempo. — digo, tentando soar firme.

Ela inclina a cabeça, me analisando, como se soubesse que minhas palavras não combinam com meus olhos.

E ela está certa.

Porque, mesmo com o medo de alguém chegar, tudo em mim vibra com a certeza de que…
valeu a pena cada segundo da noite passada.

E, de alguma forma, estivéssemos gostando exatamente disso.

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O acaso a meu favor - Página 82

 Por Clara…

Me organizo melhor por dentro. Talvez por ter acordado cedo demais para sentir, talvez por finalmente estar aprendendo a não fugir do que me atravessa. O bem-estar que sinto ao pensar em Verônica me assusta de verdade. Não o suficiente para estragar meu humor — mas o bastante para me obrigar a olhar para mim com mais honestidade do que estou acostumada.

Hoje percebo que amadureci. Não de um jeito dramático ou anunciado, mas daquele jeito silencioso que muda tudo sem pedir permissão. Se eu fosse a Clara de alguns meses atrás, estaria agora me culpando por cada sensação, cada pensamento, cada desejo. Estaria tentando me convencer de que estou errada por sentir o que sinto.

Como se estivesse ocupando um lugar que prometi a mim mesma pertencer apenas a alguém específico.
Alguém que, ironicamente, neste exato momento talvez nem esteja se perguntando se esse lugar ainda existe — muito menos se alguém o ocupa.

E essa constatação dói.
Mas também liberta.

Porque, pela primeira vez, entendo que sentir não é traição. É presença. É vida acontecendo apesar das promessas que fiz quando ainda não sabia quem eu estava me tornando.

Penso em Verônica — no jeito firme, no cuidado silencioso, na forma como ela me olha como se me enxergasse inteira, sem me pedir nada além de verdade. E percebo que não estou roubando espaço de ninguém.

Estou apenas criando o meu.

E talvez seja isso que mais me assuste:
não o que estou sentindo por ela,

mas o fato de que, agora, eu não quero mais fingir que não sinto. 


Beijo no Bento de despedida de lei, mochila nas costas e um humor que, acredito eu, ninguém rouba de mim. Eu acho.

A poucas quadras de chegar ao mercado, ouço o barulho de uma caminhonete logo atrás de mim. Nem preciso me virar para confirmar — o sorriso surge antes, convencido, automático. Então ela buzina duas vezes.

Viro na mesma hora.

Reconheço a peça. Reconheço ela.

Verônica me olha pela janela e, pela primeira vez desde que a conheço, me entrega o sorriso mais bonito que já vi. Aberto, tranquilo, verdadeiro. E só de imaginar que aquele sorriso exista por causa da noite passada — pelo beijo, pelo que não foi dito, pelo simples fato de estar me vendo ali — minha cabeça entra em curto.

É informação demais.
Sentimento demais.
Tudo ao mesmo tempo.

E enquanto fico parada, com a mochila pesando menos do que deveria e o coração pesando mais do que eu planejei, percebo uma coisa com clareza quase assustadora:

Tem coisas que mudam a gente sem fazer barulho nenhum.
E aquele sorriso…
definitivamente foi uma delas.

Ao encostar na rua, apoio os braços na janela da caminhonete e digo, simples:

— Oi.

Ela continua me olhando como se eu fosse algo raro, quase precioso, antes de responder:

— Oi. Entra, eu te dou carona.

Penso por alguns segundos antes de aceitar. Ainda eram apenas 6h37. Impossível já ter alguém no mercado — concluo, quase rindo do meu próprio pensamento.


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O acaso a meu favor - Página 81

Por Clara…

Acordo pela manhã uma hora antes do despertador. Falta só chover para completar o improvável desse acontecimento.

Mas então minha mente me trai — ou me presenteia — e me leva direto à noite de ontem. Ao sorriso. Àquela boca.
Uma euforia quente se espalha pelo meu estômago, e de repente até o calor infernal dessa cidade parece perfeito hoje.

Abraço o Bento por alguns segundos. Ele retribui com um apego incomum, mais carente do que de costume.
Cerro os olhos, desconfiada, tentando lembrar o que ele poderia ter aprontado enquanto eu não estava olhando.

Com tempo de sobra, dou um giro pelo pequeno apartamento. Tudo parece em ordem. Nenhum desastre, nenhum indício de culpa felina. Então aproveito a calma rara da manhã para passar um café — e tomá-lo sem pressa, como se o dia tivesse decidido me respeitar.

Percebo que estou mais vaidosa do que o normal. Quero o cabelo impecavelmente arrumado, cada fio no lugar certo. O perfume, escolho o mais envolvente — como se alguém pudesse senti-lo mesmo à distância.

Hoje abandono a calça jeans. Opto por uma calça de linho preta, combinada com um cinto marrom — o uniforme de lei, não é?
Mas algo em mim pede mais.
Estou com um espírito delicado, quase translúcido, então coloco brincos também. Pequenos detalhes que parecem transbordar por fora o que ainda não sei explicar por dentro.

Quando percebo, a água do café já está fervendo. Passo o pó com cuidado, e o cheiro se espalha pelo apartamento, quente, reconfortante.
Sinto-me bem.

Bem como não me sentia há muito tempo.
E, enquanto seguro a xícara entre as mãos, penso que talvez não tenha sido só uma boa noite.
Talvez tenha sido um começo.

Ao pegar o celular que ficou carregando durante a noite, encontro uma mensagem dela — enviada há uns quinze minutos. Um sorriso involuntário volta a nascer nos meus lábios, como se já soubesse o caminho.

— Bom dia, senhorita!
Consigo ouvir a voz dela na minha cabeça, clara demais, como se estivesse à minha frente.

— Espero não ter atrapalhado sua noite ao te deixar tão tarde em casa.

