domingo, 5 de outubro de 2025

O acaso a meu favor - Página 62

Continuação por Clara III :

Ao me confrontar de maneira direta, ficando a poucos centímetros de mim, ela lança a pergunta — firme, precisa, quase um golpe calculado:

— Você tem algo importante pra fazer hoje, Clara?

Na mesma hora, um arrepio percorre minha espinha. O convite de Elise me atravessa a mente como uma lembrança inoportuna.
Será que ela ouviu justamente essa parte?
Claro que ouviu — é óbvio que ouviu! — um tapa mental na testa confirma o desastre.

— Fora isso, preciso que fique. — A voz dela corta meus pensamentos, doce o bastante para disfarçar o veneno por trás.

Ergo o olhar e a encaro com um meio sorriso cansado. Estava exausta, é verdade, mas não o suficiente para enfrentar um segundo turno sob o olhar dela. Ainda assim, algo me diz que Verônica não estava num dia bom — ou talvez fosse eu que tivesse escolhido as palavras erradas.

— Claro... pedindo assim, com “jeitinho”, quem é que recusa? — murmuro, mais para o ar do que para ela.

Achei que fosse o fim da conversa. Ledo engano. Os passos firmes soam atrás de mim, aproximando-se num ritmo que faz o chão parecer menor. Instintivamente, recuo — só um pouco.

De repente, ela está ali. Perto demais. O perfume amadeirado me envolve antes mesmo que eu consiga respirar direito. O decote dela paira à altura do meu rosto, e o olhar... o olhar carrega uma fúria contida, como se uma faísca a mais fosse suficiente para incendiar o mundo. Juro que, por um instante, vi fumaça subir.

E então, ela age.
Com unhas impecavelmente feitas — e afiadas o bastante para marcar o que quisessem —, Verônica segura meu braço com firmeza, o toque possessivo e inegociável. Inclina-se devagar, até que sua voz me alcance, baixa, áspera, apenas para mim:

— Não brinque comigo, Clara.

Não sei se a intenção era me intimidar. Talvez fosse. Mas o efeito foi completamente o oposto.
Uma risada quase escapou, tímida, sufocada. Porque, no fundo, a cena era absurda demais para o medo — e intensa demais para ser ignorada.
O corpo dela tão próximo, o perfume, o calor... tudo pareceu parar por um segundo.
E, naquele breve intervalo, percebi que Verônica podia ser muitas coisas — menos previsível.

Por um instante, nenhuma de nós se moveu. O silêncio era espesso, quase palpável, e só o som de nossas respirações preenchia o espaço entre uma provocação e o perigo.

O olhar de Verônica se fixou no meu — firme, indecifrável — e, pela primeira vez, não encontrei nada para dizer. Era como se o mundo tivesse diminuído até caber naquele instante: o toque dela ainda no meu braço, o perfume amadeirado que me envolvia, a proximidade sufocante e, ao mesmo tempo, irresistível.

Ela não precisou dizer nada. O corpo falava por ela.
E o meu… respondeu.

Um segundo, talvez dois, e o ar pareceu mudar de temperatura. Senti o coração bater no fundo da garganta, e as palavras, aquelas que sempre me salvavam, me traíram completamente.

Verônica inclinou levemente a cabeça, o olhar descendo até minha boca. Foi o bastante. A tensão se transformou em algo quase tangível — o tipo de silêncio que antecede um erro delicioso.

Mas o destino, como sempre, tem um senso de humor cruel.

— Verônica! — a voz de Igor ecoou pelo corredor, firme, prática, completamente fora de tom com o que acabara de acontecer. — Preciso que veja uns papéis do financeiro comigo.

Ela piscou devagar, como quem desperta de um transe. Afastou-se apenas o suficiente para que o ar voltasse a circular entre nós, mas o olhar... o olhar ficou.

— Depois conversamos, Clara. — disse, num tom baixo demais para o irmão ouvir.

E, antes de sair, jogou os cabelos mais uma vez para trás, em sinônimo de nervosismo de quem soube exatamente o efeito que causou — e não tem pressa alguma de desfazê-lo.

Fiquei ali, parada no meio do corredor, tentando me convencer de que era só o nervosismo falando. Mas, no fundo, eu sabia.
Havia algo entre nós.
E, depois daquele olhar, negar seria inútil.

Fiquei parada por alguns segundos, sem saber se respirava ou ria do que tinha acabado de acontecer. O corredor parecia menor, o ar mais denso — e o perfume dela, teimosamente preso em mim.

