Por Verônica II.
Vejo Clara voltar para o caixa sem que eu precise dizer uma única palavra.
Ela simplesmente vai.
Assume o lugar.
Postura reta, movimentos rápidos, a educação impecável de sempre. Em menos de dez minutos atende os três clientes como se o mundo ao redor não estivesse desmoronando.
Como se entre nós não existisse um silêncio pesado desde cedo.
Observo de longe.
O controle que ela tem
.
A segurança.
A forma como resolve tudo com uma naturalidade que me desarma.
Como se nada tivesse acontecido.
Como se o caos no meio do mercado não estivesse correndo contra o tempo.
Quando ela termina, vem direto até mim.
Sem rodeios.
— Podemos pelo menos devolver para a empresa correta?
Ela não faz ideia.
Não sabe que a empresa “correta” é o meu maior rival.
Perfeito.
Respiro fundo, mantendo a expressão neutra.
— Estou vendo o que posso fazer, Clara.
Mas o meu “resolver” naquele momento é ligar para o Augusto e fazer com que ele assuma a responsabilidade por isso.
Levo o celular ao ouvido.
Chama.
Chama.
Nada.
— Você sabe quantas caixas foram abertas? — ela pergunta, já se abaixando no meio da mercadoria espalhada.
— Sim, sim. Sabemos — respondo automaticamente.
Mas não sabemos.
Não de verdade.
Vejo quando ela pede para o Luiz trazer carrinhos.
Ela não pede minha autorização.
Ela não espera.
— Me deixa ver a nota novamente, Verônica.
Ainda com o celular no ouvido, estendo o papel para ela.
Ela não olha para mim.
E isso me atinge de um jeito completamente desproporcional.
Ela começa a agir.
Retira os produtos das prateleiras.
Separa por tipo.
Organiza.
Rápida.
Focada.
Como se o tempo estivesse gritando no ouvido dela.
E está.
Os congelados.
Droga.
Sinto a pressão subir pelo meu corpo.
— Clara — chamo, já sem conseguir esconder a irritação —, como eu vou devolver essa mercadoria para a empresa correta sem as caixas? Sem a embalagem adequada?
Ela não para.
Nem por um segundo.
— Simples! — responde, e o deboche na voz dela me acerta em cheio.
Então ela me olha.
Direto.
Sem recuar.
— Fica aí ligando para quem você quiser. Eu e o Luiz tentamos devolver para a empresa correta.
É um desafio.
É provocação.
Mas é, acima de tudo, uma solução.
Ela volta ao trabalho no mesmo instante, ajoelhada no chão frio do corredor, salvando um problema que era meu.
E isso me irrita.
Porque está funcionando.
Porque é eficiente.
Porque ela não precisou de mim para começar.
Solto um suspiro nervoso e assumo o caixa.
O celular ainda no ouvido.
A ligação chamando de novo.
Minha voz volta ao automático.
— Bom dia.
— Crédito ou débito?
— Obrigada, volte sempre.
Mas nada em mim está ali.
Minha atenção está dividida entre o telefone, o prejuízo e Clara no chão do mercado, prendendo o cabelo de qualquer jeito, dando ordens para o Luiz, conferindo produto por produto com uma concentração que eu conheço.
E que eu admiro.
Ela não olha para mim.
Nem uma vez.
E isso incomoda mais do que o deboche.
Muito mais.
Atendo outro cliente com o sorriso profissional que todos conhecem.
Mas meus olhos escapam para ela de novo.
Para a forma como assume.
Para a forma como resolve.
Para a forma como, mesmo irritada comigo, continua lutando pelo mercado.
Lutando contra o tempo.
Lutando por algo que é meu.
Que é nosso.
E é nesse instante que a verdade vem, crua, impossível de ignorar:
Ela não está salvando só a mercadoria.
Ela está salvando a mim.
Próxima página - O acaso a meu favor ...
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