domingo, 22 de fevereiro de 2026

O acaso a meu favor - Página 78

Por Clara…

Depois do primeiro beijo — e do segundo, e do terceiro — o frio e a fome resolvem se anunciar ao mesmo tempo em nós duas.
E, para minha surpresa, é ela quem se rende primeiro.

Dou risada do jeito quase contrariado com que admite estar com fome, como se aquilo fosse uma falha grave no personagem que insiste em sustentar.

— Com fome, não consigo te beijar mais vezes… não é mesmo? — diz, com aquele meio sorriso torto que sempre me desmonta.

Reviro os olhos, mas acabo rindo.
Sempre acabo rindo com ela.

E então a encaro com mais atenção. As luzes distantes da cidade desenham sombras suaves no rosto dela, deixando-a… diferente. Menos rígida. Mais próxima.
Não sei nomear o que vejo — nem de onde vem esse desejo silencioso que cresce entre nós. O que significa uma mulher como Verônica querer me beijar assim, sem pressa, sem armaduras?

Tudo é confuso.
Mas não é ruim.

Meu estômago esfria e ronca, cúmplice da fome e da ansiedade. Ela percebe antes mesmo que eu diga qualquer coisa e entrelaça os dedos aos meus, puxando-me com naturalidade para o carro — como se já soubéssemos exatamente onde pertencer.

Afastamos os bancos um pouco para trás, e Verônica simplesmente devora o lanche.
Sem cerimônia.
Sem cálculo.
Sem a elegância ensaiada que costuma usar como escudo.

Ela se suja — e eu fico ali, observando, entre admirada e levemente assustada, como se estivesse vendo um segredo que não foi feito para qualquer um.

— Que foi? — pergunta, notando meu olhar preso nela.

Ainda encarando, respondo, divertida:

— Deve estar muito bom… pelo jeito que você está comendo.

Ela se olha, percebe a sujeira tarde demais e, em vez de se constranger, pega um guardanapo e joga em mim.

— Ah, não… eu não acredito nisso! — reclamo, rindo. — Todo cheio da sua baba, e você ainda tem coragem de jogar em mim?

Ela ri.
Ri de verdade.

E aquele som é estranho… e bonito demais.
Como se não fosse usado há muito tempo.

É nesse instante que entendo: a Verônica séria, cercada de compromissos, muros altos e arames farpados, simplesmente não existe ali.

O que existe é só uma mulher — madura, cansada, surpreendentemente leve — se permitindo algo que claramente não fazia há anos.

E talvez seja isso que mais me desarme.

Porque gosto de vê-la assim.
Gosto mais do que deveria.

E, pela primeira vez, me pergunto se esse sorriso dela…
não é algo que eu vá querer provocar de novo.

Depois da cena da “bagunceira” ao meu lado, começo enfim a comer o meu lanche. E, apesar de um pouco frio, está realmente muito bom — o tipo de sabor que conforta mais do que impressiona.

Reconheço na hora de onde vêm os hambúrgueres e, quase sem pensar, comento de relance que o melhor dali é o que leva cebola caramelizada.
Por que eu disse isso?

É o suficiente para que essa bendita mulher praticamente faça propaganda do lanche que estamos comendo, afirmando — com uma convicção quase ofensiva — que aquele é o melhor de todos e que ninguém, em lugar nenhum, conseguiria reproduzi-lo.

Ela não aceita, de forma alguma, que eu prefira outro.

E a expressão de indignação no rosto dela é tão genuína, tão exagerada, que me arranca risadas só pelo fato de Verônica claramente não saber lidar com a ideia de estar errada.

— Por comida você mata e morre, né? — digo, com os olhos marejados de tanto rir.

Ainda um pouco emburrada, ela acaba rindo também — do meu estado, mais do que da piada. Vejo seus ombros relaxarem, o semblante suavizar, e aquele sorriso voltar devagar, como se tivesse sido chamado de volta.

— Porque eu sei que estou certa. — responde, limpando os dedos no guardanapo, cheia de si.

E só para provocar — porque agora já é tarde demais — comento:

— Mas o pão…

Ela me lança um olhar mortal.
Desses que prometem julgamento imediato.

— Não diga mais nada sobre o pão deles!

Aí eu perco completamente o controle. Rio a ponto de torcer o corpo, tentando puxar o ar de volta para os pulmões, até acabar jogando o corpo para trás no banco, só para conseguir respirar… e para ver melhor o rosto dela.

E ali, rindo de algo tão pequeno, tão banal, percebo:
não é só o lanche que está bom.
É o momento.
É ela.

E isso me assusta quase tanto quanto me faz querer ficar mais um pouco.

Demoro alguns segundos para me recompor da risada. Meu corpo ainda treme quando volto a me ajeitar no banco, puxando o ar como se tivesse acabado de correr. E é só então que percebo: Verônica está me olhando.

Não aquele olhar rápido, distraído.
É um olhar inteiro.

Ela não diz nada. Apenas me observa como se estivesse tentando memorizar aquele instante — meu riso solto, meus olhos ainda marejados, minha falta de controle. E isso me desconcerta mais do que qualquer toque.

— Você fica diferente quando ri. — ela diz, baixa, quase sem intenção.

Meu coração dá um salto estranho, fora de ritmo.

— Diferente como? — pergunto, tentando soar casual, mas falhando miseravelmente.

Ela inclina a cabeça de leve, pensativa. O silêncio dela nunca é vazio.

— Mais você.

E pronto.
É isso que me desmonta.

Não sei o que responder. Não sei se devo brincar, provocar, fugir. Então faço a única coisa possível: continuo ali, existindo, sentindo o peso bom daquela atenção.

Ela estende a mão, quase sem perceber, e limpa com o polegar um canto da minha boca — um gesto pequeno, íntimo demais para ser inocente, simples demais para ser fingido.

— Você se sujou. — diz, mas a voz sai suave. Nada de repreensão. Nada de controle.

Engulo em seco.

— Agora você também vai jogar o guardanapo em mim? — tento brincar.

Ela sorri de canto. Um sorriso lento. Perigoso.

— Não. — responde. — Isso seria desperdício.

E fica ali.
Perto demais.
Com a mão ainda suspensa entre nós, como se não tivesse decidido se deve avançar ou recuar.

O mundo lá fora parece distante. A estrada, o frio, o tempo — tudo fica pequeno diante daquele espaço mínimo que ela ocupa ao meu lado.

— Verônica… — chamo, sem saber exatamente o porquê.

Ela me encara. E, pela primeira vez desde que a conheço, não há cálculo nenhum no rosto dela. Só verdade.

— Você bagunçou tudo. — diz. — E ainda acha graça.

Sorrio devagar.

— Você que não está acostumada com bagunça.

Ela solta um riso baixo, quase rendido.

— Talvez eu esteja aprendendo.

E ali, com cheiro de hambúrguer frio, risadas soltas e olhares demorados, entendo que algumas coisas não começam com promessas ou grandes gestos.

Algumas começam assim:
num banco de carro,
com migalhas no colo,
e uma mulher que finalmente abaixou a guarda só para eu a ver sorrindo.

E eu sei — com uma certeza que assusta —
que nada dentro de mim vai voltar ao lugar depois disso.

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