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domingo, 22 de fevereiro de 2026
O acaso a meu favor - Página 85
O acaso a meu favor - Página 84
Por Clara…
Ao tentar presumir o que Verônica queria fazer, não sei se entro em pânico ou em êxtase. Quando a vejo olhar para o relógio de pulso, ouço o barulho da porta se abrindo. Um meio sorriso travesso me escapa antes mesmo de eu perceber, e quando ela me dá as costas, entendo exatamente o que devo fazer. Não penso duas vezes antes de segui-la.
Enquanto caminho atrás dela, não consigo evitar analisá-la. A saia lápis desenha o corpo de um jeito que parece calculado, firme, seguro. A blusa social vermelha — um marsala elegante — contrasta com a postura confiante que ela carrega sem esforço algum. Verônica anda como quem sabe exatamente quem é. E isso me desarma.
Ela abre a porta lateral do mercado, olha rapidamente para os lados antes de entrar. Meu coração acelera com o simples gesto. Tudo ali parece clandestino demais para uma manhã comum.
Assim que entro, ela fecha a porta atrás de nós com cuidado excessivo. O silêncio do lugar vazio nos envolve. O mercado ainda dorme, mas meu corpo está completamente acordado.
— "A gente tem alguns minutos" — ela dizia, em tom baixo, quase sério demais para quem claramente está sentindo o mesmo que eu.
Cruzo os braços, tentando fingir normalidade.
— Você sempre irá fazer isso? — provoco. — Me sequestra cedo, me trazer para lugares vazios…
Ela ri de canto, aquele riso que não mostra tudo, mas promete.
— Só quando vale a pena.
Nos encaramos por tempo demais. O espaço entre nós diminui sem que nenhum passo seja dado. Sinto o cheiro dela de novo, aquele mesmo da noite passada, e meu estômago reage imediatamente.
— Verônica… — começo, sem saber exatamente o que dizer.
Ela inclina levemente a cabeça, atenta, como se cada palavra minha importasse mais do que deveria.
— Clara — responde, usando meu nome como se fosse algo delicado.
E ali, naquele mercado ainda fechado, com o medo de alguém chegar a qualquer segundo, percebo que não é só desejo.
É vontade de ficar.
Mesmo quando não é o lugar.
Mesmo quando não é a hora.
Verônica dá um passo à frente, finalmente rompendo o espaço invisível que nos separava. O ar parece mais denso quando ela se aproxima, como se o mundo lá fora tivesse sido suspenso só para aquele instante.
Sinto os dedos dela tocarem minha cintura com cautela primeiro, quase pedindo permissão. Mas o toque esquenta rápido, firme, decidido. Meu corpo responde antes que minha mente consiga formular qualquer argumento sensato. Seguro o tecido da blusa dela entre os dedos, sentindo a textura macia sob minhas mãos, a temperatura da pele que aquece por baixo.
Ela me olha como se estivesse confirmando algo que já sabia.
E então me beija.
Não é um beijo apressado. É um beijo que carrega um peso doce, um gosto de reencontro. Os lábios dela demoram nos meus como se estivessem reaprendendo o caminho. Há cheiro de perfume misturado ao café que provavelmente tomou antes de sair de casa. Há cheiro de saudade — aquele impossível de explicar, mas que eu reconheceria em qualquer lugar.
Ela desliza uma das mãos para minha nuca, os dedos se entrelaçando no meu cabelo com delicadeza possessiva. Meu coração dispara de um jeito quase irritante. Eu me aproximo mais, pressionando nossos corpos, sentindo a firmeza dela, a segurança que me envolve inteira.
Quando o beijo se aprofunda, solto um suspiro contra a boca dela. Verônica responde com um som baixo, quase um murmúrio satisfeito, como se estivesse esperando por aquilo desde sempre — ou, pelo menos, desde a última vez que estivemos assim.
Ela se afasta por um segundo, só o suficiente para encostar a testa na minha. Nossos narizes se tocam de leve. Os olhos dela estão mais escuros.
— Eu estava com saudade — ela admite, a voz rouca, sincera demais para alguém tão controlada.
Eu arqueio uma sobrancelha, fingindo indignação enquanto ainda tento recuperar o fôlego.
— Não acredito que estava com tantas saudades, nos vimos a poucas horas.
Ela ri baixinho, aquele riso que vibra no peito e passa direto para o meu. Os dedos dela apertam levemente minha cintura, como se estivesse me punindo pela provocação.
— Algumas horas são demais — responde, roçando o polegar na minha pele, desenhando círculos lentos que me fazem arrepiar. — Principalmente depois de ontem.
