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quarta-feira, 25 de junho de 2025

O acaso a meu favor - Página 10

Pagina 11 – Capitulo 01.

 Por Clara...

No início, quando descobri que seriam meus patrões os clientes da mesa reservada, confesso: fiquei muito nervosa. Tive medo de não estar à altura, de não conseguir atender de forma adequada. Mas logo reconheci ali uma oportunidade — minha chance de mostrar, com elegância, o quanto sou capaz de atender qualquer cliente com profissionalismo. E, quem sabe, também de limpar a imagem que deixei com eles depois do que aconteceu ontem. Era o momento ideal para esfregar na cara daquela "mulherzinha" o quanto estou preparada — dentro ou fora do mercado.

Vi Igor me chamando discretamente com um gesto da mão. Fiquei um pouco envergonhada, já que haviam dito que não pediriam mais nada. Imaginei que fosse por uma taça extra de vinho, talvez uma água ou algo simples. Mas o que ele disse — ali, na frente de toda a mesa — me desestruturou completamente naquela noite.

Igor pigarreou, visivelmente desconfortável, e com um olhar breve para a irmã, começou a dizer algo que soou como o início de um pedido de desculpas. Observei Verônica, percebendo a intenção, ajeitou-se na cadeira e tentou acompanhá-lo, como se quisesse reforçar a iniciativa. Mas sendo quem sou, com um sorriso gentil e um olhar sereno, os interrompo com educação:


— Acho que essa conversa merece um momento mais apropriado... Hoje é noite de família.


Meu tom foi firme, mas respeitoso, e isso pegou Verônica e Igor de surpresa. Pela primeira vez,  acho que eles não viram apenas uma funcionária esgotada — viram uma mulher que sabia o próprio valor e tinha muito discernimento. E, mesmo sem dizer uma palavra, espero ter deixado claro a Verônica, que sou muito mais do que ela havia imaginado.

Com um suspiro discreto, abaixo levemente o olhar e digo, ainda mantendo o tom calmo:


— Eu também reconheço que naquele dia eu estava cansada... talvez mais do que deveria. O horário puxado e as responsabilidades acumuladas me deixaram no limite. Mas vou me esforçar para que isso não volte a acontecer. Quero continuar crescendo — e aprendendo com tudo isso.

 

Acho que consegui ver, naquele rosto sempre tão semelhante ao da dona Vanda, algo que ousava parecer um esboço de sorriso. Um quase-sorriso, talvez. Mas já era extremamente tarde. Após dizer isso, me despedi com cordialidade e os deixei aos cuidados de um colega garçom para finalizarem o pagamento.

 

Na saída, Igor — como eu já imaginava — se despediu de mim com um sorriso largo, gentil, acompanhado da namorada, que também acenou de forma calorosa. Já Verônica...

 

Verônica apenas inclinou levemente a cabeça. Um gesto controlado, contido, quase mecânico. Nada além do essencial.

 

E eu, com o mesmo controle que me ensinou a sobreviver nesse tipo de situação, repeti o gesto, forçando um sorriso pequeno, sem mostrar os dentes. Apenas o suficiente para encerrar aquele teatro educado que chamamos de civilidade.

 

Só depois que eles se foram é que percebi: estava prendendo a respiração desde o momento em que ela entrou naquele restaurante.

 

E finalmente, naquela noite, eu consegui respirar.

 

De portas fechadas e expediente encerrado, só nos restava organizar a bagunça da noite. Sob o olhar atento de dona Vanda, limpávamos tudo de forma descontraída. Às vezes, ela até se deixava rir de alguma besteira que soltávamos no meio da arrumação — um comentário bobo, uma imitação exagerada de algum cliente — mas, mesmo rindo, seus olhos não deixavam de acompanhar a contagem do caixa com precisão quase militar.

 

Aos poucos, quem já havia finalizado suas funções foi se despedindo com abraços apressados, piadas internas e o cansaço visível nos ombros. Até que, por fim, restamos apenas eu e dona Vanda.

 

O silêncio que ficou não era desconfortável. Era familiar. Um daqueles silêncios que só se constrói depois de muitos turnos compartilhados, muitos fechamentos, muitos cafés passados depois da meia-noite.

Terminando tudo que havia para fazer, dona Vanda me perguntou:

 

— Quer carona pra casa?

