Mostrando postagens com marcador O acaso a meu favor. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador O acaso a meu favor. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 2 de março de 2026

O acaso a meu favor - Página 91

Por Clara III:

Ao sair do mercado do Valentino, solto o ar que nem percebi que estava prendendo.

Vem um alívio.

Mas junto dele, um sorriso torto… e a preocupação.

Pelo menos ninguém vai ser prejudicado.
Pelo menos ninguém vai ser demitido.

Eu e o Luiz voltamos conversando, ou melhor — ele falando sem parar sobre a proposta do Valentino, enquanto eu reviro os olhos a cada frase e apresso o passo, dizendo que a gente precisa buscar o restante da mercadoria.

Não quero prolongar assunto nenhum que envolva aquele homem.

O Valentino fez uma cópia da nota para mim e ficou com a original.

Seguro o papel com força enquanto atravesso a rua de volta.

Assim que entro no mercado, o ar parece diferente.

Vejo Augusto no caixa.

E nem sinal da Verônica.
Meu estômago afunda.

Ele me vê.
Levanta na mesma hora.
E vem na minha direção.

— Clara, o que você estava fazendo no mercado do Valentino?

A pergunta é uma mistura de dúvida com fúria mal disfarçada.

Olho para ele já sem vontade nenhuma de sustentar aquela conversa.

— Eu? — respondo, seca. — Estava resolvendo um probleminha seu.

O olhar dele pesa nas minhas costas.
Mas eu não paro.

Levo o carrinho direto para o centro do mercado e começo a organizar o que ainda precisa ser devolvido.

Luiz me acompanha em silêncio agora.
Nós dois aceleramos.

Não queremos testar de novo a “boa vontade” daquele desgraçado do Valentino.

Cada caixa recolocada no carrinho é um passo mais perto de terminar logo com aquilo.

Um passo mais perto de sair daquele clima.
Um passo mais perto de… encontrar a Verônica.

Mesmo sem saber como.
Mesmo sem saber com que olhar.
Quando já estou empurrando o carrinho em direção à porta para voltar lá, Augusto aparece de novo e segura o carrinho antes que eu passe.

— Pode deixar que eu levo o restante.

A frase sai fria.
Cheia de uma arrogância que me faz travar o maxilar na hora.
Não é ajuda.
É disputa.
É ego ferido.
E, sinceramente, eu não tenho mais energia nenhuma para isso.
Não quero discutir.
Não quero olhar para ele.
Não quero ficar sob aquele olhar que só me lembra o tamanho do problema que ele causou.
Solto o carrinho sem insistir.

— É todo seu.

Passo por ele sem encostar.
Sem olhar.
Sem esperar resposta.
Porque, naquele momento, a única coisa que importa…

é encontrar a Verônica.

E descobrir em qual lugar do mundo dela eu ainda existo.

________________________

Desde que cheguei do mercado do Valentino, a Verônica não saiu daquele escritório.

Vejo o Augusto entrar e sair algumas vezes, mas nada dela.

Nada.

Meu Deus… parece que meu coração vai parar se eu não a vir, se eu não resolver isso com essa mulher.

Vejo as meninas chegarem para o turno delas.

Elas me cumprimentam com a alegria de sempre, perguntam coisas do caixa, do movimento, da entrega…

E eu respondo com um sorriso forçado.
Um sorriso que nem eu acredito.
Então a porta do escritório abre.

E é como se todo o ar do mercado mudasse.

É ela.

Óculos escuros.
Postura reta.
Passos firmes.

Fria.
Distante.
Intocável.

Meu corpo inteiro reage, como se tivesse sido programado para reconhecer cada movimento dela.
Eu espero.

Mesmo sem perceber que estou esperando.
Um olhar.
Um segundo.
Qualquer coisa.
Mas ela passa por mim.
Direto.
Sem virar o rosto.
Sem diminuir o passo.
Sem nada.

E aquilo me destrói de um jeito que nem a briga mais feia conseguiria.

Respiro fundo.
Muito fundo.

Porque eu sei que errei em ter dado ouvidos à Elise.
Mas era isso ou ela arrumar outra confusão dentro do mercado.

E pior.
Em horário de funcionamento.
Eu fiz para evitar um problema.
E criei outro.
Um muito pior.

Vou para o galpão porque preciso sentar.
Preciso de um minuto.
Preciso de um lugar onde ninguém veja que eu estou prestes a desmoronar.

O barulho da porta atrás de mim confirma o que eu já sabia.
Não preciso me virar.
Eu sei quem é.
Augusto.

E, naquele momento, tudo o que eu menos precisava…
era dele.

Não me viro de imediato.

Fico sentada na cadeira de plástico, encarando o chão, tentando organizar a respiração.

Mas o silêncio dele atrás de mim não é um silêncio comum.

É pesado.
Carregado.

— Você está se achando muito importante, né?

A voz do Augusto ecoa no galpão vazio.
Fecho os olhos por um segundo.
Eu realmente não precisava disso agora.
Viro devagar.

— Se for sobre a mercadoria, já foi resolvido.

Ele solta uma risada sem humor.

Dá dois passos na minha direção.

— Você foi até o mercado do Valentino sem falar comigo.

Cruzo os braços, mais para me segurar do que por coragem.

— Alguém precisava resolver o erro.
O maxilar dele trava.

— Você passou por cima de mim.
— Você causou o problema.

A resposta sai automática.
Cansada.
Sem paciência.
Sem medo.
Ele chega mais perto.
Perto demais.

— Cuidado com a forma que fala comigo, Clara. Eu ainda sou seu gerente.

Solto o ar pelo nariz, sentindo o resto de controle que eu tenho indo embora.

— Então começa a agir como um.
O olhar dele escurece.

— Eu posso acabar com a sua permanência aqui.
E, naquele momento…

eu rio.
Baixo.
Sem humor nenhum.

— Engraçado… — inclino a cabeça — porque eu também posso acabar com a sua.

Ele franze a testa, mas ainda tenta sustentar a pose.
É aí que eu levanto.
Ficamos frente a frente.

— Sua esposa sabe das suas horas “extras”?
O sangue some do rosto dele na hora.
Na mesma hora.

— Ou você ainda está dizendo que fica até mais tarde por causa do fechamento do caixa… quando, na verdade, está com a Juliana?

O silêncio vira outra coisa.
Não é mais confronto.
É ameaça.
De verdade.
Dou um passo para mais perto.
Baixo a voz.

— Inclusive… ela já contou para você?
Ele engole seco.
Não responde.
E isso é resposta suficiente.
Inclino um pouco mais.

— Se é que o filho que ela está esperando é seu… não é mesmo, Augusto?

Agora ele está completamente sem cor.
Sem ar.
Sem postura.
Nada daquele gerente arrogante de minutos atrás.
Só um homem encurralado.
Pego minha bolsa na cadeira, passando por ele sem encostar.

— Fica tranquilo — digo, já indo em direção à porta — eu não tenho interesse nenhum na sua vida.

Paro antes de sair.
Sem olhar para trás.

Só não mexe na minha.

Abro a porta e volto para o salão.
Com as pernas tremendo.
Com o coração disparado.
Mas com uma única certeza queimando dentro do peito:

Se tem uma coisa que eu não vou permitir…
é que alguém me destrua
no mesmo dia em que a Verônica decidiu fazer isso sem nem olhar para mim.

Próxima página - O acaso a meu favor ... 



O acaso a meu favor - Página 90

Por Clara ll:

O cartão ainda está na mão dele quando tudo muda.
O olhar deixa de ser curioso.

Fica técnico.
Frio.
Profissional.

— A nota fiscal — ele pede, estendendo a mão como se estivesse acostumado a ser atendido imediatamente.

Não há grosseria.

Mas também não há espaço para hesitação.
Procuro na pasta que trouxe apertada contra o peito e entrego o papel.

Ele não pega de qualquer jeito.
Confere primeiro o cabeçalho.

O CNPJ.
O endereço.
A data.
Cada detalhe.

Luiz e eu ficamos em silêncio, como dois alunos diante de uma prova oral.

— Quem recebeu essa mercadoria? — pergunta, sem tirar os olhos do documento.

— Um funcionário novo — respondo.
Ele solta um “hum” quase imperceptível.
Então estende a nota para um dos encarregados ao lado.

— Confere item por item.

Aponta para outro funcionário.

— Você, com eles. Verifica as quantidades.

É automático.
É organizado.
É rápido.

Em poucos segundos, estamos cercados por gente abrindo caixas térmicas improvisadas, conferindo códigos, olhando validade, passando as mãos nas embalagens já geladas pela umidade.

Eu observo tudo com o coração na garganta.
Não tem mais como voltar atrás.

— Onde está o restante da mercadoria?

A pergunta vem direta.
Sem olhar para mim.

— No nosso estoque. Nós trouxemos primeiro os congelados por causa da temperatura — respondo, tentando manter a voz firme.

Agora ele me olha.
Direto.
E assente de leve.

Como se aquilo fosse exatamente a resposta que ele esperava.

— Pelo menos alguém pensou.

Não sei se é um elogio.
Não sei se é uma provocação.
Mas sinto o rosto esquentar.
Os minutos passam arrastados.

Cada “confere”.
Cada “ok”.

Cada produto recolocado nas caixas.
É um julgamento.

E eu sinto como se estivesse sendo avaliada junto com eles.

Valentino pega novamente a nota, faz algumas marcações com uma caneta que surgiu do nada, confere com o que os funcionários dizem em voz baixa.

O silêncio ao redor começa a chamar atenção de quem entra no mercado.

Eu só consigo pensar em uma coisa:
Verônica.
No que ela faria.
Na forma segura como ela falaria.
Na postura que ela teria.
Endireito os ombros.
Não por mim.
Por ela.

Por representar o mercado dela aqui.
Por não deixar que isso vire motivo de deboche.

Certo! — ele diz por fim, dobrando a nota com calma. — A conferência está correta.

Meu coração dispara.
Mas ele ainda não terminou.
Ele nunca termina na primeira frase.
Ele dá um passo na minha direção.
Perto o suficiente para que só eu ouça o resto.

— Eu vou aceitar a devolução.

O ar volta para os meus pulmões de uma vez só.
Luiz solta o fôlego ao meu lado.
Mas então vem o sorriso.
Aquele sorriso de canto.
Aquele que não é bondade.
É aviso.

— Mesmo fora das embalagens corretas.
Ele inclina levemente a cabeça.