Sinto meu rosto esquentar, mas não recuo. Pelo contrário, puxo-a de volta pela gola da blusa, selando nossos lábios outra vez, dessa vez com menos paciência e mais verdade.
O beijo ganha intensidade, mas ainda carrega cuidado. Há pressa no toque, mas não há desespero. Só vontade. Vontade de ficar ali, mesmo com o risco, mesmo com o relógio correndo contra nós.
Quando finalmente nos afastamos, o silêncio do mercado parece diferente. Não é mais vazio. Está carregado de respirações descompassadas e olhares que dizem mais do que qualquer declaração poderia dizer.
Verônica encosta a testa na minha de novo, fechando os olhos por um instante.
E eu percebo que, se dependesse de mim, o mercado poderia abrir, o mundo poderia bater à porta.
Eu ainda escolheria ficar exatamente ali. Com ela.
O acaso a meu favor - Página 83
Por Verônica…
Ao reconhecer aquela silhueta andando com uma serenidade quase insolente, como se não devesse nada a ninguém, meu sorriso surge antes mesmo que eu tenha tempo de pensar sobre isso. E o pior: eu paro a caminhonete. Definitivamente, estou ficando louca.
Observando suas expressões, quase consigo ler o que se passa na cabeça dela. A dúvida, o cálculo rápido, a tentativa de manter o controle. Então falo antes que ela desista:
— Vem… acredito que ninguém esteja nos esperando a essa hora. — digo em tom leve, quase brincando, só para tranquilizá-la.
E quando ela sorri de volta, sei que parar foi a melhor loucura que cometi naquela manhã.
Ela entra no meu carro e ocupa exatamente o mesmo lugar de ontem, e isso já é o suficiente para me deixar inquieta. Como se aquele banco tivesse memória. Como se o corpo dela ali ainda carregasse tudo o que ficou suspenso na noite passada.
Como faltavam apenas algumas quadras até o mercado, não houve tempo para uma saudação à altura do que ela merece. Não um beijo, não um toque, nem sequer uma palavra certa. Apenas a levei comigo até o nosso destino, guardando tudo o que eu gostaria de ter feito para depois.
Ao parar em frente ao mercado, olho para ela — e, como se fosse combinado, a encontro me olhando de volta. Confiro o relógio de pulso. Ainda nos restam alguns minutos.
Desligo o motor, mas não desço. Nem ela. O mercado ainda está fechado, escuro por dentro, e o silêncio da rua parece maior do que deveria. Olho de novo para o relógio. Ainda temos tempo. Pouco… mas temos.
É estranho como vinte minutos podem parecer eternos e insuficientes ao mesmo tempo.
Sinto uma euforia quieta crescer dentro de mim — aquela que não dá vontade de rir alto, mas de segurar, de proteger. A lembrança da noite passada volta inteira: o beijo lento, o quase, o toque contido, a respiração compartilhada. Tudo isso ainda está aqui, pairando dentro do carro como um segredo quente.
Mas, ao mesmo tempo, qualquer barulho me deixa alerta.
Um carro passando mais devagar.
Um passo distante.
Qualquer movimento na esquina.
Meu corpo reage num misto de ansiedade e prazer. Quero esse momento só nosso, mas sei que ele é frágil. Que basta alguém chegar cedo demais para quebrar o encanto.
Olho para Clara de novo. Ela está quieta, mas não distante. Há algo no jeito como ela segura a alça da mochila, como cruza as pernas, como evita me encarar por tempo demais. É o mesmo nervosismo bom que eu sinto.
— Ainda é cedo. — digo, mais para mim do que para ela.
Ela sorri de canto, como quem entende tudo sem precisar de explicação.
E nesse sorriso, percebo que não importa se alguém chegar daqui a cinco ou a vinte minutos. Nada apaga o que vivemos. Nada desfaz o que já aconteceu entre nós.
O medo está ali, sim.
Mas a euforia…
A euforia é maior.
Porque, mesmo com o coração acelerado e os olhos atentos à rua, eu sei:
algumas coisas, quando acontecem, acontecem para sempre.
Desço do carro depressa, como se minha vida dependesse disso. Dou a volta quase correndo e abro a porta dela, tudo sob o olhar atento de Clara.
Ela desce rápido também, mas não deixa de me lançar um olhar cheio de perguntas — uma grande interrogação silenciosa estampada no rosto. É nesse instante que abro um sorriso para ela. Um sorriso cúmplice.
Como se estivéssemos fazendo algo proibido. Parada diante dela, sinto o peso de tudo o que sou e de tudo o que quero ser entrar em conflito. A Verônica responsável sabe que isso é arriscado. Que alguém pode chegar a qualquer momento. Que não é hora nem lugar.
Mas a outra…
A outra está eufórica.