Mal sabe ela que foi a noite mais bem dormida que tive em tempos.

— Se quiser, posso te buscar…

E, nesse instante, meu sorriso se alarga sem pedir permissão. A euforia vem junto, acompanhada de borboletas, mosquitos, pernilongos — tudo aquilo que tenta definir o que estou sentindo agora e falha miseravelmente.

Respondo de imediato, mas com cuidado. Preciso parecer normal. Preciso não parecer emocionada.

— Bom dia, Verônica!
Simples. Contida. Quase adulta.

— A senhorita aqui dormiu muito bem. — acrescento, tentando manter o tom leve. — O que espero que também tenha acontecido com você, já que voltou tarde para casa.

Faço questão de deixar clara a preocupação. Mesmo disfarçada.

— E não, não há necessidade. — continuo. — Gosto de andar pela manhã, principalmente quando acordo tão disposta como hoje.

Ela visualiza em menos de dois minutos.
Isso me surpreende mais do que deveria.

— Bobagem. Sou acostumada a poucas horas de sono.

E então vem a próxima mensagem, certeira demais:

— E o que levou a “senhorita” a estar tão disposta hoje?

Dou uma risada baixa, sozinha na cozinha, como se tivesse sido pega no flagra.

Posso praticamente vê-la arqueando uma sobrancelha do outro lado da tela.

Claro que ela perguntaria isso.
Digito uma resposta.
Apago.
Digito outra.
Apago também.
Como explicar que acordei diferente?
Que meu corpo ainda guarda o eco da noite anterior?
Que existe uma mulher ocupando um espaço novo dentro de mim — sem pedir licença?

Seguro o celular por alguns segundos a mais do que o necessário. Respiro fundo.
E sorrio.

Porque, pela primeira vez em muito tempo, não é o medo que me deixa sem palavras.
É a vontade.

E talvez — só talvez — eu não precise responder tudo agora.

Como não respondi de imediato, ela deve ter pensado que eu ficaria em silêncio. Ainda assim, poucos instantes depois, outra mensagem dela chega..

— Fico satisfeita em saber que não estraguei sua noite, então.

Mordo o lábio, rindo sozinha.

Ela sabe exatamente o que está fazendo.

Antes que eu responda, outra mensagem chega:

— Confesso que acordei melhor do que o habitual também.

Meu estômago revira de novo — de um jeito bom, perigoso, novo.

— Talvez algumas companhias tenham esse efeito. — ela completa.

E ali entendo:

Verônica não está mais fingindo indiferença.
Está caminhando devagar… mas na mesma direção que eu.
Pelo menos, eu espero.

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O acaso a meu favor - Página 80

Por Verônica…

Depois de deixar Clara em segurança em casa, sigo para a minha com o coração estranhamente aquecido

 — ou talvez seja o estômago revirado. Não sei mais distinguir certos sentimentos na minha idade, nem quando foi que deixei de tentar.

Ao abrir a porta, encontro a casa viva. Uma movimentação discreta na cozinha chama minha atenção e, ao me aproximar, vejo Higor e Lia. Estão distraídos um no outro, rindo baixo, trocando carícias sem pressa, como quem aproveita o início da madrugada sem medo do tempo.

A cena é simples.
E, ainda assim, me atravessa.

Fico ali por alguns segundos, observando aquele afeto exposto, aquela intimidade sem defesas. Não há urgência, nem jogo de poder. Só presença.

E é então que ela me vem à mente.

Clara.

De forma inesperada. Inteira. Incômoda.

Pela primeira vez em muito tempo, não me vejo naquela cena como espectadora. Me vejo desejando ocupar aquele lugar.

E, pela primeira vez, sei exatamente quem seria a pessoa ao meu lado.

...........................................


O quarto me recebe em silêncio. Um silêncio que não acusa, mas observa. Deixo a bolsa sobre a poltrona, tiro os sapatos com o cuidado automático de quem passou a vida inteira mantendo tudo no lugar. Acendo apenas o abajur. A luz baixa me poupa de encarar o que ainda não sei nomear.

Sento na beira da cama.
E fico.

O corpo pede descanso, mas a mente se recusa. Há um calor estranho sob a pele, uma inquietação que não vem do cansaço, nem do peso do dia. Não é ansiedade. Não é medo. É algo mais antigo — algo que eu reconheço, embora finja não reconhecer.

Ela.

Fecho os olhos por um instante, e Clara surge sem pedir licença. Primeiro o riso — sempre o riso. Depois a boca, o jeito como se aproxima sem invadir, como se soubesse exatamente até onde ir. Há uma leveza nela que não exige nada, e talvez seja isso que mais me desarme.

Abro os olhos rápido, como se tivesse sido flagrada em um pensamento impróprio.
Desejo.

Ainda existe isso em mim?

Passo a mão pelo rosto, depois pelo colo, buscando ancoragem. Mas o corpo não mente. Ele lembra do cheiro dela, da proximidade no carro, da vontade contida que precisei segurar com força. Lembra da minha mão querendo ficar, do meu olhar demorando além do permitido.

Sempre fui controle.
Sempre fui contenção.

Construí minha vida assim. Não por frieza, mas por necessidade. Controle não é ausência de sentimento — é método de sobrevivência. E sobrevivi. A custo de muito.

Deito, finalmente, olhando para o teto escuro. O quarto parece maior à noite, como se amplificasse tudo aquilo que evito durante o dia. E ali, sem tarefas, sem testemunhas, não há para onde fugir.

Não foi apenas atração.
Não foi um impulso isolado.

Foi reconhecimento.

Clara não me vê como cargo, como sobrenome, como idade. Ela me vê quando rio, quando me contradigo, quando me permito errar. E isso é perigosamente íntimo.