Levei a mão ao braço, exatamente onde ela me segurara. Ainda sentia o calor. O toque.
Era quase ridículo o quanto aquilo me afetava. Eu, que sempre soube me manter no controle, agora me via completamente tomada por uma energia que não sabia nomear — ou talvez soubesse, mas preferisse não admitir.

— “Não brinque comigo, Clara.” — a voz dela ecoava na minha cabeça, repetida e cada vez mais perigosa.

Suspirei, encostando-me à prateleira atrás de mim.
Talvez eu tivesse cruzado uma linha invisível, e o pior é que... parte de mim queria cruzá-la de novo.

Olhei em direção ao escritório, de onde vinham vozes abafadas — Verônica e Igor, discutindo algo sobre relatórios e números. O tom dela já não era o mesmo de minutos atrás. Profissional, frio, impassível. Como se nada tivesse acontecido.

Mas aconteceu.
E eu senti.

Ajeitei a flanela no ombro, na tentativa patética de disfarçar o próprio tremor das mãos. Senti vontade de rir — de mim mesma, dela, da situação absurda.
Deusa amadeirada, era isso que ela era. Entrava no ambiente e mudava o ar, a temperatura, o meu equilíbrio.

Passei os dedos nos lábios, sem perceber, e a lembrança do olhar dela fez meu estômago revirar de novo.
Havia algo ali, inegável.
Mas, como tudo o que vinha de Verônica, também era perigoso.

E o pior é que, por mais que eu tentasse negar… parte de mim já estava disposta a correr o risco.

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O acaso a meu favor - Página 61

Continuação por Clara:

Ao reconhecer a figura vibrante à minha frente, não consegui conter a alegria. Meu sorriso se abriu largo, genuíno, escapando sem pedir permissão. Caminhei apressada em sua direção, enquanto ela já se preparava para me envolver em um abraço — e não era um abraço qualquer, mas aquele que me lembrava de um tempo em que tudo parecia mais leve, mais simples.

E, no entanto, não estávamos sozinhas naquela cena. Verônica observava tudo à distância, imóvel, os óculos escorregando perigosamente até a ponta do nariz. Seus olhos analisavam cada gesto, cada emoção estampada em mim, com uma calma incômoda e uma interrogação silenciosa que se desenhava em sua testa. O calor do reencontro contrastava brutalmente com a frieza calculista de seu olhar.

Ao me desvencilhar, ainda com o calor do abraço latejando em mim, deixo escapar com um sorriso enigmático:
— Bom... agora tenho motivos fortes para ficar.

Enquanto digo isso, finjo buscar algo ao meu redor, os olhos pousando na cabeleira preta como se fosse apenas um detalhe banal. Mas sabia, no fundo, que minha frase pairava no ar carregada de um duplo sentido — forte o bastante para que Elise a recebesse como um carinho, e, ao mesmo tempo, para que Verônica, atenta como sempre, a captasse como uma provocação silenciosa.

Elise, ao ouvir minha resposta, deixou escapar um olhar entristecido, mas logo um brilho maroto tomou conta de seus olhos — como quem ainda não estava disposta a desistir.

— Bom... pelo menos se divertir uma noite comigo você não vai negar, não é mesmo? — disse em tom meio brincalhão, meio desafiador.

Sem muita certeza do que realmente queria, aceitei prontamente o convite, perguntando se o número ainda era o mesmo.

— Continua sim, princesa... — murmurou com doçura, inclinando-se para me beijar na testa. O gesto parecia inocente, mas escondia uma intenção clara, como se quisesse marcar território, mesmo que de forma silenciosa.

Ela seguiu até o caixa, onde seus amigos a aguardavam. A galera, já acostumada comigo, apenas acenou em despedida. Elise, porém, fez questão de se destacar: lançou-me um gesto insinuante, acompanhando com um sorriso que dizia mais do que as palavras — “Me liga!”

Dou risada da maneira como Elise diz, divertida com sua ousadia. Mas, ao me virar, dou de cara com uma mulher de expressão dura, a cara fechada, nitidamente nada contente com o que acabara de presenciar. O choque foi tão grande que senti o riso morrer em meus lábios antes mesmo de perceber.

