O tempo passa sem que a gente perceba. A estrada já não chama, o frio aumentou, e a noite parece pedir um ponto final que nenhuma de nós quer colocar.
Verônica olha o relógio. Suspira.
— Eu preciso te levar.
Assinto, mesmo sem querer. O caminho de volta é quieto, mas diferente — como se algo tivesse se assentado entre nós. Quando o carro para em frente à minha casa, o silêncio pesa de novo.
— Chegamos… — Ela diz, desnecessariamente.
Eu concordo com a cabeça, mas não me movo. Os dedos dela batem levemente no volante, nervosos.
Abro a porta, mas antes de sair sinto a mão dela segurar meu pulso.
— Clara.
Olho para ela.
Não há beijo.
Não há confissão.
Só o polegar dela pressionando de leve minha pele, como se estivesse gravando aquele toque para depois.
— Boa noite. — diz, num tom que promete mais do que encerra.
Sorrio. Me inclino um pouco, perto demais.
— Boa noite, Verônica.
Saio do carro sem olhar para trás.
Mas sei — sei com absoluta certeza —
que ela só arranca quando eu entro em casa.
E que essa despedida…
não terminou coisa nenhuma.
............
Ao subir as escadas do prédio onde moro, revivo cada beijo, cada toque, cada risada — como se meu corpo tivesse decidido guardar tudo antes que a razão tentasse estragar. Tento me lembrar da última vez que senti algo assim.
Mais ainda… da última vez que senti isso com uma mulher como Verônica.
Há nela um peso, uma história, um silêncio que não se oferece fácil. E, ainda assim, ali estávamos nós, rindo no banco de um carro, como se o mundo pudesse caber em coisas pequenas.
Ao girar a chave no trinco da porta, percebo algo estranho — e novo.
Pela primeira vez, não sinto aquele vazio que costumava me receber do outro lado.
Nenhum eco.
Nenhuma ausência.
Em vez disso, sinto-me cheia.
Cheia de vida.
Cheia de expectativa.
Não sei o que isso é.
Pode ser um lance raso, desses que passam rápido e deixam só lembrança.
Ou algo que, aos poucos, crie raízes onde eu jurava que nada mais cresceria.
Mas hoje…
Hoje eu me sinto viva.
E isso, por si só, já é mais do que eu tinha ontem.
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