 

Ela sempre oferece. E eu, de forma quase envergonhada, sempre recuso. Ela apenas assente com a cabeça e não insiste, o que — sinceramente — agradeço.

 

O restaurante não fica muito longe da minha casa. E, depois de um dia como esse, tudo o que eu quero é chegar, tomar um banho demorado e... asfixiar aquele safado do Bento com meus cheiro. Até nós dois acabarmos nos limpando juntos — eu tirando o pelo dele da minha roupa, e ele lambendo cada beijo que eu tentar distribuir naquela barriguinha de ração.


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Capítulo 2 - Página 12

O acaso a meu favor - Página 09

 Pagina 10 – Capitulo 01

Por Verônica...

Conversando animadamente com minha cunhada, precisei olhar duas vezes para ter certeza de que meus olhos não estavam me pregando uma peça. Não. É ela mesmo.

Não acredito que arrumou outro emprego tão rápido assim… ou será que está se desdobrando em dois? Multitarefas, aparentemente. Impressionante.

E por que, exatamente, estou me fazendo perguntas sobre essa garota?

A mesma garota que — por culpa minha, admito em pensamentos — saiu da última vez que nos vimos num clima, digamos… tempestuoso.

Coincidência? Destino? Ou o universo apenas rindo da minha cara?

Franzi os lábios. Mantive a postura. Mas por dentro, meu cérebro estava em uma reunião urgente com minha dignidade.

Igor, meu irmão, a reconheceu imediatamente e, com um sorriso educado, a cumprimentou de maneira cordial.

— Boa noite, Clara — disse, com um misto de surpresa e alegria ao vê-la. — Não sabia que trabalhava aqui também.

 

O tom foi suave. Aquele tipo de suavidade que disfarça curiosidade. Claramente, ele estava sondando — tentando descobrir se ela realmente havia arranjado outro emprego depois do... incidente.

— Sempre que posso, trabalho algumas noites para Dona Vanda — respondeu ela, gentil, quase doce.

Quase.

Nem parece a mesma a garota que, até ontem, me atendeu com o maior sarcasmo do mundo — sarcasmo merecido, diga-se de passagem. Mas ainda assim, afiado como uma navalha.

Tudo estava fluindo bem naquela noite. Analisando cada movimento seu, percebo ela ir buscar algo, que acredito eu ser os cardápios.

Com três cardápios nas mãos, Clara os distribui pela mesa com a precisão de quem domina seu espaço. Primeiro para minha cunhada, depois para Igor... e, por fim, para mim.

 

Nada de contato físico. Nem mesmo o toque acidental dos dedos que poderia render mais do que deveria. Apenas um leve deslizar do cardápio na minha direção — como se eu fosse só mais uma cliente qualquer.

 

Rápidos olhares foram trocados. Dela, um quase imperceptível. Meu, calculado. Só o suficiente para avaliar se havia, sob aquela máscara profissional, algum traço de ironia, desconforto ou... qualquer coisa. Mas não. Nada. Frieza absoluta. E isso, por alguma razão que prefiro não explorar neste momento, me irrita mais do que qualquer provocação direta.

 

Ela nos deu dois minutos para folhear os cardápios e retornou, pontual como um relógio suíço.

 

— Vocês gostariam de iniciar pedindo alguma bebida específica? — perguntou, olhando primeiro para Igor, como manda o protocolo social — e talvez como um lembrete de que entre mim e ela há uma grande barreira iniciada,

 

— Eu vou de suco de abacaxi com hortelã, por favor — respondeu ele, sorrindo como sempre.

 

— Uma água com gás pra mim — disse minha cunhada, distraída com as fotos das sobremesas.

 

Clara anotou tudo com aquele mesmo ar tranquilo. Depois, olhou para mim.

 

Pausa de um segundo a mais do que o necessário.

 

— E para a senhora?

 

“Senhora.”

 

O veneno veio sem nem alterar o tom da voz. Clara, minha até então funcionária, me chamando de "senhora" como se estivéssemos em um tribunal. 

— Uma taça de vinho tinto — respondi, cruzando as pernas e devolvendo o olhar com a calma de quem já matou uma reunião com os olhos.

 

— Excelente escolha — ela disse, com um leve aceno, e então se afastou, deixando apenas o som dos talheres e do meu orgulho rangendo entre os dentes.