Respiro fundo. Tento organizar os pensamentos como sempre fiz. Listar riscos. Antecipar consequências. Mas, pela primeira vez em muito tempo, essa lógica falha. Porque o que sinto não quer ser resolvido — quer ser vivido.

Viro de lado, puxo o lençol até o peito. O coração bate mais rápido do que deveria. E, num gesto que não planejei, deixo escapar um sorriso breve, quase involuntário.

Talvez seja isso que me assuste de verdade.

Não o desejo.
Mas a vontade de não lutar contra ele.

Fecho os olhos.
E, antes que o sono venha, admito em silêncio — sem promessas, sem garantias — que alguma coisa começou.

E que, pela primeira vez em anos, eu não tenho certeza se quero manter tudo sob controle.


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O acaso a meu favor - Página 79

Por Clara…

O tempo passa sem que a gente perceba. A estrada já não chama, o frio aumentou, e a noite parece pedir um ponto final que nenhuma de nós quer colocar.

Verônica olha o relógio. Suspira.

— Eu preciso te levar.

Assinto, mesmo sem querer. O caminho de volta é quieto, mas diferente — como se algo tivesse se assentado entre nós. Quando o carro para em frente à minha casa, o silêncio pesa de novo.

— Chegamos… — Ela diz, desnecessariamente.

Eu concordo com a cabeça, mas não me movo. Os dedos dela batem levemente no volante, nervosos.

Abro a porta, mas antes de sair sinto a mão dela segurar meu pulso.

— Clara.

Olho para ela.

Não há beijo.
Não há confissão.

Só o polegar dela pressionando de leve minha pele, como se estivesse gravando aquele toque para depois.

— Boa noite. — diz, num tom que promete mais do que encerra.

Sorrio. Me inclino um pouco, perto demais.

— Boa noite, Verônica.

Saio do carro sem olhar para trás.
Mas sei — sei com absoluta certeza —
que ela só arranca quando eu entro em casa.

E que essa despedida…
não terminou coisa nenhuma.



............



Ao subir as escadas do prédio onde moro, revivo cada beijo, cada toque, cada risada — como se meu corpo tivesse decidido guardar tudo antes que a razão tentasse estragar. Tento me lembrar da última vez que senti algo assim.
Mais ainda… da última vez que senti isso com uma mulher como Verônica.

Há nela um peso, uma história, um silêncio que não se oferece fácil. E, ainda assim, ali estávamos nós, rindo no banco de um carro, como se o mundo pudesse caber em coisas pequenas.

Ao girar a chave no trinco da porta, percebo algo estranho — e novo.
Pela primeira vez, não sinto aquele vazio que costumava me receber do outro lado.

Nenhum eco.
Nenhuma ausência.

Em vez disso, sinto-me cheia.
Cheia de vida.
Cheia de expectativa.

Não sei o que isso é.
Pode ser um lance raso, desses que passam rápido e deixam só lembrança.
Ou algo que, aos poucos, crie raízes onde eu jurava que nada mais cresceria.

Mas hoje…
Hoje eu me sinto viva.

E isso, por si só, já é mais do que eu tinha ontem.

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O acaso a meu favor - Página 78

Por Clara…

Depois do primeiro beijo — e do segundo, e do terceiro — o frio e a fome resolvem se anunciar ao mesmo tempo em nós duas.
E, para minha surpresa, é ela quem se rende primeiro.

Dou risada do jeito quase contrariado com que admite estar com fome, como se aquilo fosse uma falha grave no personagem que insiste em sustentar.

— Com fome, não consigo te beijar mais vezes… não é mesmo? — diz, com aquele meio sorriso torto que sempre me desmonta.

Reviro os olhos, mas acabo rindo.
Sempre acabo rindo com ela.

E então a encaro com mais atenção. As luzes distantes da cidade desenham sombras suaves no rosto dela, deixando-a… diferente. Menos rígida. Mais próxima.
Não sei nomear o que vejo — nem de onde vem esse desejo silencioso que cresce entre nós. O que significa uma mulher como Verônica querer me beijar assim, sem pressa, sem armaduras?

Tudo é confuso.
Mas não é ruim.

Meu estômago esfria e ronca, cúmplice da fome e da ansiedade. Ela percebe antes mesmo que eu diga qualquer coisa e entrelaça os dedos aos meus, puxando-me com naturalidade para o carro — como se já soubéssemos exatamente onde pertencer.

Afastamos os bancos um pouco para trás, e Verônica simplesmente devora o lanche.
Sem cerimônia.
Sem cálculo.
Sem a elegância ensaiada que costuma usar como escudo.

Ela se suja — e eu fico ali, observando, entre admirada e levemente assustada, como se estivesse vendo um segredo que não foi feito para qualquer um.

— Que foi? — pergunta, notando meu olhar preso nela.

Ainda encarando, respondo, divertida:

— Deve estar muito bom… pelo jeito que você está comendo.

Ela se olha, percebe a sujeira tarde demais e, em vez de se constranger, pega um guardanapo e joga em mim.

— Ah, não… eu não acredito nisso! — reclamo, rindo. — Todo cheio da sua baba, e você ainda tem coragem de jogar em mim?

Ela ri.
Ri de verdade.

E aquele som é estranho… e bonito demais.
Como se não fosse usado há muito tempo.

É nesse instante que entendo: a Verônica séria, cercada de compromissos, muros altos e arames farpados, simplesmente não existe ali.

O que existe é só uma mulher — madura, cansada, surpreendentemente leve — se permitindo algo que claramente não fazia há anos.

E talvez seja isso que mais me desarme.

Porque gosto de vê-la assim.
Gosto mais do que deveria.

E, pela primeira vez, me pergunto se esse sorriso dela…
não é algo que eu vá querer provocar de novo.

