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segunda-feira, 2 de março de 2026
O acaso a meu favor - Página 91
O acaso a meu favor - Página 90
O acaso a meu favor - Página 89
O acaso a meu favor - Página 88
O acaso a meu favor - Página 87
O acaso a meu favor - Página 86
domingo, 22 de fevereiro de 2026
O acaso a meu favor - Página 85
O acaso a meu favor - Página 84
Por Clara…
Ao tentar presumir o que Verônica queria fazer, não sei se entro em pânico ou em êxtase. Quando a vejo olhar para o relógio de pulso, ouço o barulho da porta se abrindo. Um meio sorriso travesso me escapa antes mesmo de eu perceber, e quando ela me dá as costas, entendo exatamente o que devo fazer. Não penso duas vezes antes de segui-la.
Enquanto caminho atrás dela, não consigo evitar analisá-la. A saia lápis desenha o corpo de um jeito que parece calculado, firme, seguro. A blusa social vermelha — um marsala elegante — contrasta com a postura confiante que ela carrega sem esforço algum. Verônica anda como quem sabe exatamente quem é. E isso me desarma.
Ela abre a porta lateral do mercado, olha rapidamente para os lados antes de entrar. Meu coração acelera com o simples gesto. Tudo ali parece clandestino demais para uma manhã comum.
Assim que entro, ela fecha a porta atrás de nós com cuidado excessivo. O silêncio do lugar vazio nos envolve. O mercado ainda dorme, mas meu corpo está completamente acordado.
— "A gente tem alguns minutos" — ela dizia, em tom baixo, quase sério demais para quem claramente está sentindo o mesmo que eu.
Cruzo os braços, tentando fingir normalidade.
— Você sempre irá fazer isso? — provoco. — Me sequestra cedo, me trazer para lugares vazios…
Ela ri de canto, aquele riso que não mostra tudo, mas promete.
— Só quando vale a pena.
Nos encaramos por tempo demais. O espaço entre nós diminui sem que nenhum passo seja dado. Sinto o cheiro dela de novo, aquele mesmo da noite passada, e meu estômago reage imediatamente.
— Verônica… — começo, sem saber exatamente o que dizer.
Ela inclina levemente a cabeça, atenta, como se cada palavra minha importasse mais do que deveria.
— Clara — responde, usando meu nome como se fosse algo delicado.
E ali, naquele mercado ainda fechado, com o medo de alguém chegar a qualquer segundo, percebo que não é só desejo.
É vontade de ficar.
Mesmo quando não é o lugar.
Mesmo quando não é a hora.
Verônica dá um passo à frente, finalmente rompendo o espaço invisível que nos separava. O ar parece mais denso quando ela se aproxima, como se o mundo lá fora tivesse sido suspenso só para aquele instante.
Sinto os dedos dela tocarem minha cintura com cautela primeiro, quase pedindo permissão. Mas o toque esquenta rápido, firme, decidido. Meu corpo responde antes que minha mente consiga formular qualquer argumento sensato. Seguro o tecido da blusa dela entre os dedos, sentindo a textura macia sob minhas mãos, a temperatura da pele que aquece por baixo.
Ela me olha como se estivesse confirmando algo que já sabia.
E então me beija.
Não é um beijo apressado. É um beijo que carrega um peso doce, um gosto de reencontro. Os lábios dela demoram nos meus como se estivessem reaprendendo o caminho. Há cheiro de perfume misturado ao café que provavelmente tomou antes de sair de casa. Há cheiro de saudade — aquele impossível de explicar, mas que eu reconheceria em qualquer lugar.
Ela desliza uma das mãos para minha nuca, os dedos se entrelaçando no meu cabelo com delicadeza possessiva. Meu coração dispara de um jeito quase irritante. Eu me aproximo mais, pressionando nossos corpos, sentindo a firmeza dela, a segurança que me envolve inteira.
Quando o beijo se aprofunda, solto um suspiro contra a boca dela. Verônica responde com um som baixo, quase um murmúrio satisfeito, como se estivesse esperando por aquilo desde sempre — ou, pelo menos, desde a última vez que estivemos assim.
Ela se afasta por um segundo, só o suficiente para encostar a testa na minha. Nossos narizes se tocam de leve. Os olhos dela estão mais escuros.
— Eu estava com saudade — ela admite, a voz rouca, sincera demais para alguém tão controlada.