— Considere isso… uma exceção.
Sinto que tem mais.

E tem.

— Porque foi você quem veio trazer.
As palavras param no ar entre nós.

— E não a arrogância da família Moreli.

É como um tapa.
Não em mim.
Nela.
E isso dói de um jeito absurdo.
Meu maxilar trava.
Porque eu sei que ele quer uma reação.
Quer que eu defenda.
Quer confirmar alguma coisa.
Mas eu não dou.
Não ali.
Não no mercado dele.
Não na frente dos funcionários dele.
Engulo seco.

— Obrigada por aceitar a devolução. — respondo, profissional.

Fria.
Do jeito que a Verônica faria.
O sorriso dele aumenta um milímetro.
Como se tivesse entendido exatamente o que aconteceu dentro de mim.

— Não haverá uma próxima vez amigável.

Agora é para todos ouvirem.
Para mim.
Para o Luiz.
Para os funcionários.
Para o mercado inteiro.
Um aviso.
Uma linha traçada.
Uma guerra declarada sem precisar levantar a voz.
Assinto.

Porque não tem mais nada que eu possa fazer.
Os funcionários começam a recolher as mercadorias.
O carrinho vai ficando vazio.
E, com ele, uma parte do peso que eu estava carregando.
Mas não tudo.
Porque o nome dela ainda está ecoando na minha cabeça.

“Arrogância da família Moreli.”

Como se ele não soubesse.
Como se ele não entendesse.
Como se por trás daquela postura tivesse alguém que virou noites tentando salvar um lugar que já estava caindo.

Viro o rosto para a saída.
Antes que ele veja qualquer coisa no meu olhar.
Porque, naquele momento, eu tenho certeza de duas coisas:

Eu faria tudo de novo.
Sem pensar.
Por ela.
E, se alguém falar daquele jeito da Verônica na minha frente outra vez…

Eu não sei se vou conseguir ficar em silêncio.

Próxima página - O acaso a meu favor ... 

O acaso a meu favor - Página 89

Por Clara:

Mas que ódio de mim.
Ódio da Elise.
Ódio do universo.

Claro que eu sabia que ela estaria vendo eu conversar com a Elise. Até achei que ela estava demorando para aparecer… ou, pior, que simplesmente não tinha se importado.

Mas, quando menos esperei, ela estava lá.
Me olhando como se pudesse me matar só com os olhos.

A verdade é que eu não queria falar com ela.
Não naquele momento.
Não ali.
Não depois de hoje de manhã.

Mas ou eu conversava e encerrava aquela “relação” de interesses, ou ia perder o pouco que tenho com a Verônica — se é que já não perdi.

Minha cabeça está explodindo.

O novato recebeu uma mercadoria do nojento do Valentino.

O Augusto já tinha me falado dele algumas vezes… que a família da Verônica nunca foi com a cara dele.

E agora sou eu, com a cara e a coragem, indo até um dos mercados dele para falar com um gerente — ou com o próprio — para devolver essa mercadoria.
E contando com a sorte.

Não estou fazendo isso para impressionar a Verônica.

Nem para amenizar a minha situação.
Estou fazendo para que ninguém saia prejudicado.
Principalmente ela.

A Verônica vem trabalhando dia e noite para aquele mercado funcionar.

Para mudar tudo.
Para levantar o que estava caindo.
E, se depender de mim, nada do que ela fez vai ser em vão.

Não vai ser um erro causado pelo ego do Augusto que vai jogar tudo o que ela construiu por água abaixo.

____________

O peso do carrinho parece menor do que o peso da minha cabeça.

Luiz empurra o outro ao meu lado em silêncio, como se entendesse que qualquer pergunta agora faria tudo desmoronar. As rodas tremem a cada desnível do calçamento, fazendo os produtos congelados chacoalharem dentro das caixas improvisadas.

Cada solavanco me dá um pequeno ataque no coração.

Não é só mercadoria.
É o nome da Verônica.
É o mercado dela.

É tudo o que ela veio reconstruir em Caldas Novas.
O sol da manhã já começa a esquentar a nuca, e eu sinto uma gota de suor escorrer pelas minhas costas. Minhas mãos estão geladas, mesmo com o esforço.

Engulo seco.

Porque, a cada passo que dou em direção ao mercado do Valentino, tenho a sensação de estar atravessando uma linha invisível.

Território inimigo.

Vai dar certo — Luiz murmura, mais para me acalmar do que por certeza.

Forço um sorriso que não existe.
Vai dar certo.
Tem que dar.
Não por mim.
Por ela.

Por mais que, neste exato momento, eu não saiba em que lugar eu estou na vida da Verônica.

Porque a forma como ela me olhou…
Fecho os olhos por um segundo enquanto empurro o carrinho.

Aquilo não foi só raiva.
Aquilo foi distância.
E isso dói muito mais.

A fachada do mercado do Valentino aparece na esquina como um deboche do destino.
Maior.
Mais moderno.
Chamativo.

As portas de vidro abertas, o ar-condicionado escapando para a rua, os funcionários uniformizados, tudo funcionando em perfeita harmonia.

É impossível não comparar.
É impossível não pensar na pressão que a Verônica carrega.

É impossível não sentir ainda mais responsabilidade.

— É aqui — digo, mesmo sendo óbvio.
Minhas mãos começam a suar de verdade agora.
Cada passo até a entrada parece um teste.

Eu estou entrando no lugar que representa tudo que tenta derrubar o mercado dela.
E estou fazendo isso sozinha.
Sozinha não.
Por ela.

Passo pelas portas automáticas empurrando o carrinho, sentindo os olhares se voltarem imediatamente.

Claro.
Duas pessoas entrando com carrinhos cheios de mercadoria.
Mercadoria deles.
Errada.

Meu coração bate no ouvido.
Um dos funcionários se aproxima, confuso.
— Posso ajudar?

Abro a boca, mas minha voz não sai.
Penso na Verônica.
Na forma como ela prende o cabelo quando está nervosa.
Na maneira como anda pelo mercado como se tivesse nascido ali.
No olhar dela hoje de manhã.
No gosto do beijo.
Na distância de agora.

Respiro fundo.

— Essa mercadoria foi entregue no mercado errado. Nós viemos devolver.

Minha voz sai firme.
Mais do que eu estou me sentindo.
O homem parece ainda mais confuso, olha para os produtos, olha para mim, olha para o Luiz.

E então eu sinto.
Antes mesmo de ver.
A presença.
É como uma mudança no ar.
Alguém para ao nosso lado.

— Interessante…
A voz é calma. Segura. Quase divertida.
Viro o rosto.

E sei exatamente quem é.
Não porque já vi.

Mas porque a forma como ele me observa não é de um simples gerente.

É de alguém que está acostumado a estar no controle.

Valentino.

Ele analisa primeiro os carrinhos.
Depois o uniforme do mercado da Verônica.
E só então para em mim.
Sem pressa.

Como se estivesse montando um quebra-cabeça.

— Então foi você que decidiu trazer pessoalmente.

Não é uma pergunta.
É uma constatação.

Sinto meu orgulho se contorcer dentro do peito.
Porque eu estou aqui.
No mercado dele.
Tentando consertar um erro que nem foi meu.
Por causa dela.
Endireito os ombros.

— Foi um erro nosso. Estou tentando evitar prejuízo para os dois lados.

Ele sorri de canto.
Mas não é um sorriso simpático.
É um sorriso de quem está avaliando.

— Gerente?
— Operadora de caixa.

Ele ergue as sobrancelhas, claramente surpreso.
Olha para o Luiz.
Para os carrinhos.
Para a forma como os produtos estão separados.
Organizados.
Pensados.

— E ainda assim foi você quem resolveu isso.
Não respondo.

Porque não foi sobre mim.
Nunca foi.
Mas ele continua me olhando como se eu fosse um dado novo em um jogo antigo.

— Qual é o seu nome?

Hesito por um segundo.
Como se falar meu nome ali fosse uma traição.

— Clara.

Ele repete, como se estivesse guardando.

— Clara… você sabe que a maioria dos gerentes dos mercados daqui teria ligado, discutido, tentado empurrar a culpa para quem recebeu.
Dá um passo mais perto.

— Você veio pessoalmente. Com os produtos organizados. Pensando na perda dos congelados.

Meu coração dispara.
Não pelo elogio.
Mas pelo peso do que isso significa.

— Estou pensando no prejuízo — respondo.
Mas nós duas sabemos que não é só isso.

Ele inclina levemente a cabeça.

— Se um dia quiser trabalhar em um lugar onde essa sua iniciativa seja reconhecida da maneira certa… — ele tira um cartão do bolso e estende — … as portas estão abertas.

O mundo para por um segundo.
O cartão na mão dele.
O nome do mercado.
O rival.
O inimigo.
A oportunidade.
E, na minha cabeça, só existe uma imagem:
Verônica.
Me olhando.
Aquele olhar.
Meu estômago afunda.
Não é sobre emprego.
Nunca seria.
Não para mim.
Não ali.
Não vindo dele.
Não quando tudo em mim pertence àquele outro mercado.
Àquela outra mulher.
Dou um passo para trás.

— Eu não fiz isso por reconhecimento.

Minha voz falha pela primeira vez.
Mas continuo.

— Fiz porque era o certo.
Ele sorri de novo.
Dessa vez diferente.

Como se tivesse entendido algo que eu não disse.

— Foi o que eu imaginei.

Ele não insiste.

Mas também não tira os olhos de mim.
E isso me dá ainda mais certeza:
A guerra entre os dois mercados é real.
E, de alguma forma, agora eu estou no meio dela.
Seguro o ar dentro dos pulmões.

Porque, pela primeira vez desde que saí de lá…
O medo não é só de ter perdido a Verônica.
É de perceber o quanto tudo ao redor dela é maior do que nós duas.

Muito maior.
Mas, mesmo assim…
Mesmo com o orgulho ferido.
Mesmo com o olhar distante dela.
Mesmo com a Elise.
Mesmo com esse desastre.

Se for preciso atravessar essa cidade inteira empurrando carrinhos…
Eu atravesso.
Por ela.

Próxima página - O acaso a meu favor ... 

O acaso a meu favor - Página 88

Por Verônica III

Como os dois mercados do Valentino ficam a apenas uma quadra da minha empresa, vejo Clara e o repositor saírem a pé mesmo, empurrando um carrinho cada um — principalmente o dos congelados —, deixando outros dois aqui no supermercado.