Depois da cena da “bagunceira” ao meu lado, começo enfim a comer o meu lanche. E, apesar de um pouco frio, está realmente muito bom — o tipo de sabor que conforta mais do que impressiona.

Reconheço na hora de onde vêm os hambúrgueres e, quase sem pensar, comento de relance que o melhor dali é o que leva cebola caramelizada.
Por que eu disse isso?

É o suficiente para que essa bendita mulher praticamente faça propaganda do lanche que estamos comendo, afirmando — com uma convicção quase ofensiva — que aquele é o melhor de todos e que ninguém, em lugar nenhum, conseguiria reproduzi-lo.

Ela não aceita, de forma alguma, que eu prefira outro.

E a expressão de indignação no rosto dela é tão genuína, tão exagerada, que me arranca risadas só pelo fato de Verônica claramente não saber lidar com a ideia de estar errada.

— Por comida você mata e morre, né? — digo, com os olhos marejados de tanto rir.

Ainda um pouco emburrada, ela acaba rindo também — do meu estado, mais do que da piada. Vejo seus ombros relaxarem, o semblante suavizar, e aquele sorriso voltar devagar, como se tivesse sido chamado de volta.

— Porque eu sei que estou certa. — responde, limpando os dedos no guardanapo, cheia de si.

E só para provocar — porque agora já é tarde demais — comento:

— Mas o pão…

Ela me lança um olhar mortal.
Desses que prometem julgamento imediato.

— Não diga mais nada sobre o pão deles!

Aí eu perco completamente o controle. Rio a ponto de torcer o corpo, tentando puxar o ar de volta para os pulmões, até acabar jogando o corpo para trás no banco, só para conseguir respirar… e para ver melhor o rosto dela.

E ali, rindo de algo tão pequeno, tão banal, percebo:
não é só o lanche que está bom.
É o momento.
É ela.

E isso me assusta quase tanto quanto me faz querer ficar mais um pouco.

Demoro alguns segundos para me recompor da risada. Meu corpo ainda treme quando volto a me ajeitar no banco, puxando o ar como se tivesse acabado de correr. E é só então que percebo: Verônica está me olhando.

Não aquele olhar rápido, distraído.
É um olhar inteiro.

Ela não diz nada. Apenas me observa como se estivesse tentando memorizar aquele instante — meu riso solto, meus olhos ainda marejados, minha falta de controle. E isso me desconcerta mais do que qualquer toque.

— Você fica diferente quando ri. — ela diz, baixa, quase sem intenção.

Meu coração dá um salto estranho, fora de ritmo.

— Diferente como? — pergunto, tentando soar casual, mas falhando miseravelmente.

Ela inclina a cabeça de leve, pensativa. O silêncio dela nunca é vazio.

— Mais você.

E pronto.
É isso que me desmonta.

Não sei o que responder. Não sei se devo brincar, provocar, fugir. Então faço a única coisa possível: continuo ali, existindo, sentindo o peso bom daquela atenção.

Ela estende a mão, quase sem perceber, e limpa com o polegar um canto da minha boca — um gesto pequeno, íntimo demais para ser inocente, simples demais para ser fingido.

— Você se sujou. — diz, mas a voz sai suave. Nada de repreensão. Nada de controle.

Engulo em seco.

— Agora você também vai jogar o guardanapo em mim? — tento brincar.

Ela sorri de canto. Um sorriso lento. Perigoso.

— Não. — responde. — Isso seria desperdício.

E fica ali.
Perto demais.
Com a mão ainda suspensa entre nós, como se não tivesse decidido se deve avançar ou recuar.

O mundo lá fora parece distante. A estrada, o frio, o tempo — tudo fica pequeno diante daquele espaço mínimo que ela ocupa ao meu lado.

— Verônica… — chamo, sem saber exatamente o porquê.

Ela me encara. E, pela primeira vez desde que a conheço, não há cálculo nenhum no rosto dela. Só verdade.

— Você bagunçou tudo. — diz. — E ainda acha graça.

Sorrio devagar.

— Você que não está acostumada com bagunça.

Ela solta um riso baixo, quase rendido.

— Talvez eu esteja aprendendo.

E ali, com cheiro de hambúrguer frio, risadas soltas e olhares demorados, entendo que algumas coisas não começam com promessas ou grandes gestos.

Algumas começam assim:
num banco de carro,
com migalhas no colo,
e uma mulher que finalmente abaixou a guarda só para eu a ver sorrindo.

E eu sei — com uma certeza que assusta —
que nada dentro de mim vai voltar ao lugar depois disso.

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O acaso a meu favor - Página 77

 Por Verônica...

Quando Clara diminui o ritmo do beijo, sinto na hora.
Não é rejeição.
É… delicadeza.


É o corpo dela tentando acompanhar o que está acontecendo — e o meu tentando não ultrapassar nenhum limite.

Eu afrouxo o toque na mesma hora. Tento puxar o ar que ela tirou de mim enquanto ainda mantenho minhas mãos no rosto dela, sem pressionar. Só segurando. Só estando ali.

Os olhos dela, quando se abrem, vêm carregados de algo que me desarma: não medo, não dúvida… mas um tipo de vulnerabilidade que me faz querer cuidar dela mais do que qualquer outra coisa.

— Ei… — digo baixo, aproximando meu rosto do dela sem voltar ao beijo. — Respira comigo.

Ela faz isso. Devagar. Quente. Tremendo.

Meu polegar passa na bochecha dela sozinho, como se minhas mãos tivessem mente própria.
O que me desespera é que ela não recua.
Pelo contrário — ela se inclina um pouco, buscando meu toque.

Meu corpo inteiro responde, mas me obrigo a ficar firme.

— Se for demais, me fala — digo, não como aviso, mas como promessa.