Porque Clara está ali, diante de mim, com aquele olhar curioso e cúmplice, como se confiasse em mim sem perceber o quanto isso me desmonta.
Quero afastá-la. Quero protegê-la.
E, ao mesmo tempo, quero ficar exatamente onde estou.
Dou um passo para trás, só o suficiente para parecer racional, mas não o bastante para quebrar o clima.
— A gente tem pouco tempo. — digo, tentando soar firme.
Ela inclina a cabeça, me analisando, como se soubesse que minhas palavras não combinam com meus olhos.
E ela está certa.
Porque, mesmo com o medo de alguém chegar, tudo em mim vibra com a certeza de que…
valeu a pena cada segundo da noite passada.
E, de alguma forma, estivéssemos gostando exatamente disso.
O acaso a meu favor - Página 82
Por Clara…
Me organizo melhor por dentro. Talvez por ter acordado cedo demais para sentir, talvez por finalmente estar aprendendo a não fugir do que me atravessa. O bem-estar que sinto ao pensar em Verônica me assusta de verdade. Não o suficiente para estragar meu humor — mas o bastante para me obrigar a olhar para mim com mais honestidade do que estou acostumada.
Hoje percebo que amadureci. Não de um jeito dramático ou anunciado, mas daquele jeito silencioso que muda tudo sem pedir permissão. Se eu fosse a Clara de alguns meses atrás, estaria agora me culpando por cada sensação, cada pensamento, cada desejo. Estaria tentando me convencer de que estou errada por sentir o que sinto.
Como se estivesse ocupando um lugar que prometi a mim mesma pertencer apenas a alguém específico.
Alguém que, ironicamente, neste exato momento talvez nem esteja se perguntando se esse lugar ainda existe — muito menos se alguém o ocupa.
E essa constatação dói.
Mas também liberta.
Porque, pela primeira vez, entendo que sentir não é traição. É presença. É vida acontecendo apesar das promessas que fiz quando ainda não sabia quem eu estava me tornando.
Penso em Verônica — no jeito firme, no cuidado silencioso, na forma como ela me olha como se me enxergasse inteira, sem me pedir nada além de verdade. E percebo que não estou roubando espaço de ninguém.
Estou apenas criando o meu.
E talvez seja isso que mais me assuste:
não o que estou sentindo por ela,
mas o fato de que, agora, eu não quero mais fingir que não sinto.
Beijo no Bento de despedida de lei, mochila nas costas e um humor que, acredito eu, ninguém rouba de mim. Eu acho.
A poucas quadras de chegar ao mercado, ouço o barulho de uma caminhonete logo atrás de mim. Nem preciso me virar para confirmar — o sorriso surge antes, convencido, automático. Então ela buzina duas vezes.
Viro na mesma hora.
Reconheço a peça. Reconheço ela.
Verônica me olha pela janela e, pela primeira vez desde que a conheço, me entrega o sorriso mais bonito que já vi. Aberto, tranquilo, verdadeiro. E só de imaginar que aquele sorriso exista por causa da noite passada — pelo beijo, pelo que não foi dito, pelo simples fato de estar me vendo ali — minha cabeça entra em curto.
É informação demais.
Sentimento demais.
Tudo ao mesmo tempo.
E enquanto fico parada, com a mochila pesando menos do que deveria e o coração pesando mais do que eu planejei, percebo uma coisa com clareza quase assustadora:
Tem coisas que mudam a gente sem fazer barulho nenhum.
E aquele sorriso…
definitivamente foi uma delas.
Ao encostar na rua, apoio os braços na janela da caminhonete e digo, simples:
— Oi.
Ela continua me olhando como se eu fosse algo raro, quase precioso, antes de responder:
— Oi. Entra, eu te dou carona.
Penso por alguns segundos antes de aceitar. Ainda eram apenas 6h37. Impossível já ter alguém no mercado — concluo, quase rindo do meu próprio pensamento.
O acaso a meu favor - Página 81
O acaso a meu favor - Página 80
O acaso a meu favor - Página 79
O acaso a meu favor - Página 78
O acaso a meu favor - Página 77
Por Verônica...
Quando Clara diminui o ritmo do beijo, sinto na hora.
Não é rejeição.
É… delicadeza.
É o corpo dela tentando acompanhar o que está acontecendo — e o meu tentando não ultrapassar nenhum limite.
Eu afrouxo o toque na mesma hora. Tento puxar o ar que ela tirou de mim enquanto ainda mantenho minhas mãos no rosto dela, sem pressionar. Só segurando. Só estando ali.
Os olhos dela, quando se abrem, vêm carregados de algo que me desarma: não medo, não dúvida… mas um tipo de vulnerabilidade que me faz querer cuidar dela mais do que qualquer outra coisa.