— Mas que menina teimosa… — penso comigo mesma, sentindo o maxilar travar.

Não é covardia não resolver pessoalmente o erro do meu, até então, gerente.

É orgulho.

E nunca — nunca — Valentino vai me ver implorando por causa de um erro fútil como o de hoje.

Vejo Clara seguir determinada pelo calçamento, forçando o carrinho, sem olhar para trás.

E eu não sei exatamente explicar o que estou sentindo agora.

Isso me desconcerta.
Me faz estranhar a mulher que eu sou.

A frieza que sempre existiu em mim… vacila.

Estou seriamente preocupada com a forma como o que eu e Clara temos pode me desalinh ar, pode me tirar do foco que me trouxe para Caldas Novas.

Reerguer o negócio da família.

Esse sempre foi o plano.

Sempre.

Ao assumir o caixa no lugar de Clara, fico refletindo entre um atendimento e outro.

Penso em mil e uma maneiras de amenizar o que tenho com ela.

Ou, pelo menos, tentar.

Vejo Augusto surgir na minha frente, visivelmente assustado, e nesse exato momento me levanto da cadeira.

— Verônica… eu… — ele gagueja, a voz falhando. — Eu sinto… sinto muito.

Fico olhando nos olhos dele como se pudesse estilhaçá-lo apenas com o olhar.

Sem pressa.
Sem suavizar.

— Apenas resolva esse problema o mais rápido possível.

Ele engole em seco.

O nervosismo dele é quase palpável.

— O-onde está a n-nota, Verônica? — pergunta com cautela, escolhendo cada palavra como se pisasse em cacos de vidro.

E eu espero que ele continue assim por um bom tempo.

A nota está nas mãos da Clara.

O olhar assustado se transforma em confusão.

— Clara? Por que estaria com a Clara?

Sustento o silêncio só para vê-lo se perder dentro dele.

— Mas… cadê ela? Eu… eu preciso fazer alguma coisa… devolver a mercadoria ou… ou localizar a nossa… eu… eu…

Levanto apenas uma das mãos.

Um gesto pequeno.
Suficiente.
Ele se cala na mesma hora.

— Quando Clara chegar, peça explicações. Já que errar está sendo um trabalho em equipe, nada mais justo.

Saio de trás do caixa, e ele entende — sem que eu precise dizer nada — que aquele lugar agora é dele.

E que o erro também.

Ele se ajeita atrás do caixa como quem aceita uma sentença.

Não agradece.
Não questiona.
Não respira direito.

E eu gosto disso.

Gosto de ver que ele entendeu o peso do erro.
Que entendeu que, ali, quem sustenta tudo sou eu.
Dou dois passos para trás, observando por alguns segundos.

Ele erra o código de uma mercadoria.

As mãos tremem.
Perfeito.

Viro as costas antes que ele perceba que continuo olhando.

Mas o controle que eu tenho sobre o mercado não chega nem perto do controle que perdi sobre mim.
Porque, inevitavelmente, meu pensamento volta para Clara.

Para nós duas.
Para a noite passada.

Como é que, em questão de horas, tudo saiu de algo… perfeito… para isso?

Ontem havia silêncio, respiração compartilhada, cuidado.

O gosto dela ainda estava na minha boca quando cheguei em casa.

Hoje existe um mercado em crise, um gerente incompetente, mercadoria no lugar errado…

E Elise.

O nome atravessa minha mente como um arranhão.

A turista.
A conversa.
O olhar de Elise para ela.

A forma como as duas estavam próximas.

A trégua silenciosa que Clara me ofereceu mais cedo — e que agora parece distante, quase inexistente.

Solto o ar devagar, sentindo a mandíbula travada.

Não é só o problema do mercado.
Nunca é só o mercado.

É a sensação absurda de que, em uma única noite, eu permiti que alguém atravessasse todas as minhas defesas…

E, na manhã seguinte, já estou disputando espaço com outra pessoa.

Como se o que aconteceu entre nós pudesse ser substituído.
Como se fosse… pouco.

Passo a mão pelos cabelos, tentando recuperar o eixo.

Não posso me desalinhar.
Não por causa disso.
Não por causa dela.

Eu vim para essa cidade com um objetivo.
Reerguer o negócio da minha família.

Frieza.
Foco.
Controle.

É isso que sempre funcionou.

Mas então me vem a imagem dela empurrando o carrinho pela calçada, carregando um problema que era meu.

Determinada.
Teimosa.
Brilhante.

E, pela primeira vez em muito tempo…

Eu não sei se quero voltar a ser a mulher que era antes dela.

Próxima página - O acaso a meu favor ... 




O acaso a meu favor - Página 87

Por Verônica II.

Vejo Clara voltar para o caixa sem que eu precise dizer uma única palavra.

Ela simplesmente vai.
Assume o lugar.

Postura reta, movimentos rápidos, a educação impecável de sempre. Em menos de dez minutos atende os três clientes como se o mundo ao redor não estivesse desmoronando.

Como se entre nós não existisse um silêncio pesado desde cedo.

Observo de longe.

O controle que ela tem
.
A segurança.

A forma como resolve tudo com uma naturalidade que me desarma.

Como se nada tivesse acontecido.
Como se o caos no meio do mercado não estivesse correndo contra o tempo.

Quando ela termina, vem direto até mim.
Sem rodeios.

— Podemos pelo menos devolver para a empresa correta?

Ela não faz ideia.
Não sabe que a empresa “correta” é o meu maior rival.

Perfeito.

Respiro fundo, mantendo a expressão neutra.
— Estou vendo o que posso fazer, Clara.

Mas o meu “resolver” naquele momento é ligar para o Augusto e fazer com que ele assuma a responsabilidade por isso.
Levo o celular ao ouvido.

Chama.

Chama.

Nada.

— Você sabe quantas caixas foram abertas? — ela pergunta, já se abaixando no meio da mercadoria espalhada.

— Sim, sim. Sabemos — respondo automaticamente.
Mas não sabemos.

Não de verdade.

Vejo quando ela pede para o Luiz trazer carrinhos.
Ela não pede minha autorização.
Ela não espera.

— Me deixa ver a nota novamente, Verônica.
Ainda com o celular no ouvido, estendo o papel para ela.

Ela não olha para mim.

E isso me atinge de um jeito completamente desproporcional.

Ela começa a agir.
Retira os produtos das prateleiras.
Separa por tipo.
Organiza.
Rápida.
Focada.

Como se o tempo estivesse gritando no ouvido dela.
E está.

Os congelados.

Droga.
Sinto a pressão subir pelo meu corpo.

— Clara — chamo, já sem conseguir esconder a irritação —, como eu vou devolver essa mercadoria para a empresa correta sem as caixas? Sem a embalagem adequada?

Ela não para.

Nem por um segundo.
— Simples! — responde, e o deboche na voz dela me acerta em cheio.

Então ela me olha.
Direto.
Sem recuar.

— Fica aí ligando para quem você quiser. Eu e o Luiz tentamos devolver para a empresa correta.

É um desafio.
É provocação.
Mas é, acima de tudo, uma solução.

Ela volta ao trabalho no mesmo instante, ajoelhada no chão frio do corredor, salvando um problema que era meu.

E isso me irrita.
Porque está funcionando.
Porque é eficiente.

Porque ela não precisou de mim para começar.
Solto um suspiro nervoso e assumo o caixa.
O celular ainda no ouvido.

A ligação chamando de novo.
Minha voz volta ao automático.

— Bom dia.
— Crédito ou débito?
— Obrigada, volte sempre.

Mas nada em mim está ali.

Minha atenção está dividida entre o telefone, o prejuízo e Clara no chão do mercado, prendendo o cabelo de qualquer jeito, dando ordens para o Luiz, conferindo produto por produto com uma concentração que eu conheço.

E que eu admiro.
Ela não olha para mim.
Nem uma vez.
E isso incomoda mais do que o deboche.
Muito mais.

Atendo outro cliente com o sorriso profissional que todos conhecem.

Mas meus olhos escapam para ela de novo.
Para a forma como assume.
Para a forma como resolve.
Para a forma como, mesmo irritada comigo, continua lutando pelo mercado.
Lutando contra o tempo.
Lutando por algo que é meu.

Que é nosso.

E é nesse instante que a verdade vem, crua, impossível de ignorar:

Ela não está salvando só a mercadoria.
Ela está salvando a mim.

Próxima página - O acaso a meu favor ... 

O acaso a meu favor - Página 86

Por Verônica.

Não pensei duas vezes. Abri a porta com força, chamando a atenção de um dos repositores que organizava produtos perto da minha sala.

Quando me aproximei da entrada do mercado, ouvi, na lateral, a voz carregada de raiva de uma mulher mais velha. Clara estava na frente dela, com a expressão de pura culpa.

Mas ela disse que não tinha nada com essa mulher… pensei.

Assim que nossos olhos se encontraram, Clara me lançou um olhar assustado, daqueles que imploram: “Posso explicar.”

A outra revirou os olhos, como se a minha presença fosse um incômodo.
Desgraçada.

— Não lembro de ter me pedido, nem ao Augusto, pra sair do caixa, Clara — falei, ríspida.


Clara abaixou a cabeça quando falei. O peso da culpa era visível.

Estava sozinha no caixa naquela manhã — a cidade vazia, o mercado quieto demais.

— Volta pro caixa, Clara — pedi, firme, mesmo sentindo o peito apertar.

Ela saiu sem discutir. E quando sumiu de vista, o silêncio entre nós ficou insuportável.
Olhei para a mulher.

— Você realmente não entendeu o que eu disse ontem?

— Não! — ela respondeu, com um meio sorriso provocador. 

— Porque quem falou foi você por ela.
Respirei fundo. A lembrança de ontem ainda queimava, misturada com uma insegurança que eu odiava sentir.

— Vai por mim… aquilo que fizemos ontem foi a confirmação da minha resposta pra você.— devolvi, fuzilando-a com o olhar, apesar da ponta de insegurança que aquela mulher ainda me causava.

Por um instante, vi a raiva nos olhos dela… e também a dúvida.

Foi aí que encontrei coragem.

— Se você se importa minimamente com ela… vai embora. Some da vida da Clara!

Era uma ordem… mas também um pedido.

Ela me fuzila com o olhar.
Por um segundo, tenho certeza de que vai me confrontar ali mesmo, na frente de todo mundo.
Mas o que vem em seguida não é confirmação.
É trégua.

