domingo, 22 de fevereiro de 2026

O acaso a meu favor - Página 80

Por Verônica…

Depois de deixar Clara em segurança em casa, sigo para a minha com o coração estranhamente aquecido

 — ou talvez seja o estômago revirado. Não sei mais distinguir certos sentimentos na minha idade, nem quando foi que deixei de tentar.

Ao abrir a porta, encontro a casa viva. Uma movimentação discreta na cozinha chama minha atenção e, ao me aproximar, vejo Higor e Lia. Estão distraídos um no outro, rindo baixo, trocando carícias sem pressa, como quem aproveita o início da madrugada sem medo do tempo.

A cena é simples.
E, ainda assim, me atravessa.

Fico ali por alguns segundos, observando aquele afeto exposto, aquela intimidade sem defesas. Não há urgência, nem jogo de poder. Só presença.

E é então que ela me vem à mente.

Clara.

De forma inesperada. Inteira. Incômoda.

Pela primeira vez em muito tempo, não me vejo naquela cena como espectadora. Me vejo desejando ocupar aquele lugar.

E, pela primeira vez, sei exatamente quem seria a pessoa ao meu lado.

...........................................


O quarto me recebe em silêncio. Um silêncio que não acusa, mas observa. Deixo a bolsa sobre a poltrona, tiro os sapatos com o cuidado automático de quem passou a vida inteira mantendo tudo no lugar. Acendo apenas o abajur. A luz baixa me poupa de encarar o que ainda não sei nomear.

Sento na beira da cama.
E fico.

O corpo pede descanso, mas a mente se recusa. Há um calor estranho sob a pele, uma inquietação que não vem do cansaço, nem do peso do dia. Não é ansiedade. Não é medo. É algo mais antigo — algo que eu reconheço, embora finja não reconhecer.

Ela.

Fecho os olhos por um instante, e Clara surge sem pedir licença. Primeiro o riso — sempre o riso. Depois a boca, o jeito como se aproxima sem invadir, como se soubesse exatamente até onde ir. Há uma leveza nela que não exige nada, e talvez seja isso que mais me desarme.

Abro os olhos rápido, como se tivesse sido flagrada em um pensamento impróprio.
Desejo.

Ainda existe isso em mim?

Passo a mão pelo rosto, depois pelo colo, buscando ancoragem. Mas o corpo não mente. Ele lembra do cheiro dela, da proximidade no carro, da vontade contida que precisei segurar com força. Lembra da minha mão querendo ficar, do meu olhar demorando além do permitido.

Sempre fui controle.
Sempre fui contenção.

Construí minha vida assim. Não por frieza, mas por necessidade. Controle não é ausência de sentimento — é método de sobrevivência. E sobrevivi. A custo de muito.

Deito, finalmente, olhando para o teto escuro. O quarto parece maior à noite, como se amplificasse tudo aquilo que evito durante o dia. E ali, sem tarefas, sem testemunhas, não há para onde fugir.

Não foi apenas atração.
Não foi um impulso isolado.

Foi reconhecimento.

Clara não me vê como cargo, como sobrenome, como idade. Ela me vê quando rio, quando me contradigo, quando me permito errar. E isso é perigosamente íntimo.

Respiro fundo. Tento organizar os pensamentos como sempre fiz. Listar riscos. Antecipar consequências. Mas, pela primeira vez em muito tempo, essa lógica falha. Porque o que sinto não quer ser resolvido — quer ser vivido.

Viro de lado, puxo o lençol até o peito. O coração bate mais rápido do que deveria. E, num gesto que não planejei, deixo escapar um sorriso breve, quase involuntário.

Talvez seja isso que me assuste de verdade.

Não o desejo.
Mas a vontade de não lutar contra ele.

Fecho os olhos.
E, antes que o sono venha, admito em silêncio — sem promessas, sem garantias — que alguma coisa começou.

E que, pela primeira vez em anos, eu não tenho certeza se quero manter tudo sob controle.


Próxima página - O acaso a meu favor ... 


Nenhum comentário:

O acaso a meu favor - Página 91

Por Clara III: Ao sair do mercado do Valentino, solto o ar que nem percebi que estava prendendo. Vem um alívio. Mas junto dele, um sorriso t...