— Ei… — digo baixo, aproximando meu rosto do dela sem voltar ao beijo. — Respira comigo.
Ela faz isso. Devagar. Quente. Tremendo.
Meu polegar passa na bochecha dela sozinho, como se minhas mãos tivessem mente própria.
O que me desespera é que ela não recua.
Pelo contrário — ela se inclina um pouco, buscando meu toque.
Meu corpo inteiro responde, mas me obrigo a ficar firme.
— Se for demais, me fala — digo, não como aviso, mas como promessa.
Ela fecha os olhos por um instante, e quando abre… eu juro que vejo um brilho novo ali. Algo que não tinha antes. Algo que me puxa.
— Não me tira de perto de você agora — ela murmura. Não é um pedido. É quase um sussurro arfado.
A respiração me falha.
Aproximei a boca dela sem encostar, sentindo a respiração quente dela roçar na minha.
— Eu não conseguiria nem se tentasse.
Desço uma das mãos para a cintura dela, segurando com firmeza, mas com um cuidado que nunca tive com ninguém. Ela corresponde, apoiando as mãos no meu peito, e mesmo esse toque leve me faz perder o chão.
Clara ergue o rosto um pouco, como se estivesse me estudando — como se quisesse ver o que está acontecendo comigo. E ela vê.
Ela vê tudo.
— Você tá… diferente — ela diz com um riso fraco, quase sem ar.
Eu sorrio de canto, mas é um sorriso quebrado, tão sincero que chega a doer.
— A culpa é sua.
Minha voz sai rouca, mais honesta do que eu pretendia.
— Eu não fico assim com ninguém.
Vejo o impacto dessas palavras nela — não medo, mas surpresa.
Boa surpresa.
Surpresa quente.
A mão dela escorrega do meu peito para o meu pescoço, lenta.
E isso…
Isso me destrói.
Aproximo minha boca do canto da dela, sem beijar, apenas tocando de leve a pele sensível ali. Ela prende a respiração. Os dedos dela apertam meu pescoço sem força, mas com vontade.
— Se soubesse o que você faz comigo… — murmuro contra o canto da boca dela, sentindo o corpo dela tremer. — Acho que teria me beijado antes.
Ela solta um riso abafado, nervoso, delicioso.
Eu seguro seu rosto pelas laterais, aproximando-a devagar, como se estivesse puxando o mundo inteiro para os meus braços.
— Posso te beijar de novo? — pergunto dessa vez, a voz baixa, quente, pedindo e ao mesmo tempo não pedindo nada.
Ela não responde com palavras.
Ela inclina o queixo.
Encosta a ponta dos lábios nos meus.
E suspira.
Esse é o “sim”.
E quando eu finalmente a beijo outra vez — devagar, profundo, com toda a calma que não tenho — sinto Clara derreter nas minhas mãos.
E eu também.
Porque agora não tem mais recuo.
Só avanço.
Dela.
E meu.
O acaso a meu favor - Página 76
Continuação por Clara...
O beijo que Verônica me dá é lento no começo — lento o suficiente para me deixar completamente à mercê dela.
Os lábios dela roçam nos meus quase sem tocar, como se estivessem me pedindo permissão que já têm, e só depois ela encaixa a boca na minha de um jeito que faz minhas pernas ameaçarem ceder. O ritmo é suave, mas carregado de intenção, como se ela quisesse me memorizar detalhe por detalhe.
Uma das mãos dela acompanha a curva da minha cintura, subindo pelas minhas costas num toque quente demais pra essa noite que está tão fria. Sinto cada dedo, cada linha da palma, cada centímetro da pele dela queimando a minha. A outra mão permanece na minha nuca, firme, me guiando — não para me controlar, mas como se estivesse cuidando para que eu não desmoronasse.
A respiração dela se mistura com a minha, quente, irregular, urgente de maneira contida.
É quase melhor que o próprio beijo.
Minha mão sobe pelo peito dela, sentindo o tecido da blusa e o calor que pulsa por baixo. Quando meus dedos tocam o pescoço dela, Verônica suspira entre meus lábios — um som grave, íntimo, que faz meu estômago virar um incêndio.
O beijo aprofunda.
A língua dela encontra a minha devagar, como se me explorasse, e meu corpo inteiro reage. Meus dedos se fecham no casaco dela, puxando-a mais perto, sem pensar. Só sentir.
Verônica sorri no meio do beijo — um sorriso curto, perigoso, satisfeito.
— Assim, Clara… — ela murmura contra minha boca, a voz rouca demais para eu aguentar. — Desse jeito mesmo.