Eu arqueio uma sobrancelha, fingindo indignação enquanto ainda tento recuperar o fôlego.
— Não acredito que estava com tantas saudades, nos vimos a poucas horas.
Ela ri baixinho, aquele riso que vibra no peito e passa direto para o meu. Os dedos dela apertam levemente minha cintura, como se estivesse me punindo pela provocação.
— Algumas horas são demais — responde, roçando o polegar na minha pele, desenhando círculos lentos que me fazem arrepiar. — Principalmente depois de ontem.
Sinto meu rosto esquentar, mas não recuo. Pelo contrário, puxo-a de volta pela gola da blusa, selando nossos lábios outra vez, dessa vez com menos paciência e mais verdade.
O beijo ganha intensidade, mas ainda carrega cuidado. Há pressa no toque, mas não há desespero. Só vontade. Vontade de ficar ali, mesmo com o risco, mesmo com o relógio correndo contra nós.
Quando finalmente nos afastamos, o silêncio do mercado parece diferente. Não é mais vazio. Está carregado de respirações descompassadas e olhares que dizem mais do que qualquer declaração poderia dizer.
Verônica encosta a testa na minha de novo, fechando os olhos por um instante.
E eu percebo que, se dependesse de mim, o mercado poderia abrir, o mundo poderia bater à porta.
Eu ainda escolheria ficar exatamente ali. Com ela.
O acaso a meu favor - Página 83
Por Verônica…
Ao reconhecer aquela silhueta andando com uma serenidade quase insolente, como se não devesse nada a ninguém, meu sorriso surge antes mesmo que eu tenha tempo de pensar sobre isso. E o pior: eu paro a caminhonete. Definitivamente, estou ficando louca.
Observando suas expressões, quase consigo ler o que se passa na cabeça dela. A dúvida, o cálculo rápido, a tentativa de manter o controle. Então falo antes que ela desista:
— Vem… acredito que ninguém esteja nos esperando a essa hora. — digo em tom leve, quase brincando, só para tranquilizá-la.
E quando ela sorri de volta, sei que parar foi a melhor loucura que cometi naquela manhã.
Ela entra no meu carro e ocupa exatamente o mesmo lugar de ontem, e isso já é o suficiente para me deixar inquieta. Como se aquele banco tivesse memória. Como se o corpo dela ali ainda carregasse tudo o que ficou suspenso na noite passada.
Como faltavam apenas algumas quadras até o mercado, não houve tempo para uma saudação à altura do que ela merece. Não um beijo, não um toque, nem sequer uma palavra certa. Apenas a levei comigo até o nosso destino, guardando tudo o que eu gostaria de ter feito para depois.
Ao parar em frente ao mercado, olho para ela — e, como se fosse combinado, a encontro me olhando de volta. Confiro o relógio de pulso. Ainda nos restam alguns minutos.
Desligo o motor, mas não desço. Nem ela. O mercado ainda está fechado, escuro por dentro, e o silêncio da rua parece maior do que deveria. Olho de novo para o relógio. Ainda temos tempo. Pouco… mas temos.
É estranho como vinte minutos podem parecer eternos e insuficientes ao mesmo tempo.
Sinto uma euforia quieta crescer dentro de mim — aquela que não dá vontade de rir alto, mas de segurar, de proteger. A lembrança da noite passada volta inteira: o beijo lento, o quase, o toque contido, a respiração compartilhada. Tudo isso ainda está aqui, pairando dentro do carro como um segredo quente.
Mas, ao mesmo tempo, qualquer barulho me deixa alerta.
Um carro passando mais devagar.
Um passo distante.
Qualquer movimento na esquina.
Meu corpo reage num misto de ansiedade e prazer. Quero esse momento só nosso, mas sei que ele é frágil. Que basta alguém chegar cedo demais para quebrar o encanto.
Olho para Clara de novo. Ela está quieta, mas não distante. Há algo no jeito como ela segura a alça da mochila, como cruza as pernas, como evita me encarar por tempo demais. É o mesmo nervosismo bom que eu sinto.
— Ainda é cedo. — digo, mais para mim do que para ela.
Ela sorri de canto, como quem entende tudo sem precisar de explicação.
E nesse sorriso, percebo que não importa se alguém chegar daqui a cinco ou a vinte minutos. Nada apaga o que vivemos. Nada desfaz o que já aconteceu entre nós.
O medo está ali, sim.
Mas a euforia…
A euforia é maior.