Ela fecha os olhos por um instante, e quando abre… eu juro que vejo um brilho novo ali. Algo que não tinha antes. Algo que me puxa.

— Não me tira de perto de você agora — ela murmura. Não é um pedido. É quase um sussurro arfado.

A respiração me falha.

Aproximei a boca dela sem encostar, sentindo a respiração quente dela roçar na minha.

— Eu não conseguiria nem se tentasse.

Desço uma das mãos para a cintura dela, segurando com firmeza, mas com um cuidado que nunca tive com ninguém. Ela corresponde, apoiando as mãos no meu peito, e mesmo esse toque leve me faz perder o chão.

Clara ergue o rosto um pouco, como se estivesse me estudando — como se quisesse ver o que está acontecendo comigo. E ela vê.
Ela vê tudo.

— Você tá… diferente — ela diz com um riso fraco, quase sem ar.

Eu sorrio de canto, mas é um sorriso quebrado, tão sincero que chega a doer.

— A culpa é sua.
Minha voz sai rouca, mais honesta do que eu pretendia.
— Eu não fico assim com ninguém.

Vejo o impacto dessas palavras nela — não medo, mas surpresa.


Boa surpresa.
Surpresa quente.

A mão dela escorrega do meu peito para o meu pescoço, lenta.
E isso…
Isso me destrói.

Aproximo minha boca do canto da dela, sem beijar, apenas tocando de leve a pele sensível ali. Ela prende a respiração. Os dedos dela apertam meu pescoço sem força, mas com vontade.

— Se soubesse o que você faz comigo… — murmuro contra o canto da boca dela, sentindo o corpo dela tremer. — Acho que teria me beijado antes.

Ela solta um riso abafado, nervoso, delicioso.

Eu seguro seu rosto pelas laterais, aproximando-a devagar, como se estivesse puxando o mundo inteiro para os meus braços.

— Posso te beijar de novo? — pergunto dessa vez, a voz baixa, quente, pedindo e ao mesmo tempo não pedindo nada.

Ela não responde com palavras.
Ela inclina o queixo.
Encosta a ponta dos lábios nos meus.
E suspira.

Esse é o “sim”.

E quando eu finalmente a beijo outra vez — devagar, profundo, com toda a calma que não tenho — sinto Clara derreter nas minhas mãos.

E eu também.

Porque agora não tem mais recuo.
Só avanço.
Dela.
E meu.


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O acaso a meu favor - Página 76

 Continuação por Clara...

O beijo que Verônica me dá é lento no começo — lento o suficiente para me deixar completamente à mercê dela.

Os lábios dela roçam nos meus quase sem tocar, como se estivessem me pedindo permissão que já têm, e só depois ela encaixa a boca na minha de um jeito que faz minhas pernas ameaçarem ceder. O ritmo é suave, mas carregado de intenção, como se ela quisesse me memorizar detalhe por detalhe.

Uma das mãos dela acompanha a curva da minha cintura, subindo pelas minhas costas num toque quente demais pra essa noite que está tão fria. Sinto cada dedo, cada linha da palma, cada centímetro da pele dela queimando a minha. A outra mão permanece na minha nuca, firme, me guiando — não para me controlar, mas como se estivesse cuidando para que eu não desmoronasse.

A respiração dela se mistura com a minha, quente, irregular, urgente de maneira contida.
É quase melhor que o próprio beijo.

Minha mão sobe pelo peito dela, sentindo o tecido da blusa e o calor que pulsa por baixo. Quando meus dedos tocam o pescoço dela, Verônica suspira entre meus lábios — um som grave, íntimo, que faz meu estômago virar um incêndio.

O beijo aprofunda.
A língua dela encontra a minha devagar, como se me explorasse, e meu corpo inteiro reage. Meus dedos se fecham no casaco dela, puxando-a mais perto, sem pensar. Só sentir.

Verônica sorri no meio do beijo — um sorriso curto, perigoso, satisfeito.


— Assim, Clara… — ela murmura contra minha boca, a voz rouca demais para eu aguentar. — Desse jeito mesmo.


Eu quase respondo, mas ela volta a me beijar, agora com mais firmeza, mais fome. O corpo dela pressiona o meu contra o carro com uma delicadeza que não esconde nada da força que ela tem. É como se ela estivesse segurando o mundo inteiro com a ponta dos dedos… e o mundo fosse eu.

O beijo fica tão profundo que quase dói parar para respirar.
E quando eu finalmente puxo o ar, ela encosta a boca no meu queixo, depois no meu pescoço, deixando beijos lentos, úmidos, quentes o suficiente para me fazer estremecer.


— Verônica… — digo num fio de voz que não parece meu.

Ela ergue o rosto, encontra meus olhos e sorri com aquele olhar que me desmonta inteira.

— Eu tô aqui, Clara.


Os dedos dela acariciam minha bochecha.


— E você não faz ideia do quanto eu queria isso.

E eu sei que é verdade.
Porque meu corpo inteiro ainda treme, e o dela também.

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O acaso a meu favor - Página 75

Continuação — por Clara…

No instante em que Verônica começa a me guiar para o carro, algo dentro de mim… trava.
Não é rejeição. Não é arrependimento.
É outra coisa — algo mais profundo, mais íntimo, mais novo do que tudo que já senti.

Meu corpo inteiro acende com o toque dela, com o jeito que suas mãos firmes seguram minha cintura, com a língua dominando o beijo como se soubesse exatamente o que eu sempre quis. E isso… isso é o que me deixa sem chão.

A vontade é tão grande que assusta.

Então, no meio desse calor todo, meu corpo instintivamente desacelera. Não puxo ela para longe — apenas diminuo a intensidade, diminuo o ritmo, como se meu corpo pedisse um segundo para entender o que está acontecendo.