Uma trégua silenciosa, pesada, que me atinge mais do que qualquer discussão.

— Tudo, tudo bem — ela diz, com um ar de rendição que não combina com ela. — O importante é ela estar bem.
Aceitação.

Falsa.

Consigo ver no jeito como os ombros dela ficam tensos, no sorriso que não alcança os olhos.

— É — respondo.

E continuo encarando.
Porque desviar agora seria admitir demais.
Ela sustenta meu olhar por mais alguns segundos — tempo suficiente para que tudo que não pode ser dito passe entre nós — e então sai, ainda me olhando, como se estivesse esperando que eu a dissesse mais alguma coisa.

Não tenho mais nada a falar.

Passo as mãos pelos cabelos, jogando-os para trás, num gesto impaciente que entrega mais do que eu gostaria.

É quando percebo.

Algumas das poucas pessoas que já estão no mercado observam a cena.

Rápido demais para ser discreto.
Lento demais para parecer natural.
Endireito a postura imediatamente.

— Bom dia. — cumprimento, com uma educação ensaiada, automática, aquela que uso quando preciso lembrar a todos — e a mim mesma — quem eu sou ali dentro.

A Dona.
A mulher que está no controle.
A que não se envolve.
Volto para o escritório sem olhar para a Clara.
Não porque não quero.

Mas porque, se olhar, eu volto.

E hoje eu preciso que ninguém perceba o quanto isso já passou do ponto profissional.

Fecho a porta atrás de mim com um pouco mais de força do que o necessário.

Só então permito que o ar escape dos meus pulmões.
________________________

Ao me obrigar a focar no que realmente importa, repito para mim mesma que tenho problemas demais no mercado para me distrair com um simples rolo de trabalho.

"Rolo."

A palavra volta como um incômodo físico.
Como se tivesse gosto.

Como se denunciasse a mentira que estou tentando contar para mim mesma desde que a conheci.

As horas passam sem que eu perceba direito. Ou talvez eu esteja apenas fingindo que estou produzindo. Quando levanto os olhos das planilhas e olho para o salão, vejo Clara vindo com um papel na mão.

Ela para no caixa.
Deixa a folha ali.
E sai.

Três clientes esperando.

Meu corpo reage antes da minha cabeça.
Algo está errado.
Saio da sala.

O cenário me atinge de uma vez só.
Mercadoria espalhada no meio do mercado.

Caixas abertas.
Produto sendo reposto.
Sem conferência.
Sem autorização.
Sem controle.

Sinto o estresse subir instantaneamente.

— Como você não perguntou a ninguém se essa nota era daqui? — A vejo perguntar com a voz firme, cortante, direcionada ao rapaz ao lado das caixas.
Ele se encolhe.

— Desculpa… o Augusto só pediu para eu receber.

O nome dele a faz travar o maxilar.

— Cadê o Augusto?

Ninguém sabe.
Ótimo.
Perfeito.
É quando percebo que Clara está ali.
Não perdida.
Não nervosa.
Atenta.

O olhar dela vai de mim para a mercadoria, da mercadoria para o funcionário, como se estivesse segurando aquela situação sozinha há tempo demais.

— Clara, o que você está fazendo aqui? — pergunto, e o meu tom sai mais arrogante do que eu gostaria.

 — O caixa tem três clientes esperando por uma operadora.

Assim que ela se vira para mim, eu sinto.
Não é a Clara de hoje cedo.
É a do primeiro dia.
Postura reta.
Olhar firme.
Profissional.
E aquilo me atinge em cheio.

— Cadê o "seu" gerente? — ela pergunta, enfatizando de propósito.

Não é sobre hierarquia.
É sobre responsabilidade.

— Está no intervalo. Por quê? — respondo, já sentindo que perdi o controle da situação em algum ponto que não vi.

Ela respira fundo antes de falar. Controle. Clara também está se controlando.

— Porque ele autorizou um funcionário sem experiência suficiente a receber mercadoria. — diz, medindo as palavras para não expor o rapaz.
Estendo a mão.

- E pior, mercadoria do mercado do Valentino.

Nesse momento sinto a fúria subir pelo meu pescoço.

Ela me entrega a nota sem hesitar.
O toque dos nossos dedos é rápido.
Elétrico.
Indesejado naquele momento.
Confiro.
Valor.
Pedido.
Empresa.
E o mundo para por um segundo.

— Como que o Augusto recebe a droga das mercadorias daquele homem?

Minha voz sai mais baixa, mais perigosa.

Levanto os olhos.
E vejo o estrago.
Caixas abertas.
Produtos já misturados com os nossos.
Reposição pela metade.
Não é mais um erro.
É um prejuízo.
Sinto o sangue esquentar.
Passo as mãos pelos cabelos, tentando organizar a cabeça, enquanto faço o cálculo automático de tempo, retrabalho, troca com fornecedor, conferência de estoque.

Problema.
Grande.
Quando olho para Clara outra vez, ela está me observando.

Não com desafio.
Não com julgamento.
Mas esperando.

Esperando que eu assuma.

Que eu resolva.
Que eu seja a Verônica que ela conhece.
E isso me desmonta mais do que qualquer confronto.
Porque ela veio até mim.
Ela deixou o caixa.
Ela quebrou o protocolo.
Em favor do mercado.

E eu estava ocupada demais chamando isso de rolo.
.
— Para tudo — digo, assumindo o comando, a voz firme voltando ao lugar. — Ninguém mexe em mais nada.

Clara solta o ar discretamente.

Alívio.
Confiança.
Parceria.

Mesmo que a gente não tenha resolvido o que está entre nós.


Próxima página - O acaso a meu favor ... 

domingo, 22 de fevereiro de 2026

O acaso a meu favor - Página 85

Por Verônica.

Ao perceber que já nos colocamos em risco demais, puxo-a para mim só para sentir o peso do corpo dela contra o meu e o ritmo da sua respiração misturado ao meu. — Já está na hora de sairmos daqui, se não quisermos problemas — digo, baixo, mesmo que cada parte de mim queira prolongar aqueles segundos.

Vejo-a assentir. Não nos beijamos. Apenas ficamos ali, compartilhando o mesmo ar, o mesmo calor, o mesmo silêncio cheio de tudo. Deixo que ela saia primeiro e, assim que a porta que leva ao galpão se move, o som do metal arrastando atravessa meus ouvidos alto demais para aquela manhã ainda adormecida.

— Verônica? — ouço a voz do Augusto no meio do breu. — O que está procurando nesse escuro?

Agradeço mentalmente ao meu cérebro por funcionar tão rápido quando preciso de uma resposta — seja ela totalmente verdadeira ou não.

 Ainda sinto o cheiro da Clara na minha roupa e preciso vestir a minha expressão de rotina antes que a luz revele qualquer coisa.

— Bom dia, Augusto — o cumprimento com uma tranquilidade que não corresponde ao que meu coração está fazendo agora.

O silêncio do galpão parece amplificar tudo.

— Eu pedi para a Clara ligar para mim. Não a viu pelo corredor? — digo, escolhendo as palavras com cuidado, me equilibrando naquela linha tênue entre a verdade e a mentira.

Não consigo ver a expressão dele na escuridão, mas o pequeno intervalo antes da resposta faz meu corpo inteiro ficar em alerta.

— Sim, sim. Eu a vi.

E então a luz se acende.
Branca. Direta.
Revelando nossos rostos, nossas feições ainda marcadas pelo início da manhã — e, no meu caso, pelo que acabou de acontecer.
Piscar se torna necessário, mas mantenho a postura firme. Profissional. Intocável.
Por dentro, ainda estou no escuro com ela.

Ao pegar minha bolsa em cima de uma das prateleira do galpão, vejo Augusto se afastar em direção ao salão para ajudar os meninos a abrir o mercado. Só então percebo que já chegaram os outros funcionários. 

Quando ele some do meu campo de visão é que solto o ar preso nos pulmões.

Um suspiro longo. Necessário.

Como aquela menina conseguiu seguir exatamente a minha linha de raciocínio?

A pergunta vem acompanhada do gosto dos lábios dela ainda vivo na minha boca, como se o beijo tivesse acontecido há segundos, e não minutos.

Passo a língua discretamente sobre os lábios, num gesto automático, e fecho o armário.
Sigo para o meu escritório.
Ali dentro, protegida pela porta que se fecha atrás de mim, volto a ser a Verônica de todos os dias. A que resolve. A que decide. A que ninguém questiona.

Ligações.

E-mails.

Planilhas.

Números.

Pedidos.

Respostas firmes.

O mundo volta para o eixo da rotina, mas meu corpo ainda carrega o eco do que aconteceu no escuro do galpão.
……

As horas passam sem que eu perceba.
Só noto o tempo quando, quase por instinto, meus olhos procuram por Clara nas câmeras.
E ela não está.
O alerta é imediato.

Franzo a testa e olho para o relógio.
Ainda não é o horário de almoço dela.
Até porque ela vai almoçar comigo.
A certeza disso é tão natural que a ausência dela começa a me incomodar de verdade.
Abro todas as câmeras, uma por uma, percorrendo cada corredor do mercado, cada setor, cada ponto cego que eu conheço de cor.
Até que encontro.

E o que vejo faz meu maxilar travar.
Clara.
Com ela. De novo.
Elise.

Sinto o sangue ferver de um jeito rápido e perigoso, completamente diferente da calma calculada que sustentei durante toda a manhã.

Meu corpo se inclina para frente na cadeira sem que eu perceba, como se a proximidade com a tela pudesse mudar alguma coisa.

O jeito como Elise fala perto demais.
A forma como Clara se mantém ali.
O tempo que dura.
Tempo demais.

Uma irritação densa sobe pelo meu peito, misturada com algo que reconheço na mesma hora e que me recuso a nomear.
Não é só raiva.
É pior.

Próxima página - O acaso a meu favor ... 

O acaso a meu favor - Página 84

 Por Clara…

Ao tentar presumir o que Verônica queria fazer, não sei se entro em pânico ou em êxtase. Quando a vejo olhar para o relógio de pulso, ouço o barulho da porta se abrindo. Um meio sorriso travesso me escapa antes mesmo de eu perceber, e quando ela me dá as costas, entendo exatamente o que devo fazer. Não penso duas vezes antes de segui-la.