Porque, mesmo com o coração acelerado e os olhos atentos à rua, eu sei:
algumas coisas, quando acontecem, acontecem para sempre.
Desço do carro depressa, como se minha vida dependesse disso. Dou a volta quase correndo e abro a porta dela, tudo sob o olhar atento de Clara.
Ela desce rápido também, mas não deixa de me lançar um olhar cheio de perguntas — uma grande interrogação silenciosa estampada no rosto. É nesse instante que abro um sorriso para ela. Um sorriso cúmplice.
Como se estivéssemos fazendo algo proibido. Parada diante dela, sinto o peso de tudo o que sou e de tudo o que quero ser entrar em conflito. A Verônica responsável sabe que isso é arriscado. Que alguém pode chegar a qualquer momento. Que não é hora nem lugar.
Mas a outra…
A outra está eufórica.
Porque Clara está ali, diante de mim, com aquele olhar curioso e cúmplice, como se confiasse em mim sem perceber o quanto isso me desmonta.
Quero afastá-la. Quero protegê-la.
E, ao mesmo tempo, quero ficar exatamente onde estou.
Dou um passo para trás, só o suficiente para parecer racional, mas não o bastante para quebrar o clima.
— A gente tem pouco tempo. — digo, tentando soar firme.
Ela inclina a cabeça, me analisando, como se soubesse que minhas palavras não combinam com meus olhos.
E ela está certa.
Porque, mesmo com o medo de alguém chegar, tudo em mim vibra com a certeza de que…
valeu a pena cada segundo da noite passada.
E, de alguma forma, estivéssemos gostando exatamente disso.
O acaso a meu favor - Página 82
Por Clara…
Me organizo melhor por dentro. Talvez por ter acordado cedo demais para sentir, talvez por finalmente estar aprendendo a não fugir do que me atravessa. O bem-estar que sinto ao pensar em Verônica me assusta de verdade. Não o suficiente para estragar meu humor — mas o bastante para me obrigar a olhar para mim com mais honestidade do que estou acostumada.
Hoje percebo que amadureci. Não de um jeito dramático ou anunciado, mas daquele jeito silencioso que muda tudo sem pedir permissão. Se eu fosse a Clara de alguns meses atrás, estaria agora me culpando por cada sensação, cada pensamento, cada desejo. Estaria tentando me convencer de que estou errada por sentir o que sinto.
Como se estivesse ocupando um lugar que prometi a mim mesma pertencer apenas a alguém específico.
Alguém que, ironicamente, neste exato momento talvez nem esteja se perguntando se esse lugar ainda existe — muito menos se alguém o ocupa.
E essa constatação dói.
Mas também liberta.
Porque, pela primeira vez, entendo que sentir não é traição. É presença. É vida acontecendo apesar das promessas que fiz quando ainda não sabia quem eu estava me tornando.
Penso em Verônica — no jeito firme, no cuidado silencioso, na forma como ela me olha como se me enxergasse inteira, sem me pedir nada além de verdade. E percebo que não estou roubando espaço de ninguém.
Estou apenas criando o meu.
E talvez seja isso que mais me assuste:
não o que estou sentindo por ela,
mas o fato de que, agora, eu não quero mais fingir que não sinto.
Beijo no Bento de despedida de lei, mochila nas costas e um humor que, acredito eu, ninguém rouba de mim. Eu acho.
A poucas quadras de chegar ao mercado, ouço o barulho de uma caminhonete logo atrás de mim. Nem preciso me virar para confirmar — o sorriso surge antes, convencido, automático. Então ela buzina duas vezes.
Viro na mesma hora.
Reconheço a peça. Reconheço ela.
Verônica me olha pela janela e, pela primeira vez desde que a conheço, me entrega o sorriso mais bonito que já vi. Aberto, tranquilo, verdadeiro. E só de imaginar que aquele sorriso exista por causa da noite passada — pelo beijo, pelo que não foi dito, pelo simples fato de estar me vendo ali — minha cabeça entra em curto.
É informação demais.
Sentimento demais.
Tudo ao mesmo tempo.
E enquanto fico parada, com a mochila pesando menos do que deveria e o coração pesando mais do que eu planejei, percebo uma coisa com clareza quase assustadora:
Tem coisas que mudam a gente sem fazer barulho nenhum.
E aquele sorriso…
definitivamente foi uma delas.
Ao encostar na rua, apoio os braços na janela da caminhonete e digo, simples:
— Oi.