 

 Pedidos feitos, pratos servidos, e Clara seguia pelo salão como se fosse parte da arquitetura do lugar — discreta, mas absolutamente presente. Havia algo na maneira como ela se movia... um equilíbrio entre leveza e autoridade. O pequeno sorriso que carregava no rosto não parecia esforço; era quase natural. Irritantemente natural.

Percebo, com certo desconforto, que muitos dos clientes — alguns nomes conhecidos, inclusive — a cumprimentavam com familiaridade. Pequenas piadas, olhares cúmplices, comentários que só se trocam com quem já conquistou a confiança do lugar.

 

E ela, como sempre, atenta. Um olho no salão, outro no rádio discreto preso à orelha. Em determinado momento, murmurou algo no microfone com a agilidade de quem não apenas está acostumada, mas claramente é ouvida. O tipo de presença que comanda, mesmo sem levantar a voz.

 

Fascinante.

Irritante.

Confusa.

 

Enquanto isso, meu irmão — querido e, por vezes, dramaticamente sensível — já havia bebido consideravelmente da sua terceira taça de vinho, como quem precisava de coragem líquida.

 

Clara se aproximou da nossa mesa de maneira suave, discreta, sem jamais parecer invasiva. Sua presença, curiosamente, nos deixava à vontade. Com gentileza, perguntou se precisávamos de mais alguma coisa, e todos negamos com pequenos acenos de cabeça.

 

Querendo ou não, ressalvo. A maneira como ela nos fazia sentir visíveis e confortáveis — com atenção sutil, mas precisa — me faria vir jantar aqui todas as noites. Sem hesitação.


Pouco depois da sobremesa, ela retornou apenas para garantir que estávamos bem. Seu timing era perfeito: estávamos no meio de uma conversa que, graças ao meu irmão caçula, tomava rumos absurdamente cômicos. Clara entendeu o clima e simplesmente retirou todos os pratos da mesa sem interromper a troca de palavras, como quem entende o ritmo da música e sabe não desafinar.

 

Esse tipo de sensibilidade... não se aprende em curso nenhum.

 

Ela se afastou, nos deixando completamente à vontade, como se soubesse que, naquele momento, não precisávamos de serviço — apenas de espaço.

 

Meu irmão, por sua vez, já estava com a camisa social azul clara com as mangas dobradas até abaixo dos cotovelos, numa tentativa informal de parecer mais descontraído do que realmente é. As bochechas coradas denunciavam o vinho e o prazer genuíno que ele sentia da própria piada — uma piada que, honestamente, nem era tão boa assim.

Mas ele ria. Como quem vive leve. Como quem tem a sorte de não carregar fantasmas à mesa.

E eu? Eu apenas observava tudo, com um leve riso no rosto.

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O acaso a meu favor - Página 08

 Pagina 09 – Capitulo 01

 

Agora, deitada no meu colchão surrado, encaro o teto como se alguma resposta fosse brotar dali. A verdade é que estou esgotada. Fisicamente. Mentalmente. Emocionalmente. Não foi só sobre o salário ou as funções acumuladas — foi sobre ser invisível. Sobre ninguém perceber o quanto tenho segurado as pontas ali dentro.

Fui grossa, sei disso. Mas a gente também cansa de engolir seco. Só que o medo agora está aqui, quieto, sentado do meu lado como um velho conhecido: “E se eu for mandada embora?”... “E se ninguém mais quiser me contratar depois disso?”... “Será que me excedi?”

Suspiro. Me viro para o lado, puxo o travesseiro e abraço como se pudesse me esconder dentro dele. Não quero chorar. Não hoje. Já chorei demais em silêncio dentro daquele banheiro dos fundos, entre uma pausa e outra. Mas dói. Dói porque eu gosto de lá. Gosto da ideia de fazer parte de algo. Só queria que, por um momento, alguém olhasse e dissesse: “Clara, eu vejo o que você faz.”

Acabo caindo no sono sem perceber, ainda com o uniforme amassado no corpo e a mente cheia de ruídos. Quando abro os olhos, já é noite — ou quase isso. A luz entra pela janela e bate direto no meu rosto, e por um instante esqueço do que aconteceu pela manhã.

Até o celular vibrar.

Pego o aparelho no criado-mudo e me deparo com uma enxurrada de notificações. No meio delas, uma me chama atenção: alguém havia criado um grupo novo. O nome aparece destacado: "Nova fase — Empório da Economia ".

