Por Clara…
Acordo pela manhã uma hora antes do despertador. Falta só chover para completar o improvável desse acontecimento.
Mas então minha mente me trai — ou me presenteia — e me leva direto à noite de ontem. Ao sorriso. Àquela boca.
Uma euforia quente se espalha pelo meu estômago, e de repente até o calor infernal dessa cidade parece perfeito hoje.
Abraço o Bento por alguns segundos. Ele retribui com um apego incomum, mais carente do que de costume.
Cerro os olhos, desconfiada, tentando lembrar o que ele poderia ter aprontado enquanto eu não estava olhando.
Com tempo de sobra, dou um giro pelo pequeno apartamento. Tudo parece em ordem. Nenhum desastre, nenhum indício de culpa felina. Então aproveito a calma rara da manhã para passar um café — e tomá-lo sem pressa, como se o dia tivesse decidido me respeitar.
Percebo que estou mais vaidosa do que o normal. Quero o cabelo impecavelmente arrumado, cada fio no lugar certo. O perfume, escolho o mais envolvente — como se alguém pudesse senti-lo mesmo à distância.
Hoje abandono a calça jeans. Opto por uma calça de linho preta, combinada com um cinto marrom — o uniforme de lei, não é?
Mas algo em mim pede mais.
Estou com um espírito delicado, quase translúcido, então coloco brincos também. Pequenos detalhes que parecem transbordar por fora o que ainda não sei explicar por dentro.
Quando percebo, a água do café já está fervendo. Passo o pó com cuidado, e o cheiro se espalha pelo apartamento, quente, reconfortante.
Sinto-me bem.
Bem como não me sentia há muito tempo.
E, enquanto seguro a xícara entre as mãos, penso que talvez não tenha sido só uma boa noite.
Talvez tenha sido um começo.
Ao pegar o celular que ficou carregando durante a noite, encontro uma mensagem dela — enviada há uns quinze minutos. Um sorriso involuntário volta a nascer nos meus lábios, como se já soubesse o caminho.
— Bom dia, senhorita!
Consigo ouvir a voz dela na minha cabeça, clara demais, como se estivesse à minha frente.
— Espero não ter atrapalhado sua noite ao te deixar tão tarde em casa.
Mal sabe ela que foi a noite mais bem dormida que tive em tempos.
— Se quiser, posso te buscar…
E, nesse instante, meu sorriso se alarga sem pedir permissão. A euforia vem junto, acompanhada de borboletas, mosquitos, pernilongos — tudo aquilo que tenta definir o que estou sentindo agora e falha miseravelmente.
Respondo de imediato, mas com cuidado. Preciso parecer normal. Preciso não parecer emocionada.
— Bom dia, Verônica!
Simples. Contida. Quase adulta.
— A senhorita aqui dormiu muito bem. — acrescento, tentando manter o tom leve. — O que espero que também tenha acontecido com você, já que voltou tarde para casa.
Faço questão de deixar clara a preocupação. Mesmo disfarçada.
— E não, não há necessidade. — continuo. — Gosto de andar pela manhã, principalmente quando acordo tão disposta como hoje.
Ela visualiza em menos de dois minutos.
Isso me surpreende mais do que deveria.
— Bobagem. Sou acostumada a poucas horas de sono.
E então vem a próxima mensagem, certeira demais:
— E o que levou a “senhorita” a estar tão disposta hoje?
Dou uma risada baixa, sozinha na cozinha, como se tivesse sido pega no flagra.
Posso praticamente vê-la arqueando uma sobrancelha do outro lado da tela.
Claro que ela perguntaria isso.
Digito uma resposta.
Apago.
Digito outra.
Apago também.
Como explicar que acordei diferente?
Que meu corpo ainda guarda o eco da noite anterior?
Que existe uma mulher ocupando um espaço novo dentro de mim — sem pedir licença?
Seguro o celular por alguns segundos a mais do que o necessário. Respiro fundo.
E sorrio.
Porque, pela primeira vez em muito tempo, não é o medo que me deixa sem palavras.
É a vontade.
E talvez — só talvez — eu não precise responder tudo agora.
Como não respondi de imediato, ela deve ter pensado que eu ficaria em silêncio. Ainda assim, poucos instantes depois, outra mensagem dela chega..
— Fico satisfeita em saber que não estraguei sua noite, então.
Mordo o lábio, rindo sozinha.
Ela sabe exatamente o que está fazendo.
Antes que eu responda, outra mensagem chega:
— Confesso que acordei melhor do que o habitual também.
Meu estômago revira de novo — de um jeito bom, perigoso, novo.
— Talvez algumas companhias tenham esse efeito. — ela completa.
E ali entendo:
Verônica não está mais fingindo indiferença.
Está caminhando devagar… mas na mesma direção que eu.
Pelo menos, eu espero.
Próxima página - O acaso a meu favor ...
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