Ela continua me olhando como se eu fosse algo raro, quase precioso, antes de responder:
— Oi. Entra, eu te dou carona.
Penso por alguns segundos antes de aceitar. Ainda eram apenas 6h37. Impossível já ter alguém no mercado — concluo, quase rindo do meu próprio pensamento.
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Por Verônica...
Quando Clara diminui o ritmo do beijo, sinto na hora.
Não é rejeição.
É… delicadeza.
É o corpo dela tentando acompanhar o que está acontecendo — e o meu tentando não ultrapassar nenhum limite.
Eu afrouxo o toque na mesma hora. Tento puxar o ar que ela tirou de mim enquanto ainda mantenho minhas mãos no rosto dela, sem pressionar. Só segurando. Só estando ali.
Os olhos dela, quando se abrem, vêm carregados de algo que me desarma: não medo, não dúvida… mas um tipo de vulnerabilidade que me faz querer cuidar dela mais do que qualquer outra coisa.
— Ei… — digo baixo, aproximando meu rosto do dela sem voltar ao beijo. — Respira comigo.
Ela faz isso. Devagar. Quente. Tremendo.
Meu polegar passa na bochecha dela sozinho, como se minhas mãos tivessem mente própria.
O que me desespera é que ela não recua.
Pelo contrário — ela se inclina um pouco, buscando meu toque.
Meu corpo inteiro responde, mas me obrigo a ficar firme.
— Se for demais, me fala — digo, não como aviso, mas como promessa.
Ela fecha os olhos por um instante, e quando abre… eu juro que vejo um brilho novo ali. Algo que não tinha antes. Algo que me puxa.
— Não me tira de perto de você agora — ela murmura. Não é um pedido. É quase um sussurro arfado.
A respiração me falha.
Aproximei a boca dela sem encostar, sentindo a respiração quente dela roçar na minha.
— Eu não conseguiria nem se tentasse.
Desço uma das mãos para a cintura dela, segurando com firmeza, mas com um cuidado que nunca tive com ninguém. Ela corresponde, apoiando as mãos no meu peito, e mesmo esse toque leve me faz perder o chão.
Clara ergue o rosto um pouco, como se estivesse me estudando — como se quisesse ver o que está acontecendo comigo. E ela vê.
Ela vê tudo.
— Você tá… diferente — ela diz com um riso fraco, quase sem ar.
Eu sorrio de canto, mas é um sorriso quebrado, tão sincero que chega a doer.
— A culpa é sua.
Minha voz sai rouca, mais honesta do que eu pretendia.
— Eu não fico assim com ninguém.
Vejo o impacto dessas palavras nela — não medo, mas surpresa.
Boa surpresa.
Surpresa quente.
A mão dela escorrega do meu peito para o meu pescoço, lenta.
E isso…
Isso me destrói.
Aproximo minha boca do canto da dela, sem beijar, apenas tocando de leve a pele sensível ali. Ela prende a respiração. Os dedos dela apertam meu pescoço sem força, mas com vontade.
— Se soubesse o que você faz comigo… — murmuro contra o canto da boca dela, sentindo o corpo dela tremer. — Acho que teria me beijado antes.
Ela solta um riso abafado, nervoso, delicioso.
Eu seguro seu rosto pelas laterais, aproximando-a devagar, como se estivesse puxando o mundo inteiro para os meus braços.
— Posso te beijar de novo? — pergunto dessa vez, a voz baixa, quente, pedindo e ao mesmo tempo não pedindo nada.
Ela não responde com palavras.
Ela inclina o queixo.
Encosta a ponta dos lábios nos meus.
E suspira.
Esse é o “sim”.
E quando eu finalmente a beijo outra vez — devagar, profundo, com toda a calma que não tenho — sinto Clara derreter nas minhas mãos.
E eu também.
Porque agora não tem mais recuo.
Só avanço.
Dela.
E meu.
O acaso a meu favor - Página 76
Continuação por Clara...
O beijo que Verônica me dá é lento no começo — lento o suficiente para me deixar completamente à mercê dela.
Os lábios dela roçam nos meus quase sem tocar, como se estivessem me pedindo permissão que já têm, e só depois ela encaixa a boca na minha de um jeito que faz minhas pernas ameaçarem ceder. O ritmo é suave, mas carregado de intenção, como se ela quisesse me memorizar detalhe por detalhe.