Demoro alguns segundos para entender do que se trata. Abro com o coração batendo um pouco mais forte. Para minha surpresa, estão todos lá. Até eu. E, o mais inesperado: o grupo foi criado pela Verônica.

Engulo seco. Passo os olhos pelas mensagens — algumas desconfiadas, outras animadas. Uma em especial me paralisa por alguns segundos. É da própria Verônica:

“A partir de agora, nenhuma voz será ignorada. Vamos recomeçar. Juntos.”

Fico olhando para aquela frase como se ela fosse um enigma. Não sei se é o cansaço ou a esperança me pregando uma peça... mas sinto um nó se desfazendo dentro de mim. Ainda não sei o que isso significa exatamente, mas talvez... só talvez... algo esteja mudando.

E, pela primeira vez em muito tempo, deixo um sorriso escapar sem culpa.

Ao me levantar, me organizo para preparar algo para comer. Percebo que estava tão esgotada que dormi o dia todo sem nem notar. Aproveito o tempo para confirmar alguns bicos pelos próximos dias, já que o mercado estará passando por uma "reforma de gestão" — se é que posso chamar assim.

Hoje, pela primeira vez em muito tempo, sinto que posso dormir tranquila. Não porque tudo se resolveu, mas porque, enfim, parece que as coisas começaram a se mover.

                                                ....................................................................

 

Já são quase dezoito horas. Me visto com o uniforme que o restaurante me forneceu para os dias em que consigo fazer uns bicos por lá. Dona Vanda, a proprietária, é o tipo de mulher que entra em um ambiente e todo mundo percebe — fria, objetiva, e com um olhar que pesa mais que qualquer palavra. Nunca a vi desperdiçar tempo com gentilezas desnecessárias, mas também nunca deixou passar talento despercebido.

Outro dia, depois do expediente, lançou uma frase seca enquanto anotava algo no caderno de pedidos:

— Você tem mãos rápidas. Isso é raro.

Foi o mais próximo de um elogio que já ouvi dela. E vindo de Dona Vanda, é quase uma carta de recomendação assinada em ouro. Também disse, em tom quase imperceptível, que clientes pedem para serem atendidos por mim de novo. Disfarçou o elogio com um resmungo, mas eu entendi.

Acho que é meu carma trabalhar para mulheres de personalidade tão forte assim. Chegando no horário combinado, não me faço de rogada — vou direto ao ponto. Começo a organizar as mesas, alinhando os talheres com agilidade sobre as reservas já programadas para aquela noite.

Dona Vanda passou por mim com o mesmo ar firme de sempre, olhos atentos a cada detalhe. Parou por um instante e disse, sem rodeios:


— Clara, capriche nas mesas do fundo. Temos uma reserva para uma família importante hoje, e quero tudo impecável.


Assenti com a cabeça, sem perguntar nada. Já havia aprendido que, com ela, menos perguntas e mais ação era o melhor caminho. Só não imaginava que essa “família importante” era justamente a da Verônica.

A noite seguia tranquila, com os pedidos fluindo em um ritmo confortável. Eu me movia com leveza entre as mesas, servindo com sua típica eficiência silenciosa, os clientes sorrindo com o bom atendimento. Tudo estava sob controle — até que, por fim, a mesa mais aguardada da noite chegou. O som das cadeiras sendo puxadas, os passos firmes e vozes conhecidas me fizeram parar por um segundo. Meu coração bateu mais rápido ao reconhecer Verônica entre os convidados.

Dona Vanda foi à frente, como sempre fazia com mesas importantes, e eu a acompanho de perto, tentando manter o passo firme. Quando a família de Verônica entrou no restaurante, o ambiente pareceu desacelerar ao redor. Eu sentir um frio percorrer a espinha, o coração acelerado denunciando o meu nervosismo. Eu tentei forçar e me esconder atrás de um sorriso contido e uma postura profissional. Dona Vanda, impassível como sempre, fez um leve aceno com a cabeça ao cumprimentar os convidados, e lançou a mim um olhar rápido — não de crítica, mas de expectativa. Eu engoli a seco, ajeitei meu avental discretamente e, com voz firme, anuncio:


— Sejam muito bem-vindos. A partir de agora ficarei responsável pelo atendimento a mesa de vocês.

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Página 10

O acaso a meu favor - Página 07

Pagina 08 – Capitulo 01.