O beijo amolece, perde um pouco da urgência, e se torna mais lento… mais respirar do que tocar.
E ela percebe.
Verônica sempre percebe.

Meus lábios vão soltando os dela devagar, como se ainda quisessem ficar ali. A ponta da minha testa encosta na dela, e eu respiro fundo, ofegante, tentando puxar o ar que ela roubou de mim.

Ela também respira pesado, como se estivesse lutando contra o próprio impulso.
Nossas bocas ficam ali, quase encostadas, sem se beijar — e esse “quase” lateja mais do que o beijo.

Fecho os olhos por um instante, sentindo o gosto dela ainda na minha boca, sentindo minhas próprias pernas tremerem. Meu coração bate tão rápido que tenho certeza de que ela sente contra o corpo dela.

Abro os olhos e encontro o olhar dela: quente, preocupado, atento, como se estivesse pronta para voltar um passo se eu quisesse… ou para avançar todos, se eu pedisse.

E com a voz ainda embargada, baixa demais para qualquer pessoa além dela ouvir, eu digo:

— Espera… — minhas mãos sobem para o peito dela, não empurrando, só… segurando. — Eu só… — respiro fundo, tentando me organizar. — Eu nunca… senti isso assim antes.

Vejo o rosto dela suavizar, vejo aquela força que ela tem derreter só um pouco, virando um cuidado que deixa meu estômago ainda mais quente.

Ela passa o polegar devagar na minha bochecha, num toque tão leve que me dá vontade de chorar e rir ao mesmo tempo.

— Tá tudo bem, Clara… — ela sussurra, perto demais da minha boca. — A gente vai no seu tempo.

Meu corpo relaxa um pouco com isso.
A tensão muda — não diminui — só muda de lugar.
Fica mais doce, mais íntima, mais nossa.

E nesse espaço entre uma respiração e outra, ainda colada nela, ainda com os lábios formigando, percebo que não é o carro que me preocupa.
É o fato de que, pela primeira vez, eu quero demais tudo que vem depois.

Ainda com minha testa encostada na dela, tentando recuperar o fôlego que ela arrancou de mim, sinto os dedos de Verônica deslizarem até a minha nuca num carinho lento. Quase me desfaz.

— Clara… — ela me chama tão baixinho que parece que meu nome foi feito só pra sair da boca dela.

Engulo seco.

— Eu… — Tento falar, mas a respiração ainda tropeça. — Eu só fiquei surpresa. Não é que eu não queira.

Verônica arqueia um dos cantos da boca, quase sorrindo, como se estivesse aliviada e perigosa ao mesmo tempo.

— Eu sei que você quer. — Ela diz sem arrogância — só com aquela certeza que me desmonta. — Eu senti.

Sinto meu rosto esquentar mais do que a noite fria permite.

— Verônica… — Tento reclamar, mas minha voz sai rindo e tremida.

Ela aproxima a boca da minha, a um sopro de distância.
Nem beija.
Só fica ali, me provocando com o ar que divide comigo.

— Quer que eu pare de sentir? — Ela pergunta, com aquele tom grave que me dá arrepios na espinha.

— Não… — respondo tão rápido que ela ri contra minha boca.

— Então me deixa te ouvir. — A mão dela aperta levemente minha cintura. — Te deixa sentir também.

Meu coração ameaça explodir.

— Eu senti mesmo… — admito, baixinho. — Senti tudo. E acho que ainda tô sentindo.

Ela finalmente encosta a testa na minha, os olhos fechados, como se respirasse alívio.

— Clara, eu tô tentando ir devagar — ela confessa. — Mas quando você me beija desse jeito… — A voz dela falha só um pouco. — Fica difícil lembrar onde te tocar primeiro.

Sinto meu corpo perder o chão.

— Falar assim não ajuda — digo, tentando disfarçar o tremor na minha voz.

Ela sorri contra meu queixo e sobe a mão para a linha do meu maxilar, tão devagar que me dá vontade de fechar os olhos.

— Não tô aqui pra ajudar — ela murmura. — Tô aqui porque você me deixa… completamente fora de controle.

Eu rio, sem força nenhuma para fingir que isso não me abala.

— E eu? — pergunto, quase sem ar. — Tô parecendo o quê pra você?

Verônica me olha como se estivesse vendo algo sagrado e proibido ao mesmo tempo.

— Você parece alguém que eu esperei mais tempo do que admito.
Ela desce o polegar pela minha boca.
— E parece alguém que eu quero beijar outra vez. Muito devagar.

Meu corpo inteiro responde antes da minha boca.

Encosto de leve meus lábios nos dela, num toque suave, quase um agradecimento.

— Então beija… — sussurro. — Mas assim. Desse jeito.

Verônica segura meu rosto com as duas mãos, como se eu fosse algo delicado — ou perigoso — e aproxima a boca da minha com uma paciência que me enlouquece.

— Como você quiser, Clara. — Ela murmura… e finalmente me beija de novo.

Não rápido.
Não urgente.
Mas profundamente, como se estivesse aprendendo o caminho da minha boca pela primeira vez, outra vez.

E eu deixo.
Deixo porque quero.
Porque desejo.
Porque, naquele momento, não existe mais nada além dela.

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sexta-feira, 28 de novembro de 2025

O acaso a meu favor - Página 74

 Continuação — O beijo… por Verônica

O “quase” entre nossas bocas dura longos segundos — segundos que esticam o mundo, que dilatam o ar ao nosso redor, que fazem meu peito doer de tanta vontade contida.

Clara respira bem perto, tão perto que sinto o calor do seu exalar tocar minha boca antes que ela toque de fato. E esse simples detalhe… esse pequeno roçar de ar quente… já desmonta toda a minha postura.