Uma das mãos dela acompanha a curva da minha cintura, subindo pelas minhas costas num toque quente demais pra essa noite que está tão fria. Sinto cada dedo, cada linha da palma, cada centímetro da pele dela queimando a minha. A outra mão permanece na minha nuca, firme, me guiando — não para me controlar, mas como se estivesse cuidando para que eu não desmoronasse.
A respiração dela se mistura com a minha, quente, irregular, urgente de maneira contida.
É quase melhor que o próprio beijo.
Minha mão sobe pelo peito dela, sentindo o tecido da blusa e o calor que pulsa por baixo. Quando meus dedos tocam o pescoço dela, Verônica suspira entre meus lábios — um som grave, íntimo, que faz meu estômago virar um incêndio.
O beijo aprofunda.
A língua dela encontra a minha devagar, como se me explorasse, e meu corpo inteiro reage. Meus dedos se fecham no casaco dela, puxando-a mais perto, sem pensar. Só sentir.
Verônica sorri no meio do beijo — um sorriso curto, perigoso, satisfeito.
— Assim, Clara… — ela murmura contra minha boca, a voz rouca demais para eu aguentar. — Desse jeito mesmo.
Eu quase respondo, mas ela volta a me beijar, agora com mais firmeza, mais fome. O corpo dela pressiona o meu contra o carro com uma delicadeza que não esconde nada da força que ela tem. É como se ela estivesse segurando o mundo inteiro com a ponta dos dedos… e o mundo fosse eu.
O beijo fica tão profundo que quase dói parar para respirar.
E quando eu finalmente puxo o ar, ela encosta a boca no meu queixo, depois no meu pescoço, deixando beijos lentos, úmidos, quentes o suficiente para me fazer estremecer.
— Verônica… — digo num fio de voz que não parece meu.
Ela ergue o rosto, encontra meus olhos e sorri com aquele olhar que me desmonta inteira.
— Eu tô aqui, Clara.
Os dedos dela acariciam minha bochecha.
— E você não faz ideia do quanto eu queria isso.
E eu sei que é verdade.
Porque meu corpo inteiro ainda treme, e o dela também.
O acaso a meu favor - Página 75
Continuação — por Clara…
No instante em que Verônica começa a me guiar para o carro, algo dentro de mim… trava.
Não é rejeição. Não é arrependimento.
É outra coisa — algo mais profundo, mais íntimo, mais novo do que tudo que já senti.
Meu corpo inteiro acende com o toque dela, com o jeito que suas mãos firmes seguram minha cintura, com a língua dominando o beijo como se soubesse exatamente o que eu sempre quis. E isso… isso é o que me deixa sem chão.
A vontade é tão grande que assusta.
Então, no meio desse calor todo, meu corpo instintivamente desacelera. Não puxo ela para longe — apenas diminuo a intensidade, diminuo o ritmo, como se meu corpo pedisse um segundo para entender o que está acontecendo.
O beijo amolece, perde um pouco da urgência, e se torna mais lento… mais respirar do que tocar.
E ela percebe.
Verônica sempre percebe.
Meus lábios vão soltando os dela devagar, como se ainda quisessem ficar ali. A ponta da minha testa encosta na dela, e eu respiro fundo, ofegante, tentando puxar o ar que ela roubou de mim.
Ela também respira pesado, como se estivesse lutando contra o próprio impulso.
Nossas bocas ficam ali, quase encostadas, sem se beijar — e esse “quase” lateja mais do que o beijo.
Fecho os olhos por um instante, sentindo o gosto dela ainda na minha boca, sentindo minhas próprias pernas tremerem. Meu coração bate tão rápido que tenho certeza de que ela sente contra o corpo dela.
Abro os olhos e encontro o olhar dela: quente, preocupado, atento, como se estivesse pronta para voltar um passo se eu quisesse… ou para avançar todos, se eu pedisse.
E com a voz ainda embargada, baixa demais para qualquer pessoa além dela ouvir, eu digo:
— Espera… — minhas mãos sobem para o peito dela, não empurrando, só… segurando. — Eu só… — respiro fundo, tentando me organizar. — Eu nunca… senti isso assim antes.
Vejo o rosto dela suavizar, vejo aquela força que ela tem derreter só um pouco, virando um cuidado que deixa meu estômago ainda mais quente.
Ela passa o polegar devagar na minha bochecha, num toque tão leve que me dá vontade de chorar e rir ao mesmo tempo.