 

 

Por Verônica...

 Depois de dispensar os funcionários por três dias — até conseguirmos resolver ao menos um por cento dessa bagunça —, restamos no mercado apenas eu, meu irmão e o gerente: Augusto.

Assim que os funcionários se despediram, memorizei onde a porta se fecha e apertei o botão. Virei-me para os dois homens ali presentes e, soltando um suspiro pesado, apenas disse:

— Agora, a reunião que precisa acontecer é entre nós.

Senti a tensão se instalar no ar, mas não me importei. Como diz o ditado: já que estou no inferno, o que me resta agora é abraçar o capeta.

Ao seguirmos para o antigo escritório do meu pai, percebo que quase tudo permanece no mesmo lugar — exceto por algumas reformas antigas, que hoje já mostram claros sinais de desgaste. O tempo parece ter passado, mas sem de fato transformar.

E então me dou conta: talvez a mudança que pretendo iniciar a partir de hoje não seja apenas na estrutura física deste mercado... mas também na forma como o enxergo. A menina que um dia via esse lugar com olhos de medo e admiração, agora precisa encará-lo com coragem e responsabilidade.

É como se, ao tocar essa porta, eu também estivesse tocando em tudo que meu pai tentou me ensinar — e que até hoje esteve adormecido dentro de mim.

 

— Antes de mais nada — comecei, cruzando os braços e olhando diretamente para Augusto —, quero deixar claro que o que aconteceu hoje aqui... foi inaceitável.

Ele tentou manter a postura, mas desviou o olhar por um instante. Silêncio. Meu irmão, sentado ao lado, ainda não havia dito uma palavra.

— Uma funcionária foi exposta, sobrecarregada, humilhada — continuei, firme —, e ninguém aqui teve a decência de me interromper para acabar com o abuso. Nem você, Augusto. 

Meu irmão ergueu os olhos, um pouco surpreso, talvez magoado, mas eu continuei:

— Lembra do papai, Igor? — perguntei, com a voz mais baixa, porém carregada de peso. — Ele sempre dizia que administrar um negócio era, acima de tudo, saber cuidar de pessoas. Que lucro nenhum vale o desgaste da dignidade de quem te ajuda a manter as portas abertas.

Olhei para Augusto de novo:

— Eu não fazia ideia... — murmurei, como se estivesse admitindo algo a mim mesma. — Pelas palavras dela, ficou claro. Clara estava cobrindo funções que não eram dela, deixando de folgar, se desdobrando para manter esse lugar de pé... como se fosse bem mais que uma funcionaria desse mercado. Mesmo recebendo pouco. Mesmo sem receber nada em troca além de pressão, descaso e uma carga de trabalho que deveria, no mínimo, ser dividida entre três. E a gente simplesmente... deixou.

Augusto tentou se justificar:

— Verônica, com todo respeito, eu...

— Respeito? — cortei, erguendo uma sobrancelha. — Você deixou que ela fosse tratada como uma máquina. E mais: deixou isso virar um padrão. Eu estou assumindo essa empresa porque meu pai nos ensinou que quem lidera precisa ser justo. Precisa ser firme, sim — mas nunca cego.

Olhei para Igor, com os olhos ardendo, não de raiva, mas de frustração.

— E você, meu irmão... Eu sei que está cansado. Sei que está perdido. Mas o silêncio que você manteve hoje foi ensurdecedor. Se você quer continuar nisso, vai ter que aprender a ser responsável pelas pessoas também. Não só pelos números.

Augusto abaixou a cabeça. Igor suspirou, passando a mão pelos cabelos.

— Então o que você quer fazer agora? — ele perguntou.

— Quero uma reunião com todos os funcionários assim que retornarem. E antes disso, Augusto, você vai me entregar um relatório detalhado de funções, salários, horários e carga de trabalho de cada um. Quero ver onde está o desvio. E Igor... — me aproximei —, você vai comigo pedir desculpas à Clara. Não só a ela, mas a todos que fizeram de tripas coração para entregar um excelente trabalho nesse mercado.

O silêncio durou mais alguns segundos. Então, Igor assentiu, com um leve aceno de cabeça.

Augusto engoliu seco e respondeu:

— Entendido.

Eu recuei um passo, respirei fundo e finalizei:

— Isso não é sobre assumir um mercado. É sobre honrar o nome do nosso pai. E eu não vou fazer isso pisando em ninguém.