Enquanto caminho atrás dela, não consigo evitar analisá-la. A saia lápis desenha o corpo de um jeito que parece calculado, firme, seguro. A blusa social vermelha — um marsala elegante — contrasta com a postura confiante que ela carrega sem esforço algum. Verônica anda como quem sabe exatamente quem é. E isso me desarma.

Ela abre a porta lateral do mercado, olha rapidamente para os lados antes de entrar. Meu coração acelera com o simples gesto. Tudo ali parece clandestino demais para uma manhã comum.

Assim que entro, ela fecha a porta atrás de nós com cuidado excessivo. O silêncio do lugar vazio nos envolve. O mercado ainda dorme, mas meu corpo está completamente acordado.

— "A gente tem alguns minutos" — ela dizia, em tom baixo, quase sério demais para quem claramente está sentindo o mesmo que eu.

Cruzo os braços, tentando fingir normalidade.

— Você sempre irá fazer isso? — provoco. — Me sequestra cedo, me trazer para lugares vazios…

Ela ri de canto, aquele riso que não mostra tudo, mas promete.

— Só quando vale a pena.

Nos encaramos por tempo demais. O espaço entre nós diminui sem que nenhum passo seja dado. Sinto o cheiro dela de novo, aquele mesmo da noite passada, e meu estômago reage imediatamente.

— Verônica… — começo, sem saber exatamente o que dizer.

Ela inclina levemente a cabeça, atenta, como se cada palavra minha importasse mais do que deveria.

— Clara — responde, usando meu nome como se fosse algo delicado.

E ali, naquele mercado ainda fechado, com o medo de alguém chegar a qualquer segundo, percebo que não é só desejo.

É vontade de ficar.

Mesmo quando não é o lugar.

Mesmo quando não é a hora.

Verônica dá um passo à frente, finalmente rompendo o espaço invisível que nos separava. O ar parece mais denso quando ela se aproxima, como se o mundo lá fora tivesse sido suspenso só para aquele instante.

Sinto os dedos dela tocarem minha cintura com cautela primeiro, quase pedindo permissão. Mas o toque esquenta rápido, firme, decidido. Meu corpo responde antes que minha mente consiga formular qualquer argumento sensato. Seguro o tecido da blusa dela entre os dedos, sentindo a textura macia sob minhas mãos, a temperatura da pele que aquece por baixo.

Ela me olha como se estivesse confirmando algo que já sabia.

E então me beija.

Não é um beijo apressado. É um beijo que carrega um peso doce, um gosto de reencontro. Os lábios dela demoram nos meus como se estivessem reaprendendo o caminho. Há cheiro de perfume misturado ao café que provavelmente tomou antes de sair de casa. Há cheiro de saudade — aquele impossível de explicar, mas que eu reconheceria em qualquer lugar.

Ela desliza uma das mãos para minha nuca, os dedos se entrelaçando no meu cabelo com delicadeza possessiva. Meu coração dispara de um jeito quase irritante. Eu me aproximo mais, pressionando nossos corpos, sentindo a firmeza dela, a segurança que me envolve inteira.

Quando o beijo se aprofunda, solto um suspiro contra a boca dela. Verônica responde com um som baixo, quase um murmúrio satisfeito, como se estivesse esperando por aquilo desde sempre — ou, pelo menos, desde a última vez que estivemos assim.

Ela se afasta por um segundo, só o suficiente para encostar a testa na minha. Nossos narizes se tocam de leve. Os olhos dela estão mais escuros.

— Eu estava com saudade — ela admite, a voz rouca, sincera demais para alguém tão controlada.

Eu arqueio uma sobrancelha, fingindo indignação enquanto ainda tento recuperar o fôlego.

— Não acredito que estava com tantas saudades, nos vimos a poucas horas.

Ela ri baixinho, aquele riso que vibra no peito e passa direto para o meu. Os dedos dela apertam levemente minha cintura, como se estivesse me punindo pela provocação.

— Algumas horas são demais — responde, roçando o polegar na minha pele, desenhando círculos lentos que me fazem arrepiar. — Principalmente depois de ontem.

Sinto meu rosto esquentar, mas não recuo. Pelo contrário, puxo-a de volta pela gola da blusa, selando nossos lábios outra vez, dessa vez com menos paciência e mais verdade.

O beijo ganha intensidade, mas ainda carrega cuidado. Há pressa no toque, mas não há desespero. Só vontade. Vontade de ficar ali, mesmo com o risco, mesmo com o relógio correndo contra nós.

Quando finalmente nos afastamos, o silêncio do mercado parece diferente. Não é mais vazio. Está carregado de respirações descompassadas e olhares que dizem mais do que qualquer declaração poderia dizer.

Verônica encosta a testa na minha de novo, fechando os olhos por um instante.

E eu percebo que, se dependesse de mim, o mercado poderia abrir, o mundo poderia bater à porta.

Eu ainda escolheria ficar exatamente ali. Com ela.

Próxima página - O acaso a meu favor ... 

O acaso a meu favor - Página 82

 Por Clara…

Me organizo melhor por dentro. Talvez por ter acordado cedo demais para sentir, talvez por finalmente estar aprendendo a não fugir do que me atravessa. O bem-estar que sinto ao pensar em Verônica me assusta de verdade. Não o suficiente para estragar meu humor — mas o bastante para me obrigar a olhar para mim com mais honestidade do que estou acostumada.

Hoje percebo que amadureci. Não de um jeito dramático ou anunciado, mas daquele jeito silencioso que muda tudo sem pedir permissão. Se eu fosse a Clara de alguns meses atrás, estaria agora me culpando por cada sensação, cada pensamento, cada desejo. Estaria tentando me convencer de que estou errada por sentir o que sinto.

Como se estivesse ocupando um lugar que prometi a mim mesma pertencer apenas a alguém específico.
Alguém que, ironicamente, neste exato momento talvez nem esteja se perguntando se esse lugar ainda existe — muito menos se alguém o ocupa.

E essa constatação dói.
Mas também liberta.

Porque, pela primeira vez, entendo que sentir não é traição. É presença. É vida acontecendo apesar das promessas que fiz quando ainda não sabia quem eu estava me tornando.

Penso em Verônica — no jeito firme, no cuidado silencioso, na forma como ela me olha como se me enxergasse inteira, sem me pedir nada além de verdade. E percebo que não estou roubando espaço de ninguém.

Estou apenas criando o meu.

E talvez seja isso que mais me assuste:
não o que estou sentindo por ela,

mas o fato de que, agora, eu não quero mais fingir que não sinto. 


Beijo no Bento de despedida de lei, mochila nas costas e um humor que, acredito eu, ninguém rouba de mim. Eu acho.

A poucas quadras de chegar ao mercado, ouço o barulho de uma caminhonete logo atrás de mim. Nem preciso me virar para confirmar — o sorriso surge antes, convencido, automático. Então ela buzina duas vezes.

Viro na mesma hora.

Reconheço a peça. Reconheço ela.

Verônica me olha pela janela e, pela primeira vez desde que a conheço, me entrega o sorriso mais bonito que já vi. Aberto, tranquilo, verdadeiro. E só de imaginar que aquele sorriso exista por causa da noite passada — pelo beijo, pelo que não foi dito, pelo simples fato de estar me vendo ali — minha cabeça entra em curto.

É informação demais.
Sentimento demais.
Tudo ao mesmo tempo.

E enquanto fico parada, com a mochila pesando menos do que deveria e o coração pesando mais do que eu planejei, percebo uma coisa com clareza quase assustadora:

Tem coisas que mudam a gente sem fazer barulho nenhum.
E aquele sorriso…
definitivamente foi uma delas.

Ao encostar na rua, apoio os braços na janela da caminhonete e digo, simples:

— Oi.

Ela continua me olhando como se eu fosse algo raro, quase precioso, antes de responder:

— Oi. Entra, eu te dou carona.

Penso por alguns segundos antes de aceitar. Ainda eram apenas 6h37. Impossível já ter alguém no mercado — concluo, quase rindo do meu próprio pensamento.


Próxima página - O acaso a meu favor ... 

O acaso a meu favor - Página 81

Por Clara…

Acordo pela manhã uma hora antes do despertador. Falta só chover para completar o improvável desse acontecimento.

Mas então minha mente me trai — ou me presenteia — e me leva direto à noite de ontem. Ao sorriso. Àquela boca.
Uma euforia quente se espalha pelo meu estômago, e de repente até o calor infernal dessa cidade parece perfeito hoje.

Abraço o Bento por alguns segundos. Ele retribui com um apego incomum, mais carente do que de costume.
Cerro os olhos, desconfiada, tentando lembrar o que ele poderia ter aprontado enquanto eu não estava olhando.

Com tempo de sobra, dou um giro pelo pequeno apartamento. Tudo parece em ordem. Nenhum desastre, nenhum indício de culpa felina. Então aproveito a calma rara da manhã para passar um café — e tomá-lo sem pressa, como se o dia tivesse decidido me respeitar.

Percebo que estou mais vaidosa do que o normal. Quero o cabelo impecavelmente arrumado, cada fio no lugar certo. O perfume, escolho o mais envolvente — como se alguém pudesse senti-lo mesmo à distância.

Hoje abandono a calça jeans. Opto por uma calça de linho preta, combinada com um cinto marrom — o uniforme de lei, não é?
Mas algo em mim pede mais.
Estou com um espírito delicado, quase translúcido, então coloco brincos também. Pequenos detalhes que parecem transbordar por fora o que ainda não sei explicar por dentro.

Quando percebo, a água do café já está fervendo. Passo o pó com cuidado, e o cheiro se espalha pelo apartamento, quente, reconfortante.
Sinto-me bem.

Bem como não me sentia há muito tempo.
E, enquanto seguro a xícara entre as mãos, penso que talvez não tenha sido só uma boa noite.
Talvez tenha sido um começo.

Ao pegar o celular que ficou carregando durante a noite, encontro uma mensagem dela — enviada há uns quinze minutos. Um sorriso involuntário volta a nascer nos meus lábios, como se já soubesse o caminho.

— Bom dia, senhorita!
Consigo ouvir a voz dela na minha cabeça, clara demais, como se estivesse à minha frente.

— Espero não ter atrapalhado sua noite ao te deixar tão tarde em casa.

Mal sabe ela que foi a noite mais bem dormida que tive em tempos.

— Se quiser, posso te buscar…

E, nesse instante, meu sorriso se alarga sem pedir permissão. A euforia vem junto, acompanhada de borboletas, mosquitos, pernilongos — tudo aquilo que tenta definir o que estou sentindo agora e falha miseravelmente.