Eu quase respondo, mas ela volta a me beijar, agora com mais firmeza, mais fome. O corpo dela pressiona o meu contra o carro com uma delicadeza que não esconde nada da força que ela tem. É como se ela estivesse segurando o mundo inteiro com a ponta dos dedos… e o mundo fosse eu.
O beijo fica tão profundo que quase dói parar para respirar.
E quando eu finalmente puxo o ar, ela encosta a boca no meu queixo, depois no meu pescoço, deixando beijos lentos, úmidos, quentes o suficiente para me fazer estremecer.
— Verônica… — digo num fio de voz que não parece meu.
Ela ergue o rosto, encontra meus olhos e sorri com aquele olhar que me desmonta inteira.
— Eu tô aqui, Clara.
Os dedos dela acariciam minha bochecha.
— E você não faz ideia do quanto eu queria isso.
E eu sei que é verdade.
Porque meu corpo inteiro ainda treme, e o dela também.
O acaso a meu favor - Página 75
Continuação — por Clara…
No instante em que Verônica começa a me guiar para o carro, algo dentro de mim… trava.
Não é rejeição. Não é arrependimento.
É outra coisa — algo mais profundo, mais íntimo, mais novo do que tudo que já senti.
Meu corpo inteiro acende com o toque dela, com o jeito que suas mãos firmes seguram minha cintura, com a língua dominando o beijo como se soubesse exatamente o que eu sempre quis. E isso… isso é o que me deixa sem chão.
A vontade é tão grande que assusta.
Então, no meio desse calor todo, meu corpo instintivamente desacelera. Não puxo ela para longe — apenas diminuo a intensidade, diminuo o ritmo, como se meu corpo pedisse um segundo para entender o que está acontecendo.
O beijo amolece, perde um pouco da urgência, e se torna mais lento… mais respirar do que tocar.
E ela percebe.
Verônica sempre percebe.
Meus lábios vão soltando os dela devagar, como se ainda quisessem ficar ali. A ponta da minha testa encosta na dela, e eu respiro fundo, ofegante, tentando puxar o ar que ela roubou de mim.
Ela também respira pesado, como se estivesse lutando contra o próprio impulso.
Nossas bocas ficam ali, quase encostadas, sem se beijar — e esse “quase” lateja mais do que o beijo.
Fecho os olhos por um instante, sentindo o gosto dela ainda na minha boca, sentindo minhas próprias pernas tremerem. Meu coração bate tão rápido que tenho certeza de que ela sente contra o corpo dela.
Abro os olhos e encontro o olhar dela: quente, preocupado, atento, como se estivesse pronta para voltar um passo se eu quisesse… ou para avançar todos, se eu pedisse.
E com a voz ainda embargada, baixa demais para qualquer pessoa além dela ouvir, eu digo:
— Espera… — minhas mãos sobem para o peito dela, não empurrando, só… segurando. — Eu só… — respiro fundo, tentando me organizar. — Eu nunca… senti isso assim antes.
Vejo o rosto dela suavizar, vejo aquela força que ela tem derreter só um pouco, virando um cuidado que deixa meu estômago ainda mais quente.
Ela passa o polegar devagar na minha bochecha, num toque tão leve que me dá vontade de chorar e rir ao mesmo tempo.
— Tá tudo bem, Clara… — ela sussurra, perto demais da minha boca. — A gente vai no seu tempo.
Meu corpo relaxa um pouco com isso.
A tensão muda — não diminui — só muda de lugar.
Fica mais doce, mais íntima, mais nossa.
E nesse espaço entre uma respiração e outra, ainda colada nela, ainda com os lábios formigando, percebo que não é o carro que me preocupa.
É o fato de que, pela primeira vez, eu quero demais tudo que vem depois.
Ainda com minha testa encostada na dela, tentando recuperar o fôlego que ela arrancou de mim, sinto os dedos de Verônica deslizarem até a minha nuca num carinho lento. Quase me desfaz.
— Clara… — ela me chama tão baixinho que parece que meu nome foi feito só pra sair da boca dela.
Engulo seco.
— Eu… — Tento falar, mas a respiração ainda tropeça. — Eu só fiquei surpresa. Não é que eu não queira.
Verônica arqueia um dos cantos da boca, quase sorrindo, como se estivesse aliviada e perigosa ao mesmo tempo.
— Eu sei que você quer. — Ela diz sem arrogância — só com aquela certeza que me desmonta. — Eu senti.
Sinto meu rosto esquentar mais do que a noite fria permite.
— Verônica… — Tento reclamar, mas minha voz sai rindo e tremida.
Ela aproxima a boca da minha, a um sopro de distância.
Nem beija.
Só fica ali, me provocando com o ar que divide comigo.