Minha mão aperta a cintura dela, puxando-a milímetros a mais.
Ela reage arqueando o corpo contra o meu — suave, involuntário, urgente.

E então, muito devagar, encosto minha boca na dela.

Não é um beijo imediato.
É primeiro um toque leve, quase um teste.
Um deslizar de lábios sobre lábios, tão sutil que mais parece um suspiro partilhado do que um toque real.

Mas Clara…
Clara responde como se estivesse esperando exatamente aquilo.

A respiração dela falha, e ela tenta seguir minha boca — mas eu não deixo. Ainda não. Me afasto só um fio de distância, o suficiente para sentir o corpo dela reclamar desse vazio.

Ela solta um som baixo, quase um gemido contido, e segura meu rosto com as duas mãos, como se tivesse medo que eu fugisse.

— Verônica… — ela repete, só que agora é mais grave, mais carregado de tudo o que ela segurou até aqui.

Essa forma de dizer meu nome me quebra.
Meu controle vai embora.

Volto a encostar minha boca na dela, dessa vez com mais certeza, mais fome.
Ainda devagar — mas não mais tímido.

Os lábios dela são quentes, macios, e ela me beija como alguém que precisava disso para respirar. A mão dela sobe pela minha nuca, os dedos entrelaçando-se no meu cabelo, puxando leve, guiando. Sinto uma onda quente subir pela minha coluna inteira.

Minhas duas mãos sobem lentamente pela lateral do seu corpo, os dedos explorando cada centímetro, sentindo o arrepio acender sob minha pele.
Cada toque parece acender outro nela.
E cada arrepio dela acende algo em mim.

O beijo aprofunda um pouco quando ela abre a boca devagar, como um convite silencioso — e eu o aceito. Nossas respirações se misturam num ritmo confuso, urgente e suave ao mesmo tempo, como se estivéssemos descobrindo o outro pela primeira vez.

Sinto o coração dela bater rápido contra meu peito.
Sinto a mão dela tremer um pouco na minha nuca.
Sinto que ela está entregue — não só ao beijo, mas ao que ele significa.

Eu afasto a boca só um segundo, apenas para respirar ao lado da dela.
Minhas palavras saem baixas, arranhando o silêncio:

— Eu queria isso há tanto tempo…

Clara encosta a testa na minha, a respiração quente batendo nos meus lábios.

— Então não para — ela sussurra, com um sorriso que me destrói e me reconstrói na mesma hora.

E quando a beijo novamente, com mais profundidade e mais calma — é como se o mundo tivesse sido feito só para aquele momento.
Só para nós duas.
Só para esse beijo que finalmente aconteceu… e que promete tudo o que vem depois.


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O acaso a meu favor - Página 73

Por Verônica… (continuação)

Ao ver aquele sinal — os olhos dela descendo para minha boca, a respiração presa — sinto meu corpo inteiro responder antes mesmo da minha razão. Aos poucos, deslizo minhas mãos pela lateral dos braços dela. E não só percebo… eu sinto.

O arrepio.
O tremor.
A entrega.

Quando olho para o rosto dela, encontro seus olhos fechados e um sorriso que, honestamente, me desmonta. Um sorriso de quem desejou esse momento tanto quanto eu — talvez até mais.
É o sorriso de quem finalmente chegou em casa.

Aproximo o rosto devagar e encosto na curva do pescoço dela. O toque é leve… mas o impacto é devastador. Naquele exato instante, sou arrancada do mundo como eu conhecia e jogada em outro, onde só existe ela.
E me pergunto:
Como vivi tanto tempo sem isso?

Quando “acordo” desse transe, percebo os braços dela ao redor dos meus ombros, me puxando para ainda mais perto. E aí eu entendo: ela está me deixando acessar tudo.
O pescoço.
A pele macia.
O cheiro quente que parece feito para me enlouquecer.

Por instinto — e por necessidade — a puxo com delicadeza, arrastando-a até que nossas costas encontrem a lataria do carro. Ela ri, uma risada solta, linda, encantadora.
E eu penso, com uma pontada quase dolorosa:
Pobre de quem nunca viu essa versão dela.

— Então… — começo, ainda com o rosto escondido no pescoço dela, quando a ouço perguntar, atrevida:

— O que achou do meu cheiro?

Se ela soubesse o estrago que essa pergunta faz…

Estou tão embriagada pelo perfume dela, tão tomada por tudo o que é Clara, que só consigo responder:

— Perfeito…

A palavra sai quase como um gemido, antes que minha boca substitua o cheiro por beijos. Beijos lentos, quentes, marcados pela vontade que eu passei tempo demais fingindo que não tinha.

Ela solta um suspiro abafado.
E esse som… Deus, esse som…

É como ganhar na loteria.
Como acender um fósforo dentro de um barril de pólvora.

Um sorriso surge nos meus lábios enquanto continuo beijando sua pele, e sinto algo novo, antigo, profundo despertar dentro de mim — um instinto que eu sempre mantive preso, mas que agora explode inteiro:

Eu a quero.
E dessa vez… eu não estou sozinha nisso.

...........................

Quando sinto o suspiro preso na garganta dela, algo dentro de mim simplesmente destrava. Como se aquele som fosse a chave de um cofre que eu nem sabia que existia. Minha boca ainda está encostada no seu pescoço quando percebo seus dedos apertando meus ombros, puxando-me um pouco mais, como se tivesse medo que eu fosse embora.

E eu não vou.
Não agora.
Não depois disso.

Minha mão sobe pelas costas dela, lenta, explorando, decorando cada curva por puro instinto. Sinto sua respiração falhar, sinto o corpo dela colar no meu, e pela primeira vez na noite inteira, é ela quem perde o controle.

