Por Verônica.
Ao perceber que já nos colocamos em risco demais, puxo-a para mim só para sentir o peso do corpo dela contra o meu e o ritmo da sua respiração misturado ao meu. — Já está na hora de sairmos daqui, se não quisermos problemas — digo, baixo, mesmo que cada parte de mim queira prolongar aqueles segundos.
Vejo-a assentir. Não nos beijamos. Apenas ficamos ali, compartilhando o mesmo ar, o mesmo calor, o mesmo silêncio cheio de tudo. Deixo que ela saia primeiro e, assim que a porta que leva ao galpão se move, o som do metal arrastando atravessa meus ouvidos alto demais para aquela manhã ainda adormecida.
— Verônica? — ouço a voz do Augusto no meio do breu. — O que está procurando nesse escuro?
Agradeço mentalmente ao meu cérebro por funcionar tão rápido quando preciso de uma resposta — seja ela totalmente verdadeira ou não.
Ainda sinto o cheiro da Clara na minha roupa e preciso vestir a minha expressão de rotina antes que a luz revele qualquer coisa.
— Bom dia, Augusto — o cumprimento com uma tranquilidade que não corresponde ao que meu coração está fazendo agora.
O silêncio do galpão parece amplificar tudo.
— Eu pedi para a Clara ligar para mim. Não a viu pelo corredor? — digo, escolhendo as palavras com cuidado, me equilibrando naquela linha tênue entre a verdade e a mentira.
Não consigo ver a expressão dele na escuridão, mas o pequeno intervalo antes da resposta faz meu corpo inteiro ficar em alerta.
— Sim, sim. Eu a vi.
E então a luz se acende.
Branca. Direta.
Revelando nossos rostos, nossas feições ainda marcadas pelo início da manhã — e, no meu caso, pelo que acabou de acontecer.
Piscar se torna necessário, mas mantenho a postura firme. Profissional. Intocável.
Por dentro, ainda estou no escuro com ela.
Ao pegar minha bolsa em cima de uma das prateleira do galpão, vejo Augusto se afastar em direção ao salão para ajudar os meninos a abrir o mercado. Só então percebo que já chegaram os outros funcionários.
Quando ele some do meu campo de visão é que solto o ar preso nos pulmões.
Um suspiro longo. Necessário.
Como aquela menina conseguiu seguir exatamente a minha linha de raciocínio?
A pergunta vem acompanhada do gosto dos lábios dela ainda vivo na minha boca, como se o beijo tivesse acontecido há segundos, e não minutos.
Passo a língua discretamente sobre os lábios, num gesto automático, e fecho o armário.
Sigo para o meu escritório.
Ali dentro, protegida pela porta que se fecha atrás de mim, volto a ser a Verônica de todos os dias. A que resolve. A que decide. A que ninguém questiona.
Ligações.
E-mails.
Planilhas.
Números.
Pedidos.
Respostas firmes.
O mundo volta para o eixo da rotina, mas meu corpo ainda carrega o eco do que aconteceu no escuro do galpão.
……
As horas passam sem que eu perceba.
Só noto o tempo quando, quase por instinto, meus olhos procuram por Clara nas câmeras.
E ela não está.
O alerta é imediato.
Franzo a testa e olho para o relógio.
Ainda não é o horário de almoço dela.
Até porque ela vai almoçar comigo.
A certeza disso é tão natural que a ausência dela começa a me incomodar de verdade.
Abro todas as câmeras, uma por uma, percorrendo cada corredor do mercado, cada setor, cada ponto cego que eu conheço de cor.
Até que encontro.
E o que vejo faz meu maxilar travar.
Clara.
Com ela. De novo.
Elise.
Sinto o sangue ferver de um jeito rápido e perigoso, completamente diferente da calma calculada que sustentei durante toda a manhã.
Meu corpo se inclina para frente na cadeira sem que eu perceba, como se a proximidade com a tela pudesse mudar alguma coisa.
O jeito como Elise fala perto demais.
A forma como Clara se mantém ali.
O tempo que dura.
Tempo demais.
Uma irritação densa sobe pelo meu peito, misturada com algo que reconheço na mesma hora e que me recuso a nomear.
Não é só raiva.
É pior.
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