                                           ................................................................

 

 

Ao chegar em casa, fui direto para o meu quarto, sem sequer tirar os sapatos. Precisei de um banho — não apenas para limpar o corpo, mas para tentar organizar o turbilhão de pensamentos que absorvi naquele mercado hoje. A água escorria, e junto dela, a culpa, a indignação e uma exaustão que parecia vir de anos acumulados em silêncio.

Como estava na casa do meu falecido pai, sabia exatamente onde encontrar a porta de seu antigo escritório — e que, como sempre, ela estaria entreaberta. Ao empurrá-la com suavidade, fui invadida por uma sensação nostálgica, quase sufocante. Não hesitei. Me dirigi direto à sua velha cadeira e me sentei com cuidado, como quem busca abrigo em meio à tempestade. Naquele instante, mais do que nunca, eu precisava sentir o abraço dele — mesmo que só em memória.

 

O silêncio da sala parecia pesar sobre meus ombros como chumbo. O ar parado, a luz do fim de tarde atravessando as persianas, e a ficha... enfim caindo. Eu tinha sido dura demais. Clara, com seus olhos cansados, sua postura reta mesmo quando o mundo pesava, merecia mais que a minha frieza administrativa.

Sentei na velha cadeira de couro no escritório que ainda guardava o cheiro do meu pai. Era como se ele nunca tivesse saído dali. Fechei os olhos... e como em um sussurro antigo, a memória veio.

— Nunca se esqueça disso, Verônica — dizia ele, com aquele tom calmo, mas firme, enquanto ajeitava a manga da camisa —, números são importantes, metas também. Mas quem move tudo isso... são pessoas.

Eu tinha uns vinte e poucos anos, recém-formada, cheia de ideias novas. E cheia de pressa.

— Acha que pode controlar uma empresa com fórmulas e planilhas? Pode, por um tempo. Mas chega uma hora que tudo racha. E quando rachar, quem vai te segurar são as mãos que você respeitou — ele me olhou, sério. — Ou que você ignorou.

Lembro de tê-lo desafiado com o olhar, ainda arrogante:

— E se essas pessoas falharem?

— Então você ensina. Ou escuta. Gente não é máquina, filha. Gente sente. E gente que sente, trabalha por amor... ou por medo. Só uma dessas opções constrói algo que vale a pena.

Abri os olhos de volta ao presente.

Clara não precisava do meu medo. Nem da minha autoridade. Ela precisava do que meu pai chamava de "olhar de verdade". Aquele que enxerga o esforço mesmo quando ele não está estampado em relatórios.

Respirei fundo. A dor de reconhecer o erro queimava, mas também limpava. Era hora de agir.

Mesmo carregando a culpa nos ombros, não pude evitar o orgulho que senti. Orgulho por, de certa forma, estar imitando cada gesto do velho Heitor. Meu pai sempre quis que os filhos tivessem a mesma força de personalidade que ele — uma força que ele nunca precisou gritar, mas que exalava em silêncio. E acho que conseguiu. Pelo menos, em mim, essa força vive e pulsa. Sinto isso.

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O acaso a meu favor - Página 06


 Por Verônica....


 Ao ouvir o que aquela funcionária disse sobre os abusos sofridos aqui no mercado, eu fiquei sem palavras. Completamente sem palavras. Vê-la saindo dali como culpada por algo que agora é responsabilidade minha desestruturou todos os meus argumentos. Então percebo que o erro está muito além de maus funcionários; está na maneira como são tratados.

Sem reação, chamo a atenção de todos ali presentes e comunico algo que, talvez, se meu pai estivesse vivo, nunca aconteceria.

— O mercado ficará fechado por três dias. — Vejo a reação de espanto no rosto de todos, inclusive do meu irmão. — Esses três dias serão abatidos no banco de horas de vocês.

Percebo o alívio de uns, mas a frustração de outros também. Por isso, solto o verbo para todos escutarem.

— Se alguém tiver algo contra, que me comunique imediatamente! — Vejo o arregalar de olhos de alguns e a fúria no olhar de outros. — A partir de hoje, a gestão deste mercado muda. Podendo ser favorável para uns e desfavorável para outros. Vocês decidem!

É agora ou nunca. Não irei mais nutrir funcionários ruins punindo os bons. Essa gestão horrenda acaba agora. Peço um papel em branco e uma caneta ao gerente; ele, sem pestanejar, logo me traz o que preciso.

