Por Clara…
Depois do primeiro beijo — e do segundo, e do terceiro — o frio e a fome resolvem se anunciar ao mesmo tempo em nós duas.
E, para minha surpresa, é ela quem se rende primeiro.
Dou risada do jeito quase contrariado com que admite estar com fome, como se aquilo fosse uma falha grave no personagem que insiste em sustentar.
— Com fome, não consigo te beijar mais vezes… não é mesmo? — diz, com aquele meio sorriso torto que sempre me desmonta.
Reviro os olhos, mas acabo rindo.
Sempre acabo rindo com ela.
E então a encaro com mais atenção. As luzes distantes da cidade desenham sombras suaves no rosto dela, deixando-a… diferente. Menos rígida. Mais próxima.
Não sei nomear o que vejo — nem de onde vem esse desejo silencioso que cresce entre nós. O que significa uma mulher como Verônica querer me beijar assim, sem pressa, sem armaduras?
Tudo é confuso.
Mas não é ruim.
Meu estômago esfria e ronca, cúmplice da fome e da ansiedade. Ela percebe antes mesmo que eu diga qualquer coisa e entrelaça os dedos aos meus, puxando-me com naturalidade para o carro — como se já soubéssemos exatamente onde pertencer.
Afastamos os bancos um pouco para trás, e Verônica simplesmente devora o lanche.
Sem cerimônia.
Sem cálculo.
Sem a elegância ensaiada que costuma usar como escudo.
Ela se suja — e eu fico ali, observando, entre admirada e levemente assustada, como se estivesse vendo um segredo que não foi feito para qualquer um.
— Que foi? — pergunta, notando meu olhar preso nela.
Ainda encarando, respondo, divertida:
— Deve estar muito bom… pelo jeito que você está comendo.
Ela se olha, percebe a sujeira tarde demais e, em vez de se constranger, pega um guardanapo e joga em mim.
— Ah, não… eu não acredito nisso! — reclamo, rindo. — Todo cheio da sua baba, e você ainda tem coragem de jogar em mim?
Ela ri.
Ri de verdade.
E aquele som é estranho… e bonito demais.
Como se não fosse usado há muito tempo.
É nesse instante que entendo: a Verônica séria, cercada de compromissos, muros altos e arames farpados, simplesmente não existe ali.
O que existe é só uma mulher — madura, cansada, surpreendentemente leve — se permitindo algo que claramente não fazia há anos.
E talvez seja isso que mais me desarme.
Porque gosto de vê-la assim.
Gosto mais do que deveria.
E, pela primeira vez, me pergunto se esse sorriso dela…
não é algo que eu vá querer provocar de novo.
Depois da cena da “bagunceira” ao meu lado, começo enfim a comer o meu lanche. E, apesar de um pouco frio, está realmente muito bom — o tipo de sabor que conforta mais do que impressiona.
Reconheço na hora de onde vêm os hambúrgueres e, quase sem pensar, comento de relance que o melhor dali é o que leva cebola caramelizada.
Por que eu disse isso?
É o suficiente para que essa bendita mulher praticamente faça propaganda do lanche que estamos comendo, afirmando — com uma convicção quase ofensiva — que aquele é o melhor de todos e que ninguém, em lugar nenhum, conseguiria reproduzi-lo.
Ela não aceita, de forma alguma, que eu prefira outro.
E a expressão de indignação no rosto dela é tão genuína, tão exagerada, que me arranca risadas só pelo fato de Verônica claramente não saber lidar com a ideia de estar errada.
— Por comida você mata e morre, né? — digo, com os olhos marejados de tanto rir.
Ainda um pouco emburrada, ela acaba rindo também — do meu estado, mais do que da piada. Vejo seus ombros relaxarem, o semblante suavizar, e aquele sorriso voltar devagar, como se tivesse sido chamado de volta.
— Porque eu sei que estou certa. — responde, limpando os dedos no guardanapo, cheia de si.
E só para provocar — porque agora já é tarde demais — comento:
— Mas o pão…
Ela me lança um olhar mortal.
Desses que prometem julgamento imediato.
— Não diga mais nada sobre o pão deles!
Aí eu perco completamente o controle. Rio a ponto de torcer o corpo, tentando puxar o ar de volta para os pulmões, até acabar jogando o corpo para trás no banco, só para conseguir respirar… e para ver melhor o rosto dela.
E ali, rindo de algo tão pequeno, tão banal, percebo:
não é só o lanche que está bom.
É o momento.
É ela.
E isso me assusta quase tanto quanto me faz querer ficar mais um pouco.
Demoro alguns segundos para me recompor da risada. Meu corpo ainda treme quando volto a me ajeitar no banco, puxando o ar como se tivesse acabado de correr. E é só então que percebo: Verônica está me olhando.
Não aquele olhar rápido, distraído.
É um olhar inteiro.
Ela não diz nada. Apenas me observa como se estivesse tentando memorizar aquele instante — meu riso solto, meus olhos ainda marejados, minha falta de controle. E isso me desconcerta mais do que qualquer toque.
— Você fica diferente quando ri. — ela diz, baixa, quase sem intenção.
Meu coração dá um salto estranho, fora de ritmo.
— Diferente como? — pergunto, tentando soar casual, mas falhando miseravelmente.
Ela inclina a cabeça de leve, pensativa. O silêncio dela nunca é vazio.
— Mais você.
E pronto.
É isso que me desmonta.
Não sei o que responder. Não sei se devo brincar, provocar, fugir. Então faço a única coisa possível: continuo ali, existindo, sentindo o peso bom daquela atenção.
Ela estende a mão, quase sem perceber, e limpa com o polegar um canto da minha boca — um gesto pequeno, íntimo demais para ser inocente, simples demais para ser fingido.
— Você se sujou. — diz, mas a voz sai suave. Nada de repreensão. Nada de controle.
Engulo em seco.
— Agora você também vai jogar o guardanapo em mim? — tento brincar.
Ela sorri de canto. Um sorriso lento. Perigoso.
— Não. — responde. — Isso seria desperdício.
E fica ali.
Perto demais.
Com a mão ainda suspensa entre nós, como se não tivesse decidido se deve avançar ou recuar.
O mundo lá fora parece distante. A estrada, o frio, o tempo — tudo fica pequeno diante daquele espaço mínimo que ela ocupa ao meu lado.
— Verônica… — chamo, sem saber exatamente o porquê.
Ela me encara. E, pela primeira vez desde que a conheço, não há cálculo nenhum no rosto dela. Só verdade.
— Você bagunçou tudo. — diz. — E ainda acha graça.
Sorrio devagar.
— Você que não está acostumada com bagunça.
Ela solta um riso baixo, quase rendido.
— Talvez eu esteja aprendendo.
E ali, com cheiro de hambúrguer frio, risadas soltas e olhares demorados, entendo que algumas coisas não começam com promessas ou grandes gestos.
Algumas começam assim:
num banco de carro,
com migalhas no colo,
e uma mulher que finalmente abaixou a guarda só para eu a ver sorrindo.
E eu sei — com uma certeza que assusta —
que nada dentro de mim vai voltar ao lugar depois disso.
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