— Quer que eu pare de sentir? — Ela pergunta, com aquele tom grave que me dá arrepios na espinha.
— Não… — respondo tão rápido que ela ri contra minha boca.
— Então me deixa te ouvir. — A mão dela aperta levemente minha cintura. — Te deixa sentir também.
Meu coração ameaça explodir.
— Eu senti mesmo… — admito, baixinho. — Senti tudo. E acho que ainda tô sentindo.
Ela finalmente encosta a testa na minha, os olhos fechados, como se respirasse alívio.
— Clara, eu tô tentando ir devagar — ela confessa. — Mas quando você me beija desse jeito… — A voz dela falha só um pouco. — Fica difícil lembrar onde te tocar primeiro.
Sinto meu corpo perder o chão.
— Falar assim não ajuda — digo, tentando disfarçar o tremor na minha voz.
Ela sorri contra meu queixo e sobe a mão para a linha do meu maxilar, tão devagar que me dá vontade de fechar os olhos.
— Não tô aqui pra ajudar — ela murmura. — Tô aqui porque você me deixa… completamente fora de controle.
Eu rio, sem força nenhuma para fingir que isso não me abala.
— E eu? — pergunto, quase sem ar. — Tô parecendo o quê pra você?
Verônica me olha como se estivesse vendo algo sagrado e proibido ao mesmo tempo.
— Você parece alguém que eu esperei mais tempo do que admito.
Ela desce o polegar pela minha boca.
— E parece alguém que eu quero beijar outra vez. Muito devagar.
Meu corpo inteiro responde antes da minha boca.
Encosto de leve meus lábios nos dela, num toque suave, quase um agradecimento.
— Então beija… — sussurro. — Mas assim. Desse jeito.
Verônica segura meu rosto com as duas mãos, como se eu fosse algo delicado — ou perigoso — e aproxima a boca da minha com uma paciência que me enlouquece.
— Como você quiser, Clara. — Ela murmura… e finalmente me beija de novo.
Não rápido.
Não urgente.
Mas profundamente, como se estivesse aprendendo o caminho da minha boca pela primeira vez, outra vez.
E eu deixo.
Deixo porque quero.
Porque desejo.
Porque, naquele momento, não existe mais nada além dela.
sexta-feira, 28 de novembro de 2025
O acaso a meu favor - Página 74
Continuação — O beijo… por Verônica
O “quase” entre nossas bocas dura longos segundos — segundos que esticam o mundo, que dilatam o ar ao nosso redor, que fazem meu peito doer de tanta vontade contida.
Clara respira bem perto, tão perto que sinto o calor do seu exalar tocar minha boca antes que ela toque de fato. E esse simples detalhe… esse pequeno roçar de ar quente… já desmonta toda a minha postura.
Minha mão aperta a cintura dela, puxando-a milímetros a mais.
Ela reage arqueando o corpo contra o meu — suave, involuntário, urgente.
E então, muito devagar, encosto minha boca na dela.
Não é um beijo imediato.
É primeiro um toque leve, quase um teste.
Um deslizar de lábios sobre lábios, tão sutil que mais parece um suspiro partilhado do que um toque real.
Mas Clara…
Clara responde como se estivesse esperando exatamente aquilo.
A respiração dela falha, e ela tenta seguir minha boca — mas eu não deixo. Ainda não. Me afasto só um fio de distância, o suficiente para sentir o corpo dela reclamar desse vazio.
Ela solta um som baixo, quase um gemido contido, e segura meu rosto com as duas mãos, como se tivesse medo que eu fugisse.
— Verônica… — ela repete, só que agora é mais grave, mais carregado de tudo o que ela segurou até aqui.
Essa forma de dizer meu nome me quebra.
Meu controle vai embora.
Volto a encostar minha boca na dela, dessa vez com mais certeza, mais fome.
Ainda devagar — mas não mais tímido.
Os lábios dela são quentes, macios, e ela me beija como alguém que precisava disso para respirar. A mão dela sobe pela minha nuca, os dedos entrelaçando-se no meu cabelo, puxando leve, guiando. Sinto uma onda quente subir pela minha coluna inteira.
Minhas duas mãos sobem lentamente pela lateral do seu corpo, os dedos explorando cada centímetro, sentindo o arrepio acender sob minha pele.
Cada toque parece acender outro nela.
E cada arrepio dela acende algo em mim.
O beijo aprofunda um pouco quando ela abre a boca devagar, como um convite silencioso — e eu o aceito. Nossas respirações se misturam num ritmo confuso, urgente e suave ao mesmo tempo, como se estivéssemos descobrindo o outro pela primeira vez.
Sinto o coração dela bater rápido contra meu peito.
Sinto a mão dela tremer um pouco na minha nuca.