Conheci Elise no ano passado, junto com o grupo de amigos dela, numa tarde bem quente — como tantas outras em Caldas Novas. Lembro-me como se fosse hoje: eu atravessava uma fase complicada, tinha acabado de descobrir mais uma das traições de Camila. Só de pensar nisso ainda sinto um nó no estômago. Foi um período desgastante, doloroso, em que eu não sabia como lidar com tanta decepção.

E talvez por estar tão fragilizada, a presença de dela tenha me chamado atenção de um jeito diferente. Não era paixão, nem desejo — era apenas curiosidade. O jeito leve dela contrastava com o peso que eu carregava, e isso, por si só, já fazia diferença.

O curioso é que tudo começou com uma confusão entre um dos amigos de Elise e Augusto. No fim, o mal-entendido foi resolvido e eles acabaram se tornando conhecidos. Mas com Elise foi diferente: não sei explicar bem, havia algo no jeito dela que despertava a minha curiosidade. Não era romance, nem desejo... apenas aquela sensação de que havia mais naquela pessoa do que ela deixava transparecer.

A química, a conversa, o olhar, o abraço... nunca chegamos a ter nada de fato. Ainda assim, na nossa última despedida, houve algo nos olhares que trocamos: uma promessa silenciosa. Se o acaso resolvesse nos dar outra oportunidade, não nos prenderíamos. Nem que fosse por uma noite, deixaríamos que a vida seguisse seu próprio ritmo.

Mas hoje já não consigo afirmar se penso ou sinto a mesma vontade de meses atrás. O que sei é que foi muito bom revê-la.

Volto minha cabeça ao presente — ou melhor, para uma certa mulher de expressão amarrada, prestes a soltar sua fúria sobre todos... ou, mais precisamente, sobre mim.

Na minha humilde opinião, achei que meu horário seria o habitual, às 15h20. Mas nada como uma deusa quase descabelada para bagunçar não apenas os seus planos, mas os meus também. Meu cérebro dizia para recusar, seguir a rotina, não me deixar levar… mas havia algo em Elise — no jeito como me olhava, no sorriso quase desafiador — que tornava impossível dizer não. Estava tentada a aceitar o convite para aquela noite, mesmo que fosse apenas para aproveitar o calor do entardecer, mesmo sabendo que talvez me arrependesse depois.

Estava eu, com minha famosa flanela surrada pendurada no ombro, quando ouço passos conhecidos atrás de mim. Estava em um dos corredores da perfumaria, limpando as prateleiras e separando um produto de cada para que Verônica imprimisse o preço — já que Augusto havia saído.

Só que, nesse exato momento, eu já havia terminado e fui pega no flagra: rindo sozinha ao responder uma mensagem no celular. Virei meu corpo completamente na direção dela, tentando decifrar suas expressões. Um misto de fúria, raiva, desconforto… e até a clara vontade de me enforcar ali mesmo. Olhei para ela e pensei: “Sério, estou vendo isso mesmo ou minha flanela surrada ganhou poderes mágicos de irritar as pessoas?”

— Preciso que dobre hoje! — Ao ouvir aquilo, senti como se um balde de água gelada tivesse sido despejado sobre mim.

Sério? Justo hoje!? — pensei, completamente frustrada, antes que as palavras escapassem sem filtro:
— Sério, Verônica? — perguntei, num tom chateado, encarando-a diretamente.

Ela, que já estava de saída, parou de repente e freou os passos. Virou-se para mim, o olhar firme.
— Como é que é? — devolveu a pergunta, vindo em minha direção.

E, nessas horas, meus amigos... precisei de todo o jogo de cintura que tinha pra não deixar as pernas fraquejarem diante daquela mulher.


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O acaso a meu favor - Página 60

Por Clara...

Não acredito que me distraí com meus pensamentos malucos e quase fui pega justamente pela causadora do meu embaraço. Ela ali, toda séria e concentrada, explicando nossas funções… e eu? Me perdi na beleza daquela mulher. Admito: quando fizeram essa criatura, quebraram a forma. É tanta beleza que Deus proibiu ter cópia. Não é justo com o resto da humanidade!

— Meu Deus, o que está havendo comigo?

Saí do meu mini vexame tentando parecer a pessoa mais normal do planeta. Peguei um copo de café, respirei fundo e fui direto para o que me designaram. Logo entendi por que me colocaram para ajudar na reposição dos frios e das bandejinhas de carne: até que o tal açougueiro tem mãos habilidosas… e um cuidado quase artístico com cada corte.

— É, bem que você disse que sabia cortar um bife bonito. — falei num tom de falsa provocação, só para quebrar o silêncio.