Respondo de imediato, mas com cuidado. Preciso parecer normal. Preciso não parecer emocionada.

— Bom dia, Verônica!
Simples. Contida. Quase adulta.

— A senhorita aqui dormiu muito bem. — acrescento, tentando manter o tom leve. — O que espero que também tenha acontecido com você, já que voltou tarde para casa.

Faço questão de deixar clara a preocupação. Mesmo disfarçada.

— E não, não há necessidade. — continuo. — Gosto de andar pela manhã, principalmente quando acordo tão disposta como hoje.

Ela visualiza em menos de dois minutos.
Isso me surpreende mais do que deveria.

— Bobagem. Sou acostumada a poucas horas de sono.

E então vem a próxima mensagem, certeira demais:

— E o que levou a “senhorita” a estar tão disposta hoje?

Dou uma risada baixa, sozinha na cozinha, como se tivesse sido pega no flagra.

Posso praticamente vê-la arqueando uma sobrancelha do outro lado da tela.

Claro que ela perguntaria isso.
Digito uma resposta.
Apago.
Digito outra.
Apago também.
Como explicar que acordei diferente?
Que meu corpo ainda guarda o eco da noite anterior?
Que existe uma mulher ocupando um espaço novo dentro de mim — sem pedir licença?

Seguro o celular por alguns segundos a mais do que o necessário. Respiro fundo.
E sorrio.

Porque, pela primeira vez em muito tempo, não é o medo que me deixa sem palavras.
É a vontade.

E talvez — só talvez — eu não precise responder tudo agora.

Como não respondi de imediato, ela deve ter pensado que eu ficaria em silêncio. Ainda assim, poucos instantes depois, outra mensagem dela chega..

— Fico satisfeita em saber que não estraguei sua noite, então.

Mordo o lábio, rindo sozinha.

Ela sabe exatamente o que está fazendo.

Antes que eu responda, outra mensagem chega:

— Confesso que acordei melhor do que o habitual também.

Meu estômago revira de novo — de um jeito bom, perigoso, novo.

— Talvez algumas companhias tenham esse efeito. — ela completa.

E ali entendo:

Verônica não está mais fingindo indiferença.
Está caminhando devagar… mas na mesma direção que eu.
Pelo menos, eu espero.

Próxima página - O acaso a meu favor ... 

O acaso a meu favor - Página 80

Por Verônica…

Depois de deixar Clara em segurança em casa, sigo para a minha com o coração estranhamente aquecido

 — ou talvez seja o estômago revirado. Não sei mais distinguir certos sentimentos na minha idade, nem quando foi que deixei de tentar.

Ao abrir a porta, encontro a casa viva. Uma movimentação discreta na cozinha chama minha atenção e, ao me aproximar, vejo Higor e Lia. Estão distraídos um no outro, rindo baixo, trocando carícias sem pressa, como quem aproveita o início da madrugada sem medo do tempo.

A cena é simples.
E, ainda assim, me atravessa.

Fico ali por alguns segundos, observando aquele afeto exposto, aquela intimidade sem defesas. Não há urgência, nem jogo de poder. Só presença.

E é então que ela me vem à mente.

Clara.

De forma inesperada. Inteira. Incômoda.

Pela primeira vez em muito tempo, não me vejo naquela cena como espectadora. Me vejo desejando ocupar aquele lugar.

E, pela primeira vez, sei exatamente quem seria a pessoa ao meu lado.

...........................................


O quarto me recebe em silêncio. Um silêncio que não acusa, mas observa. Deixo a bolsa sobre a poltrona, tiro os sapatos com o cuidado automático de quem passou a vida inteira mantendo tudo no lugar. Acendo apenas o abajur. A luz baixa me poupa de encarar o que ainda não sei nomear.

Sento na beira da cama.
E fico.

O corpo pede descanso, mas a mente se recusa. Há um calor estranho sob a pele, uma inquietação que não vem do cansaço, nem do peso do dia. Não é ansiedade. Não é medo. É algo mais antigo — algo que eu reconheço, embora finja não reconhecer.

Ela.

Fecho os olhos por um instante, e Clara surge sem pedir licença. Primeiro o riso — sempre o riso. Depois a boca, o jeito como se aproxima sem invadir, como se soubesse exatamente até onde ir. Há uma leveza nela que não exige nada, e talvez seja isso que mais me desarme.

Abro os olhos rápido, como se tivesse sido flagrada em um pensamento impróprio.
Desejo.

Ainda existe isso em mim?

Passo a mão pelo rosto, depois pelo colo, buscando ancoragem. Mas o corpo não mente. Ele lembra do cheiro dela, da proximidade no carro, da vontade contida que precisei segurar com força. Lembra da minha mão querendo ficar, do meu olhar demorando além do permitido.

Sempre fui controle.
Sempre fui contenção.

Construí minha vida assim. Não por frieza, mas por necessidade. Controle não é ausência de sentimento — é método de sobrevivência. E sobrevivi. A custo de muito.

Deito, finalmente, olhando para o teto escuro. O quarto parece maior à noite, como se amplificasse tudo aquilo que evito durante o dia. E ali, sem tarefas, sem testemunhas, não há para onde fugir.

Não foi apenas atração.
Não foi um impulso isolado.

Foi reconhecimento.

Clara não me vê como cargo, como sobrenome, como idade. Ela me vê quando rio, quando me contradigo, quando me permito errar. E isso é perigosamente íntimo.

Respiro fundo. Tento organizar os pensamentos como sempre fiz. Listar riscos. Antecipar consequências. Mas, pela primeira vez em muito tempo, essa lógica falha. Porque o que sinto não quer ser resolvido — quer ser vivido.

Viro de lado, puxo o lençol até o peito. O coração bate mais rápido do que deveria. E, num gesto que não planejei, deixo escapar um sorriso breve, quase involuntário.

Talvez seja isso que me assuste de verdade.

Não o desejo.
Mas a vontade de não lutar contra ele.

Fecho os olhos.
E, antes que o sono venha, admito em silêncio — sem promessas, sem garantias — que alguma coisa começou.

E que, pela primeira vez em anos, eu não tenho certeza se quero manter tudo sob controle.


Próxima página - O acaso a meu favor ... 


O acaso a meu favor - Página 79

Por Clara…

O tempo passa sem que a gente perceba. A estrada já não chama, o frio aumentou, e a noite parece pedir um ponto final que nenhuma de nós quer colocar.

Verônica olha o relógio. Suspira.

— Eu preciso te levar.

Assinto, mesmo sem querer. O caminho de volta é quieto, mas diferente — como se algo tivesse se assentado entre nós. Quando o carro para em frente à minha casa, o silêncio pesa de novo.

— Chegamos… — Ela diz, desnecessariamente.

Eu concordo com a cabeça, mas não me movo. Os dedos dela batem levemente no volante, nervosos.

Abro a porta, mas antes de sair sinto a mão dela segurar meu pulso.

— Clara.

Olho para ela.

Não há beijo.
Não há confissão.

Só o polegar dela pressionando de leve minha pele, como se estivesse gravando aquele toque para depois.

— Boa noite. — diz, num tom que promete mais do que encerra.

Sorrio. Me inclino um pouco, perto demais.

— Boa noite, Verônica.

Saio do carro sem olhar para trás.
Mas sei — sei com absoluta certeza —
que ela só arranca quando eu entro em casa.

E que essa despedida…
não terminou coisa nenhuma.



............



Ao subir as escadas do prédio onde moro, revivo cada beijo, cada toque, cada risada — como se meu corpo tivesse decidido guardar tudo antes que a razão tentasse estragar. Tento me lembrar da última vez que senti algo assim.
Mais ainda… da última vez que senti isso com uma mulher como Verônica.

Há nela um peso, uma história, um silêncio que não se oferece fácil. E, ainda assim, ali estávamos nós, rindo no banco de um carro, como se o mundo pudesse caber em coisas pequenas.

Ao girar a chave no trinco da porta, percebo algo estranho — e novo.
Pela primeira vez, não sinto aquele vazio que costumava me receber do outro lado.

Nenhum eco.
Nenhuma ausência.

Em vez disso, sinto-me cheia.
Cheia de vida.
Cheia de expectativa.

Não sei o que isso é.
Pode ser um lance raso, desses que passam rápido e deixam só lembrança.
Ou algo que, aos poucos, crie raízes onde eu jurava que nada mais cresceria.

Mas hoje…
Hoje eu me sinto viva.

E isso, por si só, já é mais do que eu tinha ontem.

Próxima página - O acaso a meu favor ... 

O acaso a meu favor - Página 78

Por Clara…

Depois do primeiro beijo — e do segundo, e do terceiro — o frio e a fome resolvem se anunciar ao mesmo tempo em nós duas.
E, para minha surpresa, é ela quem se rende primeiro.

Dou risada do jeito quase contrariado com que admite estar com fome, como se aquilo fosse uma falha grave no personagem que insiste em sustentar.

— Com fome, não consigo te beijar mais vezes… não é mesmo? — diz, com aquele meio sorriso torto que sempre me desmonta.

Reviro os olhos, mas acabo rindo.
Sempre acabo rindo com ela.

E então a encaro com mais atenção. As luzes distantes da cidade desenham sombras suaves no rosto dela, deixando-a… diferente. Menos rígida. Mais próxima.
Não sei nomear o que vejo — nem de onde vem esse desejo silencioso que cresce entre nós. O que significa uma mulher como Verônica querer me beijar assim, sem pressa, sem armaduras?

Tudo é confuso.
Mas não é ruim.

Meu estômago esfria e ronca, cúmplice da fome e da ansiedade. Ela percebe antes mesmo que eu diga qualquer coisa e entrelaça os dedos aos meus, puxando-me com naturalidade para o carro — como se já soubéssemos exatamente onde pertencer.

Afastamos os bancos um pouco para trás, e Verônica simplesmente devora o lanche.
Sem cerimônia.
Sem cálculo.
Sem a elegância ensaiada que costuma usar como escudo.

Ela se suja — e eu fico ali, observando, entre admirada e levemente assustada, como se estivesse vendo um segredo que não foi feito para qualquer um.

— Que foi? — pergunta, notando meu olhar preso nela.

Ainda encarando, respondo, divertida:

— Deve estar muito bom… pelo jeito que você está comendo.

Ela se olha, percebe a sujeira tarde demais e, em vez de se constranger, pega um guardanapo e joga em mim.