Sinto que ela está entregue — não só ao beijo, mas ao que ele significa.
Eu afasto a boca só um segundo, apenas para respirar ao lado da dela.
Minhas palavras saem baixas, arranhando o silêncio:
— Eu queria isso há tanto tempo…
Clara encosta a testa na minha, a respiração quente batendo nos meus lábios.
— Então não para — ela sussurra, com um sorriso que me destrói e me reconstrói na mesma hora.
E quando a beijo novamente, com mais profundidade e mais calma — é como se o mundo tivesse sido feito só para aquele momento.
Só para nós duas.
Só para esse beijo que finalmente aconteceu… e que promete tudo o que vem depois.
O acaso a meu favor - Página 73
Por Verônica… (continuação)
Ao ver aquele sinal — os olhos dela descendo para minha boca, a respiração presa — sinto meu corpo inteiro responder antes mesmo da minha razão. Aos poucos, deslizo minhas mãos pela lateral dos braços dela. E não só percebo… eu sinto.
O arrepio.
O tremor.
A entrega.
Quando olho para o rosto dela, encontro seus olhos fechados e um sorriso que, honestamente, me desmonta. Um sorriso de quem desejou esse momento tanto quanto eu — talvez até mais.
É o sorriso de quem finalmente chegou em casa.
Aproximo o rosto devagar e encosto na curva do pescoço dela. O toque é leve… mas o impacto é devastador. Naquele exato instante, sou arrancada do mundo como eu conhecia e jogada em outro, onde só existe ela.
E me pergunto:
Como vivi tanto tempo sem isso?
Quando “acordo” desse transe, percebo os braços dela ao redor dos meus ombros, me puxando para ainda mais perto. E aí eu entendo: ela está me deixando acessar tudo.
O pescoço.
A pele macia.
O cheiro quente que parece feito para me enlouquecer.
Por instinto — e por necessidade — a puxo com delicadeza, arrastando-a até que nossas costas encontrem a lataria do carro. Ela ri, uma risada solta, linda, encantadora.
E eu penso, com uma pontada quase dolorosa:
Pobre de quem nunca viu essa versão dela.
— Então… — começo, ainda com o rosto escondido no pescoço dela, quando a ouço perguntar, atrevida:
— O que achou do meu cheiro?
Se ela soubesse o estrago que essa pergunta faz…
Estou tão embriagada pelo perfume dela, tão tomada por tudo o que é Clara, que só consigo responder:
— Perfeito…
A palavra sai quase como um gemido, antes que minha boca substitua o cheiro por beijos. Beijos lentos, quentes, marcados pela vontade que eu passei tempo demais fingindo que não tinha.
Ela solta um suspiro abafado.
E esse som… Deus, esse som…
É como ganhar na loteria.
Como acender um fósforo dentro de um barril de pólvora.
Um sorriso surge nos meus lábios enquanto continuo beijando sua pele, e sinto algo novo, antigo, profundo despertar dentro de mim — um instinto que eu sempre mantive preso, mas que agora explode inteiro:
Eu a quero.
E dessa vez… eu não estou sozinha nisso.
...........................
Quando sinto o suspiro preso na garganta dela, algo dentro de mim simplesmente destrava. Como se aquele som fosse a chave de um cofre que eu nem sabia que existia. Minha boca ainda está encostada no seu pescoço quando percebo seus dedos apertando meus ombros, puxando-me um pouco mais, como se tivesse medo que eu fosse embora.
E eu não vou.
Não agora.
Não depois disso.
Minha mão sobe pelas costas dela, lenta, explorando, decorando cada curva por puro instinto. Sinto sua respiração falhar, sinto o corpo dela colar no meu, e pela primeira vez na noite inteira, é ela quem perde o controle.
— Verônica… — ela sussurra, e o jeito que meu nome soa na boca dela quase me faz fechar os olhos. É suave, preciso… um pedido e uma confissão ao mesmo tempo.
Eu rio baixinho contra sua pele, porque aquela resposta… aquele arrepio… aquela entrega… é tudo que eu queria desde que a vi pela primeira vez hoje.
Levo meu rosto para perto do dela, ainda sem beijá-la, apenas deixando nossas bocas dividirem o mesmo ar.
Quase encosto, quase toco — e não toco.
Quero que ela sinta. Quero que ela deseje. Quero que ela peça.
— Você não tem ideia do que faz comigo — digo, num murmúrio rouco, quase um segredo.
Clara abre os olhos devagar, como se estivesse tentando voltar de algum lugar onde só eu a levei. O sorriso dela agora é outro — não é mais doce, nem tímido. É um sorriso perigoso. Um sorriso que entende o poder que tem.