— Verônica… — ela sussurra, e o jeito que meu nome soa na boca dela quase me faz fechar os olhos. É suave, preciso… um pedido e uma confissão ao mesmo tempo.

Eu rio baixinho contra sua pele, porque aquela resposta… aquele arrepio… aquela entrega… é tudo que eu queria desde que a vi pela primeira vez hoje.

Levo meu rosto para perto do dela, ainda sem beijá-la, apenas deixando nossas bocas dividirem o mesmo ar.

Quase encosto, quase toco — e não toco.
Quero que ela sinta. Quero que ela deseje. Quero que ela peça.

— Você não tem ideia do que faz comigo — digo, num murmúrio rouco, quase um segredo.

Clara abre os olhos devagar, como se estivesse tentando voltar de algum lugar onde só eu a levei. O sorriso dela agora é outro — não é mais doce, nem tímido. É um sorriso perigoso. Um sorriso que entende o poder que tem.

— Então mostra — ela provoca, num tom baixo, firme, que me faz prender o ar.

E é aí que meu corpo inteiro responde antes mesmo de eu pensar.
Minha mão vai à sua cintura, puxando-a para mim com uma precisão que revela o que eu escondi por tanto tempo.
Ela solta outro suspiro, ainda mais quente, e encosta a testa na minha.

O mundo parece inclinar um pouco.

— Cuidado com o que você pede — aviso, com um sorriso torto, sentindo a adrenalina correr solta. — Eu costumo entregar.

Os olhos dela brilham, e eu sei que perdi.
Ou ganhei.
Depende do ponto de vista.

E quando nossas bocas finalmente se tocam — não é um beijo inteiro. É quase. Só o suficiente para prometer algo maior.

Mas o “quase” é tão elétrico, tão absurdo, que meu corpo inteiro treme por dentro, e eu sei que depois disso… nada entre nós voltará a ser normal.


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O acaso a meu favor - Página 72

Por Verônica…

Continuo dirigindo sem rumo, só ouvindo o som baixo do motor e a respiração tranquila dela ao meu lado. É estranho… Clara parece cada vez mais confortável perto de mim, como se o carro fosse um lugar seguro. Como se eu fosse. E isso me dá uma coragem que não sei controlar, um impulso que me puxa para mais perto dela do que eu deveria.

Até que me lembro de um lugar.

Um terreno afastado da cidade, no alto de uma estrada de terra. De lá, dá pra ver todas as luzes espalhadas, como se a cidade tivesse se deitado para dormir, mas decidido continuar brilhando só pra nós duas. Já levei algumas pessoas ali… mas nunca por esse motivo. Nunca com esse peso no peito.

Pego a estrada estreita e esburacada. Clara ergue as sobrancelhas.

— Onde você tá me levando, Verônica? — ela pergunta, com um riso nervoso que denuncia tudo.

Não a encaro de imediato — se ela me olha agora, percebe que estou tremendo. Que estou suando frio. Então estendo uma das mãos até sua perna e aperto de leve, tentando passar confiança quando na verdade estou à beira de perder o controle.

— Clara…

Estaciono o carro no ponto mais alto. A cidade se acende lá embaixo, respirando luz. Desligo o motor. O silêncio é tão intenso que parece nos envolver, empurrar nossos corpos um pouco mais próximos do que deveriam estar.

Clara olha pela janela, encantada.

— Nossa… é lindo.

Ao descermos do carro, ela admira o lugar como se estivesse vendo um segredo. E eu a observo. E percebo, sem espaço para dúvidas, que já me senti atraída por mulheres de todos os tipos — idades, estilos, temperamentos… tudo que faz uma mulher ser mulher.
Mas ela… essa menina me desmonta inteira com um sorriso.
Como esse agora, iluminado pela cidade lá embaixo.

Ela desvia o olhar, mordendo a boca para não sorrir demais. Esse gesto simples me rasga por dentro. Como se abrisse um espaço novo em mim, que só ela consegue tocar.

O ar frio passa entre nós, e Clara se aproxima sem perceber. É instintivo. Ou talvez… talvez seja eu.

Fico ao lado dela, observando a cidade, mas consciente demais do corpo dela a poucos centímetros do meu.

Ela abraça o próprio corpo e, ainda olhando as luzes, pergunta:

— Vê…

Segunda vez na noite que ela me chama assim. E, Deus… como esse apelido soa bonito vindo da boca dela.

— O que exatamente estamos fazendo aqui? — ela me olha com aquela confusão tão dela, aquele misto de inocência e intensidade que me faz perder o ar.

A pergunta dela faz a ansiedade que eu achei ter deixado no carro voltar com força. Ela me olha como se estivesse tentando me decifrar, e isso me desmonta.
Será que ela realmente não percebe?
Será que estou sozinha nisso?

Ela se coloca na minha frente — mais baixa, mais próxima — e eu encaro aqueles olhos castanhos que parecem querer me puxar inteira para dentro deles.

Sem pensar, uma das minhas mãos vai até seu rosto. Puxo uma mecha de cabelo para trás da orelha, mas minha mão não volta. Ela repousa no pescoço dela, quente, frágil, tão perto da pulsação acelerada.

E é aí que eu vejo.
Eu vejo.

Os olhos dela vacilam.
Depois descem.
Direto para a minha boca.

Meu coração dispara tão forte que sinto no meu próprio pescoço, no meu pulso, em todo lugar.

Nesse instante, eu entendo:

Ou eu falo agora o que sinto…

Ou finalmente cedo ao desejo que estou segurando desde o primeiro dia — e afogo tudo na boca dessa menina.

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O acaso a meu favor - Página 91

Por Clara III: Ao sair do mercado do Valentino, solto o ar que nem percebi que estava prendendo. Vem um alívio. Mas junto dele, um sorriso t...