— Tá tudo bem, Clara… — ela sussurra, perto demais da minha boca. — A gente vai no seu tempo.
Meu corpo relaxa um pouco com isso.
A tensão muda — não diminui — só muda de lugar.
Fica mais doce, mais íntima, mais nossa.
E nesse espaço entre uma respiração e outra, ainda colada nela, ainda com os lábios formigando, percebo que não é o carro que me preocupa.
É o fato de que, pela primeira vez, eu quero demais tudo que vem depois.
Ainda com minha testa encostada na dela, tentando recuperar o fôlego que ela arrancou de mim, sinto os dedos de Verônica deslizarem até a minha nuca num carinho lento. Quase me desfaz.
— Clara… — ela me chama tão baixinho que parece que meu nome foi feito só pra sair da boca dela.
Engulo seco.
— Eu… — Tento falar, mas a respiração ainda tropeça. — Eu só fiquei surpresa. Não é que eu não queira.
Verônica arqueia um dos cantos da boca, quase sorrindo, como se estivesse aliviada e perigosa ao mesmo tempo.
— Eu sei que você quer. — Ela diz sem arrogância — só com aquela certeza que me desmonta. — Eu senti.
Sinto meu rosto esquentar mais do que a noite fria permite.
— Verônica… — Tento reclamar, mas minha voz sai rindo e tremida.
Ela aproxima a boca da minha, a um sopro de distância.
Nem beija.
Só fica ali, me provocando com o ar que divide comigo.
— Quer que eu pare de sentir? — Ela pergunta, com aquele tom grave que me dá arrepios na espinha.
— Não… — respondo tão rápido que ela ri contra minha boca.
— Então me deixa te ouvir. — A mão dela aperta levemente minha cintura. — Te deixa sentir também.
Meu coração ameaça explodir.
— Eu senti mesmo… — admito, baixinho. — Senti tudo. E acho que ainda tô sentindo.
Ela finalmente encosta a testa na minha, os olhos fechados, como se respirasse alívio.
— Clara, eu tô tentando ir devagar — ela confessa. — Mas quando você me beija desse jeito… — A voz dela falha só um pouco. — Fica difícil lembrar onde te tocar primeiro.
Sinto meu corpo perder o chão.
— Falar assim não ajuda — digo, tentando disfarçar o tremor na minha voz.
Ela sorri contra meu queixo e sobe a mão para a linha do meu maxilar, tão devagar que me dá vontade de fechar os olhos.
— Não tô aqui pra ajudar — ela murmura. — Tô aqui porque você me deixa… completamente fora de controle.
Eu rio, sem força nenhuma para fingir que isso não me abala.
— E eu? — pergunto, quase sem ar. — Tô parecendo o quê pra você?
Verônica me olha como se estivesse vendo algo sagrado e proibido ao mesmo tempo.
— Você parece alguém que eu esperei mais tempo do que admito.
Ela desce o polegar pela minha boca.
— E parece alguém que eu quero beijar outra vez. Muito devagar.
Meu corpo inteiro responde antes da minha boca.
Encosto de leve meus lábios nos dela, num toque suave, quase um agradecimento.
— Então beija… — sussurro. — Mas assim. Desse jeito.
Verônica segura meu rosto com as duas mãos, como se eu fosse algo delicado — ou perigoso — e aproxima a boca da minha com uma paciência que me enlouquece.
— Como você quiser, Clara. — Ela murmura… e finalmente me beija de novo.
Não rápido.
Não urgente.
Mas profundamente, como se estivesse aprendendo o caminho da minha boca pela primeira vez, outra vez.
E eu deixo.
Deixo porque quero.
Porque desejo.
Porque, naquele momento, não existe mais nada além dela.
O acaso a meu favor - Página 91
Por Clara III: Ao sair do mercado do Valentino, solto o ar que nem percebi que estava prendendo. Vem um alívio. Mas junto dele, um sorriso t...
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Pagina 02 – Capitulo 01. Hoje estou mais cansada do que imaginei que estaria ao longo da semana. Era folga da Juliana. A Thaís ainda est...
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Pagina 03 – Capitulo 01. Ao acordar na manhã seguinte, abri os olhos com um suspiro determinado, como de costume. Tomei um banho gelad...
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Pagina 01 – Capitulo 01. Por Verônica.... E aqui estou, praticamente do outro lado do país onde nasci, com um casaco nas mãos e uma mala, ...