segunda-feira, 2 de março de 2026

O acaso a meu favor - Página 91

Por Clara III:

Ao sair do mercado do Valentino, solto o ar que nem percebi que estava prendendo.

Vem um alívio.

Mas junto dele, um sorriso torto… e a preocupação.

Pelo menos ninguém vai ser prejudicado.
Pelo menos ninguém vai ser demitido.

Eu e o Luiz voltamos conversando, ou melhor — ele falando sem parar sobre a proposta do Valentino, enquanto eu reviro os olhos a cada frase e apresso o passo, dizendo que a gente precisa buscar o restante da mercadoria.

Não quero prolongar assunto nenhum que envolva aquele homem.

O Valentino fez uma cópia da nota para mim e ficou com a original.

Seguro o papel com força enquanto atravesso a rua de volta.

Assim que entro no mercado, o ar parece diferente.

Vejo Augusto no caixa.

E nem sinal da Verônica.
Meu estômago afunda.

Ele me vê.
Levanta na mesma hora.
E vem na minha direção.

— Clara, o que você estava fazendo no mercado do Valentino?

A pergunta é uma mistura de dúvida com fúria mal disfarçada.

Olho para ele já sem vontade nenhuma de sustentar aquela conversa.

— Eu? — respondo, seca. — Estava resolvendo um probleminha seu.

O olhar dele pesa nas minhas costas.
Mas eu não paro.

Levo o carrinho direto para o centro do mercado e começo a organizar o que ainda precisa ser devolvido.

Luiz me acompanha em silêncio agora.
Nós dois aceleramos.

Não queremos testar de novo a “boa vontade” daquele desgraçado do Valentino.

Cada caixa recolocada no carrinho é um passo mais perto de terminar logo com aquilo.

Um passo mais perto de sair daquele clima.
Um passo mais perto de… encontrar a Verônica.

Mesmo sem saber como.
Mesmo sem saber com que olhar.
Quando já estou empurrando o carrinho em direção à porta para voltar lá, Augusto aparece de novo e segura o carrinho antes que eu passe.

— Pode deixar que eu levo o restante.

A frase sai fria.
Cheia de uma arrogância que me faz travar o maxilar na hora.
Não é ajuda.
É disputa.
É ego ferido.
E, sinceramente, eu não tenho mais energia nenhuma para isso.
Não quero discutir.
Não quero olhar para ele.
Não quero ficar sob aquele olhar que só me lembra o tamanho do problema que ele causou.
Solto o carrinho sem insistir.

— É todo seu.

Passo por ele sem encostar.
Sem olhar.
Sem esperar resposta.
Porque, naquele momento, a única coisa que importa…

é encontrar a Verônica.

E descobrir em qual lugar do mundo dela eu ainda existo.

________________________

Desde que cheguei do mercado do Valentino, a Verônica não saiu daquele escritório.

Vejo o Augusto entrar e sair algumas vezes, mas nada dela.

Nada.

Meu Deus… parece que meu coração vai parar se eu não a vir, se eu não resolver isso com essa mulher.

Vejo as meninas chegarem para o turno delas.

Elas me cumprimentam com a alegria de sempre, perguntam coisas do caixa, do movimento, da entrega…

E eu respondo com um sorriso forçado.
Um sorriso que nem eu acredito.
Então a porta do escritório abre.

E é como se todo o ar do mercado mudasse.

É ela.

Óculos escuros.
Postura reta.
Passos firmes.

Fria.
Distante.
Intocável.

Meu corpo inteiro reage, como se tivesse sido programado para reconhecer cada movimento dela.
Eu espero.

Mesmo sem perceber que estou esperando.
Um olhar.
Um segundo.
Qualquer coisa.
Mas ela passa por mim.
Direto.
Sem virar o rosto.
Sem diminuir o passo.
Sem nada.

E aquilo me destrói de um jeito que nem a briga mais feia conseguiria.

Respiro fundo.
Muito fundo.

Porque eu sei que errei em ter dado ouvidos à Elise.
Mas era isso ou ela arrumar outra confusão dentro do mercado.

E pior.
Em horário de funcionamento.
Eu fiz para evitar um problema.
E criei outro.
Um muito pior.

Vou para o galpão porque preciso sentar.
Preciso de um minuto.
Preciso de um lugar onde ninguém veja que eu estou prestes a desmoronar.

O barulho da porta atrás de mim confirma o que eu já sabia.
Não preciso me virar.
Eu sei quem é.
Augusto.

E, naquele momento, tudo o que eu menos precisava…
era dele.

Não me viro de imediato.

Fico sentada na cadeira de plástico, encarando o chão, tentando organizar a respiração.

Mas o silêncio dele atrás de mim não é um silêncio comum.

É pesado.
Carregado.

— Você está se achando muito importante, né?

A voz do Augusto ecoa no galpão vazio.
Fecho os olhos por um segundo.
Eu realmente não precisava disso agora.
Viro devagar.

— Se for sobre a mercadoria, já foi resolvido.

Ele solta uma risada sem humor.

Dá dois passos na minha direção.

— Você foi até o mercado do Valentino sem falar comigo.

Cruzo os braços, mais para me segurar do que por coragem.

— Alguém precisava resolver o erro.
O maxilar dele trava.

— Você passou por cima de mim.
— Você causou o problema.

A resposta sai automática.
Cansada.
Sem paciência.
Sem medo.
Ele chega mais perto.
Perto demais.

— Cuidado com a forma que fala comigo, Clara. Eu ainda sou seu gerente.

Solto o ar pelo nariz, sentindo o resto de controle que eu tenho indo embora.

— Então começa a agir como um.
O olhar dele escurece.

— Eu posso acabar com a sua permanência aqui.
E, naquele momento…

eu rio.
Baixo.
Sem humor nenhum.

— Engraçado… — inclino a cabeça — porque eu também posso acabar com a sua.

Ele franze a testa, mas ainda tenta sustentar a pose.
É aí que eu levanto.
Ficamos frente a frente.

— Sua esposa sabe das suas horas “extras”?
O sangue some do rosto dele na hora.
Na mesma hora.

— Ou você ainda está dizendo que fica até mais tarde por causa do fechamento do caixa… quando, na verdade, está com a Juliana?

O silêncio vira outra coisa.
Não é mais confronto.
É ameaça.
De verdade.
Dou um passo para mais perto.
Baixo a voz.

— Inclusive… ela já contou para você?
Ele engole seco.
Não responde.
E isso é resposta suficiente.
Inclino um pouco mais.

— Se é que o filho que ela está esperando é seu… não é mesmo, Augusto?

Agora ele está completamente sem cor.
Sem ar.
Sem postura.
Nada daquele gerente arrogante de minutos atrás.
Só um homem encurralado.
Pego minha bolsa na cadeira, passando por ele sem encostar.

— Fica tranquilo — digo, já indo em direção à porta — eu não tenho interesse nenhum na sua vida.

Paro antes de sair.
Sem olhar para trás.

Só não mexe na minha.

Abro a porta e volto para o salão.
Com as pernas tremendo.
Com o coração disparado.
Mas com uma única certeza queimando dentro do peito:

Se tem uma coisa que eu não vou permitir…
é que alguém me destrua
no mesmo dia em que a Verônica decidiu fazer isso sem nem olhar para mim.

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