— Ah, não… eu não acredito nisso! — reclamo, rindo. — Todo cheio da sua baba, e você ainda tem coragem de jogar em mim?

Ela ri.
Ri de verdade.

E aquele som é estranho… e bonito demais.
Como se não fosse usado há muito tempo.

É nesse instante que entendo: a Verônica séria, cercada de compromissos, muros altos e arames farpados, simplesmente não existe ali.

O que existe é só uma mulher — madura, cansada, surpreendentemente leve — se permitindo algo que claramente não fazia há anos.

E talvez seja isso que mais me desarme.

Porque gosto de vê-la assim.
Gosto mais do que deveria.

E, pela primeira vez, me pergunto se esse sorriso dela…
não é algo que eu vá querer provocar de novo.

Depois da cena da “bagunceira” ao meu lado, começo enfim a comer o meu lanche. E, apesar de um pouco frio, está realmente muito bom — o tipo de sabor que conforta mais do que impressiona.

Reconheço na hora de onde vêm os hambúrgueres e, quase sem pensar, comento de relance que o melhor dali é o que leva cebola caramelizada.
Por que eu disse isso?

É o suficiente para que essa bendita mulher praticamente faça propaganda do lanche que estamos comendo, afirmando — com uma convicção quase ofensiva — que aquele é o melhor de todos e que ninguém, em lugar nenhum, conseguiria reproduzi-lo.

Ela não aceita, de forma alguma, que eu prefira outro.

E a expressão de indignação no rosto dela é tão genuína, tão exagerada, que me arranca risadas só pelo fato de Verônica claramente não saber lidar com a ideia de estar errada.

— Por comida você mata e morre, né? — digo, com os olhos marejados de tanto rir.

Ainda um pouco emburrada, ela acaba rindo também — do meu estado, mais do que da piada. Vejo seus ombros relaxarem, o semblante suavizar, e aquele sorriso voltar devagar, como se tivesse sido chamado de volta.

— Porque eu sei que estou certa. — responde, limpando os dedos no guardanapo, cheia de si.

E só para provocar — porque agora já é tarde demais — comento:

— Mas o pão…

Ela me lança um olhar mortal.
Desses que prometem julgamento imediato.

— Não diga mais nada sobre o pão deles!

Aí eu perco completamente o controle. Rio a ponto de torcer o corpo, tentando puxar o ar de volta para os pulmões, até acabar jogando o corpo para trás no banco, só para conseguir respirar… e para ver melhor o rosto dela.

E ali, rindo de algo tão pequeno, tão banal, percebo:
não é só o lanche que está bom.
É o momento.
É ela.

E isso me assusta quase tanto quanto me faz querer ficar mais um pouco.

Demoro alguns segundos para me recompor da risada. Meu corpo ainda treme quando volto a me ajeitar no banco, puxando o ar como se tivesse acabado de correr. E é só então que percebo: Verônica está me olhando.

Não aquele olhar rápido, distraído.
É um olhar inteiro.

Ela não diz nada. Apenas me observa como se estivesse tentando memorizar aquele instante — meu riso solto, meus olhos ainda marejados, minha falta de controle. E isso me desconcerta mais do que qualquer toque.

— Você fica diferente quando ri. — ela diz, baixa, quase sem intenção.

Meu coração dá um salto estranho, fora de ritmo.

— Diferente como? — pergunto, tentando soar casual, mas falhando miseravelmente.

Ela inclina a cabeça de leve, pensativa. O silêncio dela nunca é vazio.

— Mais você.

E pronto.
É isso que me desmonta.

Não sei o que responder. Não sei se devo brincar, provocar, fugir. Então faço a única coisa possível: continuo ali, existindo, sentindo o peso bom daquela atenção.

Ela estende a mão, quase sem perceber, e limpa com o polegar um canto da minha boca — um gesto pequeno, íntimo demais para ser inocente, simples demais para ser fingido.

— Você se sujou. — diz, mas a voz sai suave. Nada de repreensão. Nada de controle.

Engulo em seco.

— Agora você também vai jogar o guardanapo em mim? — tento brincar.

Ela sorri de canto. Um sorriso lento. Perigoso.

— Não. — responde. — Isso seria desperdício.

E fica ali.
Perto demais.
Com a mão ainda suspensa entre nós, como se não tivesse decidido se deve avançar ou recuar.

O mundo lá fora parece distante. A estrada, o frio, o tempo — tudo fica pequeno diante daquele espaço mínimo que ela ocupa ao meu lado.

— Verônica… — chamo, sem saber exatamente o porquê.

Ela me encara. E, pela primeira vez desde que a conheço, não há cálculo nenhum no rosto dela. Só verdade.

— Você bagunçou tudo. — diz. — E ainda acha graça.

Sorrio devagar.

— Você que não está acostumada com bagunça.

Ela solta um riso baixo, quase rendido.

— Talvez eu esteja aprendendo.

E ali, com cheiro de hambúrguer frio, risadas soltas e olhares demorados, entendo que algumas coisas não começam com promessas ou grandes gestos.

Algumas começam assim:
num banco de carro,
com migalhas no colo,
e uma mulher que finalmente abaixou a guarda só para eu a ver sorrindo.

E eu sei — com uma certeza que assusta —
que nada dentro de mim vai voltar ao lugar depois disso.

Próxima página - O acaso a meu favor ... 

O acaso a meu favor - Página 77

 Por Verônica...

Quando Clara diminui o ritmo do beijo, sinto na hora.
Não é rejeição.
É… delicadeza.


É o corpo dela tentando acompanhar o que está acontecendo — e o meu tentando não ultrapassar nenhum limite.

Eu afrouxo o toque na mesma hora. Tento puxar o ar que ela tirou de mim enquanto ainda mantenho minhas mãos no rosto dela, sem pressionar. Só segurando. Só estando ali.

Os olhos dela, quando se abrem, vêm carregados de algo que me desarma: não medo, não dúvida… mas um tipo de vulnerabilidade que me faz querer cuidar dela mais do que qualquer outra coisa.

— Ei… — digo baixo, aproximando meu rosto do dela sem voltar ao beijo. — Respira comigo.

Ela faz isso. Devagar. Quente. Tremendo.

Meu polegar passa na bochecha dela sozinho, como se minhas mãos tivessem mente própria.
O que me desespera é que ela não recua.
Pelo contrário — ela se inclina um pouco, buscando meu toque.

Meu corpo inteiro responde, mas me obrigo a ficar firme.

— Se for demais, me fala — digo, não como aviso, mas como promessa.

Ela fecha os olhos por um instante, e quando abre… eu juro que vejo um brilho novo ali. Algo que não tinha antes. Algo que me puxa.

— Não me tira de perto de você agora — ela murmura. Não é um pedido. É quase um sussurro arfado.

A respiração me falha.

Aproximei a boca dela sem encostar, sentindo a respiração quente dela roçar na minha.

— Eu não conseguiria nem se tentasse.

Desço uma das mãos para a cintura dela, segurando com firmeza, mas com um cuidado que nunca tive com ninguém. Ela corresponde, apoiando as mãos no meu peito, e mesmo esse toque leve me faz perder o chão.

Clara ergue o rosto um pouco, como se estivesse me estudando — como se quisesse ver o que está acontecendo comigo. E ela vê.
Ela vê tudo.

— Você tá… diferente — ela diz com um riso fraco, quase sem ar.

Eu sorrio de canto, mas é um sorriso quebrado, tão sincero que chega a doer.

— A culpa é sua.
Minha voz sai rouca, mais honesta do que eu pretendia.
— Eu não fico assim com ninguém.

Vejo o impacto dessas palavras nela — não medo, mas surpresa.


Boa surpresa.
Surpresa quente.

A mão dela escorrega do meu peito para o meu pescoço, lenta.
E isso…
Isso me destrói.

Aproximo minha boca do canto da dela, sem beijar, apenas tocando de leve a pele sensível ali. Ela prende a respiração. Os dedos dela apertam meu pescoço sem força, mas com vontade.

— Se soubesse o que você faz comigo… — murmuro contra o canto da boca dela, sentindo o corpo dela tremer. — Acho que teria me beijado antes.

Ela solta um riso abafado, nervoso, delicioso.

Eu seguro seu rosto pelas laterais, aproximando-a devagar, como se estivesse puxando o mundo inteiro para os meus braços.

— Posso te beijar de novo? — pergunto dessa vez, a voz baixa, quente, pedindo e ao mesmo tempo não pedindo nada.

Ela não responde com palavras.
Ela inclina o queixo.
Encosta a ponta dos lábios nos meus.
E suspira.

Esse é o “sim”.

E quando eu finalmente a beijo outra vez — devagar, profundo, com toda a calma que não tenho — sinto Clara derreter nas minhas mãos.

E eu também.

Porque agora não tem mais recuo.
Só avanço.
Dela.
E meu.


Próxima página - O acaso a meu favor ... 

O acaso a meu favor - Página 76

 Continuação por Clara...

O beijo que Verônica me dá é lento no começo — lento o suficiente para me deixar completamente à mercê dela.

Os lábios dela roçam nos meus quase sem tocar, como se estivessem me pedindo permissão que já têm, e só depois ela encaixa a boca na minha de um jeito que faz minhas pernas ameaçarem ceder. O ritmo é suave, mas carregado de intenção, como se ela quisesse me memorizar detalhe por detalhe.

Uma das mãos dela acompanha a curva da minha cintura, subindo pelas minhas costas num toque quente demais pra essa noite que está tão fria. Sinto cada dedo, cada linha da palma, cada centímetro da pele dela queimando a minha. A outra mão permanece na minha nuca, firme, me guiando — não para me controlar, mas como se estivesse cuidando para que eu não desmoronasse.

A respiração dela se mistura com a minha, quente, irregular, urgente de maneira contida.
É quase melhor que o próprio beijo.

Minha mão sobe pelo peito dela, sentindo o tecido da blusa e o calor que pulsa por baixo. Quando meus dedos tocam o pescoço dela, Verônica suspira entre meus lábios — um som grave, íntimo, que faz meu estômago virar um incêndio.

O beijo aprofunda.
A língua dela encontra a minha devagar, como se me explorasse, e meu corpo inteiro reage. Meus dedos se fecham no casaco dela, puxando-a mais perto, sem pensar. Só sentir.

Verônica sorri no meio do beijo — um sorriso curto, perigoso, satisfeito.