— Então mostra — ela provoca, num tom baixo, firme, que me faz prender o ar.
E é aí que meu corpo inteiro responde antes mesmo de eu pensar.
Minha mão vai à sua cintura, puxando-a para mim com uma precisão que revela o que eu escondi por tanto tempo.
Ela solta outro suspiro, ainda mais quente, e encosta a testa na minha.
O mundo parece inclinar um pouco.
— Cuidado com o que você pede — aviso, com um sorriso torto, sentindo a adrenalina correr solta. — Eu costumo entregar.
Os olhos dela brilham, e eu sei que perdi.
Ou ganhei.
Depende do ponto de vista.
E quando nossas bocas finalmente se tocam — não é um beijo inteiro. É quase. Só o suficiente para prometer algo maior.
Mas o “quase” é tão elétrico, tão absurdo, que meu corpo inteiro treme por dentro, e eu sei que depois disso… nada entre nós voltará a ser normal.
O acaso a meu favor - Página 72
Por Verônica…
Continuo dirigindo sem rumo, só ouvindo o som baixo do motor e a respiração tranquila dela ao meu lado. É estranho… Clara parece cada vez mais confortável perto de mim, como se o carro fosse um lugar seguro. Como se eu fosse. E isso me dá uma coragem que não sei controlar, um impulso que me puxa para mais perto dela do que eu deveria.
Até que me lembro de um lugar.
Um terreno afastado da cidade, no alto de uma estrada de terra. De lá, dá pra ver todas as luzes espalhadas, como se a cidade tivesse se deitado para dormir, mas decidido continuar brilhando só pra nós duas. Já levei algumas pessoas ali… mas nunca por esse motivo. Nunca com esse peso no peito.
Pego a estrada estreita e esburacada. Clara ergue as sobrancelhas.
— Onde você tá me levando, Verônica? — ela pergunta, com um riso nervoso que denuncia tudo.
Não a encaro de imediato — se ela me olha agora, percebe que estou tremendo. Que estou suando frio. Então estendo uma das mãos até sua perna e aperto de leve, tentando passar confiança quando na verdade estou à beira de perder o controle.
— Clara…
Estaciono o carro no ponto mais alto. A cidade se acende lá embaixo, respirando luz. Desligo o motor. O silêncio é tão intenso que parece nos envolver, empurrar nossos corpos um pouco mais próximos do que deveriam estar.
Clara olha pela janela, encantada.
— Nossa… é lindo.
Ao descermos do carro, ela admira o lugar como se estivesse vendo um segredo. E eu a observo. E percebo, sem espaço para dúvidas, que já me senti atraída por mulheres de todos os tipos — idades, estilos, temperamentos… tudo que faz uma mulher ser mulher.
Mas ela… essa menina me desmonta inteira com um sorriso.
Como esse agora, iluminado pela cidade lá embaixo.
Ela desvia o olhar, mordendo a boca para não sorrir demais. Esse gesto simples me rasga por dentro. Como se abrisse um espaço novo em mim, que só ela consegue tocar.
O ar frio passa entre nós, e Clara se aproxima sem perceber. É instintivo. Ou talvez… talvez seja eu.
Fico ao lado dela, observando a cidade, mas consciente demais do corpo dela a poucos centímetros do meu.
Ela abraça o próprio corpo e, ainda olhando as luzes, pergunta:
— Vê…
Segunda vez na noite que ela me chama assim. E, Deus… como esse apelido soa bonito vindo da boca dela.
— O que exatamente estamos fazendo aqui? — ela me olha com aquela confusão tão dela, aquele misto de inocência e intensidade que me faz perder o ar.
A pergunta dela faz a ansiedade que eu achei ter deixado no carro voltar com força. Ela me olha como se estivesse tentando me decifrar, e isso me desmonta.
Será que ela realmente não percebe?
Será que estou sozinha nisso?
Ela se coloca na minha frente — mais baixa, mais próxima — e eu encaro aqueles olhos castanhos que parecem querer me puxar inteira para dentro deles.
Sem pensar, uma das minhas mãos vai até seu rosto. Puxo uma mecha de cabelo para trás da orelha, mas minha mão não volta. Ela repousa no pescoço dela, quente, frágil, tão perto da pulsação acelerada.
E é aí que eu vejo.
Eu vejo.
Os olhos dela vacilam.
Depois descem.
Direto para a minha boca.
Meu coração dispara tão forte que sinto no meu próprio pescoço, no meu pulso, em todo lugar.
Nesse instante, eu entendo:
Ou eu falo agora o que sinto…
Ou finalmente cedo ao desejo que estou segurando desde o primeiro dia — e afogo tudo na boca dessa menina.
O acaso a meu favor - Página 91
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