domingo, 22 de fevereiro de 2026

O acaso a meu favor - Página 82

 Por Clara…

Me organizo melhor por dentro. Talvez por ter acordado cedo demais para sentir, talvez por finalmente estar aprendendo a não fugir do que me atravessa. O bem-estar que sinto ao pensar em Verônica me assusta de verdade. Não o suficiente para estragar meu humor — mas o bastante para me obrigar a olhar para mim com mais honestidade do que estou acostumada.

Hoje percebo que amadureci. Não de um jeito dramático ou anunciado, mas daquele jeito silencioso que muda tudo sem pedir permissão. Se eu fosse a Clara de alguns meses atrás, estaria agora me culpando por cada sensação, cada pensamento, cada desejo. Estaria tentando me convencer de que estou errada por sentir o que sinto.

Como se estivesse ocupando um lugar que prometi a mim mesma pertencer apenas a alguém específico.
Alguém que, ironicamente, neste exato momento talvez nem esteja se perguntando se esse lugar ainda existe — muito menos se alguém o ocupa.

E essa constatação dói.
Mas também liberta.

Porque, pela primeira vez, entendo que sentir não é traição. É presença. É vida acontecendo apesar das promessas que fiz quando ainda não sabia quem eu estava me tornando.

Penso em Verônica — no jeito firme, no cuidado silencioso, na forma como ela me olha como se me enxergasse inteira, sem me pedir nada além de verdade. E percebo que não estou roubando espaço de ninguém.

Estou apenas criando o meu.

E talvez seja isso que mais me assuste:
não o que estou sentindo por ela,

mas o fato de que, agora, eu não quero mais fingir que não sinto. 


Beijo no Bento de despedida de lei, mochila nas costas e um humor que, acredito eu, ninguém rouba de mim. Eu acho.

A poucas quadras de chegar ao mercado, ouço o barulho de uma caminhonete logo atrás de mim. Nem preciso me virar para confirmar — o sorriso surge antes, convencido, automático. Então ela buzina duas vezes.

Viro na mesma hora.

Reconheço a peça. Reconheço ela.

Verônica me olha pela janela e, pela primeira vez desde que a conheço, me entrega o sorriso mais bonito que já vi. Aberto, tranquilo, verdadeiro. E só de imaginar que aquele sorriso exista por causa da noite passada — pelo beijo, pelo que não foi dito, pelo simples fato de estar me vendo ali — minha cabeça entra em curto.

É informação demais.
Sentimento demais.
Tudo ao mesmo tempo.

E enquanto fico parada, com a mochila pesando menos do que deveria e o coração pesando mais do que eu planejei, percebo uma coisa com clareza quase assustadora:

Tem coisas que mudam a gente sem fazer barulho nenhum.
E aquele sorriso…
definitivamente foi uma delas.

Ao encostar na rua, apoio os braços na janela da caminhonete e digo, simples:

— Oi.

Ela continua me olhando como se eu fosse algo raro, quase precioso, antes de responder:

— Oi. Entra, eu te dou carona.

Penso por alguns segundos antes de aceitar. Ainda eram apenas 6h37. Impossível já ter alguém no mercado — concluo, quase rindo do meu próprio pensamento.


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