— Assim, Clara… — ela murmura contra minha boca, a voz rouca demais para eu aguentar. — Desse jeito mesmo.


Eu quase respondo, mas ela volta a me beijar, agora com mais firmeza, mais fome. O corpo dela pressiona o meu contra o carro com uma delicadeza que não esconde nada da força que ela tem. É como se ela estivesse segurando o mundo inteiro com a ponta dos dedos… e o mundo fosse eu.

O beijo fica tão profundo que quase dói parar para respirar.
E quando eu finalmente puxo o ar, ela encosta a boca no meu queixo, depois no meu pescoço, deixando beijos lentos, úmidos, quentes o suficiente para me fazer estremecer.


— Verônica… — digo num fio de voz que não parece meu.

Ela ergue o rosto, encontra meus olhos e sorri com aquele olhar que me desmonta inteira.

— Eu tô aqui, Clara.


Os dedos dela acariciam minha bochecha.


— E você não faz ideia do quanto eu queria isso.

E eu sei que é verdade.
Porque meu corpo inteiro ainda treme, e o dela também.

Próxima página - O acaso a meu favor ... 

O acaso a meu favor - Página 75

Continuação — por Clara…

No instante em que Verônica começa a me guiar para o carro, algo dentro de mim… trava.
Não é rejeição. Não é arrependimento.
É outra coisa — algo mais profundo, mais íntimo, mais novo do que tudo que já senti.

Meu corpo inteiro acende com o toque dela, com o jeito que suas mãos firmes seguram minha cintura, com a língua dominando o beijo como se soubesse exatamente o que eu sempre quis. E isso… isso é o que me deixa sem chão.

A vontade é tão grande que assusta.

Então, no meio desse calor todo, meu corpo instintivamente desacelera. Não puxo ela para longe — apenas diminuo a intensidade, diminuo o ritmo, como se meu corpo pedisse um segundo para entender o que está acontecendo.

O beijo amolece, perde um pouco da urgência, e se torna mais lento… mais respirar do que tocar.
E ela percebe.
Verônica sempre percebe.

Meus lábios vão soltando os dela devagar, como se ainda quisessem ficar ali. A ponta da minha testa encosta na dela, e eu respiro fundo, ofegante, tentando puxar o ar que ela roubou de mim.

Ela também respira pesado, como se estivesse lutando contra o próprio impulso.
Nossas bocas ficam ali, quase encostadas, sem se beijar — e esse “quase” lateja mais do que o beijo.

Fecho os olhos por um instante, sentindo o gosto dela ainda na minha boca, sentindo minhas próprias pernas tremerem. Meu coração bate tão rápido que tenho certeza de que ela sente contra o corpo dela.

Abro os olhos e encontro o olhar dela: quente, preocupado, atento, como se estivesse pronta para voltar um passo se eu quisesse… ou para avançar todos, se eu pedisse.

E com a voz ainda embargada, baixa demais para qualquer pessoa além dela ouvir, eu digo:

— Espera… — minhas mãos sobem para o peito dela, não empurrando, só… segurando. — Eu só… — respiro fundo, tentando me organizar. — Eu nunca… senti isso assim antes.

Vejo o rosto dela suavizar, vejo aquela força que ela tem derreter só um pouco, virando um cuidado que deixa meu estômago ainda mais quente.

Ela passa o polegar devagar na minha bochecha, num toque tão leve que me dá vontade de chorar e rir ao mesmo tempo.

— Tá tudo bem, Clara… — ela sussurra, perto demais da minha boca. — A gente vai no seu tempo.

Meu corpo relaxa um pouco com isso.
A tensão muda — não diminui — só muda de lugar.
Fica mais doce, mais íntima, mais nossa.

E nesse espaço entre uma respiração e outra, ainda colada nela, ainda com os lábios formigando, percebo que não é o carro que me preocupa.
É o fato de que, pela primeira vez, eu quero demais tudo que vem depois.

Ainda com minha testa encostada na dela, tentando recuperar o fôlego que ela arrancou de mim, sinto os dedos de Verônica deslizarem até a minha nuca num carinho lento. Quase me desfaz.

— Clara… — ela me chama tão baixinho que parece que meu nome foi feito só pra sair da boca dela.

Engulo seco.

— Eu… — Tento falar, mas a respiração ainda tropeça. — Eu só fiquei surpresa. Não é que eu não queira.

Verônica arqueia um dos cantos da boca, quase sorrindo, como se estivesse aliviada e perigosa ao mesmo tempo.

— Eu sei que você quer. — Ela diz sem arrogância — só com aquela certeza que me desmonta. — Eu senti.

Sinto meu rosto esquentar mais do que a noite fria permite.

— Verônica… — Tento reclamar, mas minha voz sai rindo e tremida.

Ela aproxima a boca da minha, a um sopro de distância.
Nem beija.
Só fica ali, me provocando com o ar que divide comigo.

— Quer que eu pare de sentir? — Ela pergunta, com aquele tom grave que me dá arrepios na espinha.

— Não… — respondo tão rápido que ela ri contra minha boca.

— Então me deixa te ouvir. — A mão dela aperta levemente minha cintura. — Te deixa sentir também.

Meu coração ameaça explodir.

— Eu senti mesmo… — admito, baixinho. — Senti tudo. E acho que ainda tô sentindo.

Ela finalmente encosta a testa na minha, os olhos fechados, como se respirasse alívio.

— Clara, eu tô tentando ir devagar — ela confessa. — Mas quando você me beija desse jeito… — A voz dela falha só um pouco. — Fica difícil lembrar onde te tocar primeiro.

Sinto meu corpo perder o chão.

— Falar assim não ajuda — digo, tentando disfarçar o tremor na minha voz.

Ela sorri contra meu queixo e sobe a mão para a linha do meu maxilar, tão devagar que me dá vontade de fechar os olhos.

— Não tô aqui pra ajudar — ela murmura. — Tô aqui porque você me deixa… completamente fora de controle.

Eu rio, sem força nenhuma para fingir que isso não me abala.

— E eu? — pergunto, quase sem ar. — Tô parecendo o quê pra você?

Verônica me olha como se estivesse vendo algo sagrado e proibido ao mesmo tempo.

— Você parece alguém que eu esperei mais tempo do que admito.
Ela desce o polegar pela minha boca.
— E parece alguém que eu quero beijar outra vez. Muito devagar.

Meu corpo inteiro responde antes da minha boca.

Encosto de leve meus lábios nos dela, num toque suave, quase um agradecimento.

— Então beija… — sussurro. — Mas assim. Desse jeito.

Verônica segura meu rosto com as duas mãos, como se eu fosse algo delicado — ou perigoso — e aproxima a boca da minha com uma paciência que me enlouquece.

— Como você quiser, Clara. — Ela murmura… e finalmente me beija de novo.

Não rápido.
Não urgente.
Mas profundamente, como se estivesse aprendendo o caminho da minha boca pela primeira vez, outra vez.

E eu deixo.
Deixo porque quero.
Porque desejo.
Porque, naquele momento, não existe mais nada além dela.

Próxima página - O acaso a meu favor ... 

sexta-feira, 28 de novembro de 2025

O acaso a meu favor - Página 74

 Continuação — O beijo… por Verônica

O “quase” entre nossas bocas dura longos segundos — segundos que esticam o mundo, que dilatam o ar ao nosso redor, que fazem meu peito doer de tanta vontade contida.

Clara respira bem perto, tão perto que sinto o calor do seu exalar tocar minha boca antes que ela toque de fato. E esse simples detalhe… esse pequeno roçar de ar quente… já desmonta toda a minha postura.

Minha mão aperta a cintura dela, puxando-a milímetros a mais.
Ela reage arqueando o corpo contra o meu — suave, involuntário, urgente.

E então, muito devagar, encosto minha boca na dela.

Não é um beijo imediato.
É primeiro um toque leve, quase um teste.
Um deslizar de lábios sobre lábios, tão sutil que mais parece um suspiro partilhado do que um toque real.

Mas Clara…
Clara responde como se estivesse esperando exatamente aquilo.

A respiração dela falha, e ela tenta seguir minha boca — mas eu não deixo. Ainda não. Me afasto só um fio de distância, o suficiente para sentir o corpo dela reclamar desse vazio.

Ela solta um som baixo, quase um gemido contido, e segura meu rosto com as duas mãos, como se tivesse medo que eu fugisse.

— Verônica… — ela repete, só que agora é mais grave, mais carregado de tudo o que ela segurou até aqui.

Essa forma de dizer meu nome me quebra.
Meu controle vai embora.

Volto a encostar minha boca na dela, dessa vez com mais certeza, mais fome.
Ainda devagar — mas não mais tímido.

Os lábios dela são quentes, macios, e ela me beija como alguém que precisava disso para respirar. A mão dela sobe pela minha nuca, os dedos entrelaçando-se no meu cabelo, puxando leve, guiando. Sinto uma onda quente subir pela minha coluna inteira.

Minhas duas mãos sobem lentamente pela lateral do seu corpo, os dedos explorando cada centímetro, sentindo o arrepio acender sob minha pele.
Cada toque parece acender outro nela.
E cada arrepio dela acende algo em mim.

O beijo aprofunda um pouco quando ela abre a boca devagar, como um convite silencioso — e eu o aceito. Nossas respirações se misturam num ritmo confuso, urgente e suave ao mesmo tempo, como se estivéssemos descobrindo o outro pela primeira vez.

Sinto o coração dela bater rápido contra meu peito.
Sinto a mão dela tremer um pouco na minha nuca.
Sinto que ela está entregue — não só ao beijo, mas ao que ele significa.

Eu afasto a boca só um segundo, apenas para respirar ao lado da dela.
Minhas palavras saem baixas, arranhando o silêncio:

— Eu queria isso há tanto tempo…

Clara encosta a testa na minha, a respiração quente batendo nos meus lábios.

— Então não para — ela sussurra, com um sorriso que me destrói e me reconstrói na mesma hora.

E quando a beijo novamente, com mais profundidade e mais calma — é como se o mundo tivesse sido feito só para aquele momento.
Só para nós duas.
Só para esse beijo que finalmente aconteceu… e que promete tudo o que vem depois.


Próxima página - O acaso a meu favor ... 

O acaso a meu favor - Página 91

Por Clara III: Ao sair do mercado do Valentino, solto o ar que nem percebi que estava prendendo. Vem um alívio. Mas junto dele, um sorriso t...