— Te disse… — ele respondeu com aquele ar superior de quem tem certeza absoluta de que nasceu para aquilo.

Revirei os olhos, mas logo desabei numa risadinha. Entre bandejas de mussarela, presunto, almôndegas bem organizadas e carnes embaladas a vácuo, a manhã foi passando num misto de trabalho e brincadeiras. A cada nova bandeja encaixada, parecia que estávamos montando uma vitrine de supermercado versão comédia romântica.

Eu tinha a nítida sensação de que os olhos de Verônica estavam sobre mim o tempo todo. Talvez fosse só coisa da minha cabeça… ou talvez ela estivesse mesmo conferindo se eu conseguia empilhar mussarela sem transformar tudo em um desastre.

Mas sério, ninguém precisa olhar tanto assim pra quem está só tentando não derrubar presunto, né?

E lá estava ela, toda concentrada e elegante, explicando detalhes que eu nunca teria imaginado sobre carnes e embutidos. Eu tentava me focar no trabalho, mas era impossível não notar: o jeito sério dela, o cuidado com cada bandeja… até parecia que o mundo parava um instante enquanto ela ajeitava uma almôndega.

Ótimo, Clara, agora além de atrapalhada, você também está suspirando mentalmente por alguém que provavelmente nem percebe que você existe.

Em alguns momentos, quando eu retribuía as brincadeiras do Bruno, sentia os olhos de Verônica me fuzilando de um jeito quase imperceptível. Quase.

Eu conhecia aquele olhar… ou pelo menos achava que conhecia. Aquele tipo de olhar que dizia: “Essa proximidade com ele, não está me agradando nem um pouco”. E, confesso, não era exatamente o tipo de reprovação que me deixava nervosa — era mais um friozinho estranho no estômago, misto de diversão e… algo que fazia meu coração bater mais rápido do que deveria.

Percebi que, de vez em quando, Verônica vinha até mim, me ajudando a organizar melhor as bandejas. Mas era sempre para cortar ou interromper as brincadeiras do Bruno comigo. Confesso que, no fundo, comecei a acreditar que ela estava com ciúmes da nossa aproximação repentina.

E que ciúmes adoráveis, pensei, tentando disfarçar o rubor subindo.

Sou muito fácil de fazer amizade. Converso com qualquer pessoa, mesmo que a conheça há poucas horas, como se a conhecesse há anos. Nem todo mundo entende isso, e muitas vezes acaba julgando mal — tanto quem está de fora quanto a pessoa com quem estou falando.

— Assim está bom? — perguntei a ela, com um fio de receio na voz, tentando não parecer desesperada por aprovação.

— Está muito bom. Está fazendo um bom trabalho. — Ela respondeu de maneira simples, quase sem empolgação, mas, juro, havia algo no jeito que disse isso que fez meu coração pular uma batida.

Ok, Clara, para de fantasiar… mas, sério, esse “muito bom” tem cheiro de ciúmes, não tem?

Espantei meus pensamentos e desci as escadas, encerrando de vez meu trabalho. Ao pisar no último degrau, um burburinho animado ecoou da entrada do mercado.

Não dei tanta atenção de início — afinal, por aqui sempre circulam pessoas de todos os tipos: das mais alegres às mais estressadas. Ainda assim, havia algo diferente naquela agitação, como se o ar carregasse uma expectativa incomum.


Verônica estava orientando Augusto em alguma ordem; ele já segurava o capacete e a chave da moto com firmeza. Aqui, na cidade de Caldas, é comum ver as pessoas circulando de moto em vez de carro. O ronco dos motores quase faz parte da paisagem, como se fosse a trilha sonora diária da cidade.

Observo enquanto ela entrega alguns papéis a ele e, em seguida, se afasta. Eu já me preparava para mergulhar de novo no silêncio do mercado, quando, de repente, meu nome ecoa pelo ar — tão carregado de saudade e entusiasmo que sinto um arrepio percorrer minha pele.


— E então, dona Clara... — viro-me, quase sem fôlego, em direção àquela voz que reconheceria em qualquer lugar. Meu coração dispara, como se cada batida fosse uma lembrança se impondo contra o presente. — Vou poder te levar embora para Brasília?


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O acaso a meu favor - Página 74

  Continuação — O beijo… por Verônica O “quase” entre nossas bocas dura longos segundos — segundos que esticam o mundo, que dilatam o ar ao...