— Preciso do contato de cada colaborador presente, inclusive o da funcionária que acabou de passar por aquela porta. E daqueles que não estão presentes também. — Digo de maneira séria e direta. — Apenas o primeiro nome, função, o número e o turno já são suficientes.

Ao ver o primeiro funcionário pegar a caneta da minha mão, o vejo assinar rapidamente todos os dados que pedi — e assim foi com o próximo, e o próximo. Pego o papel em minhas mãos e vejo que alguém adicionou o número dos que não estão presentes. E o da Clara.

— Bom, meu intuito em ter o contato de vocês é porque quero conhecê-los.

Vejo algumas reações suspeitas, o que é normal, já que duvido que a maioria das empresas queira ter esse contato.

— Irei fazer um grupo, onde direi algumas novas regras sobre o emprego de vocês, porém tudo dentro da lei que protege cada direito do trabalhador. — Com olhos e ouvidos atentos, tenho mais uma vez a atenção de todos.

— Teremos uma reunião formal no dia em que voltarem às atividades normais aqui no mercado. — Sinto que, mesmo colocando as cartas na mesa, alguns colaboradores ainda estão insatisfeitos.

— E digo mais: se alguém entre vocês não estiver de acordo com nada que for imposto sobre a função de vocês, iremos dispensá-los, cada um com seus devidos direitos. Sem mais, nem menos.

Olho para aquele homem que se diz gerente deste mercado. Minha expressão séria e minimalista indica o quão egocêntrico e egoísta ele parece ser, agindo sempre em benefício próprio. Não é um defeito ser assim — mas agir dessa maneira com pessoas honestas, cujo único motivo é levar o sustento para casa, jamais.

Errei ao subestimar aquela garota, insinuando sua falta de responsabilidade com o emprego. Percebi que ela foi apenas mais uma vítima de um sistema manipulador, onde se paga um único salário a uma pessoa e se exige que ela exerça duas, três funções a mais — como foi o desabafo dela há pouco.

 

Não quero seguir adiante com uma gestão tão cruel assim. Por mais que eu não devesse me preocupar com isso neste momento, no fundo me importo. São pessoas sendo maltratadas por um sistema em que o governo atual não quer apenas a sua mão de obra, mas também lucrar em cima dos seus salários — os famosos impostos. Corrigirei meu erro com aquela menina — isso se ela não estiver, neste exato momento, contratando um advogado para nos processar por assédio moral.


Aquela garota parece ser meio marrenta, e quanto ao humor irritante... nem se fala. Mas, no momento em que deixou claro que vestia a camisa desta empresa sem ganhar nem um centavo a mais — e, pelo visto, ganhando muito menos do que em qualquer outra empresa aqui em Caldas Novas —, tudo mudou. Não significa que gostei da maneira como ela me abordou, mas, naquele caso, eu mereci ser tratada daquela forma. Agora, preciso ter uma reunião com o responsável por aquele abuso ter tomado a proporção que tomou: o Igor.

Nessa turbulência toda, não vi meu irmão abrir a boca para dizer uma só palavra. Com um olhar atento a tudo e a todos, o que talvez lhe reste seja mesmo o silêncio.

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Página 08

O acaso a meu favor - Página 05

 

                          Pagina 05 – Capitulo 01.

Narração por Verônica:


Não.

Eu não acredito no que essa garota acabou de me dizer.

Na minha cara.

Sem o menor receio.

Ou ela não sabe com quem está falando…

ou simplesmente não se importa.

E, sinceramente? Ainda não sei qual das duas opções me irrita mais.

Vejo meu irmão vindo na minha direção, acompanhado de um homem — cerca de trinta anos, postura tensa.

O gerente, imagino.

Ele para à minha frente e me cumprimenta. Educado. Rápido. Claramente já ciente de quem eu sou.

Ou pelo menos deveria estar.

Igor guarda o celular, observa a cena… e então resolve, com uma tranquilidade quase irritante:

— Augusto, Clara… acho que ainda não apresentei vocês à minha irmã.

Pausa.

Eu observo.

A garota.

O gerente.

Os dois.

— Essa é a Verônica. Minha irmã mais velha.

Ah…

Agora sim.

Viro lentamente na direção dela.

E a expressão que encontro?

Impagável.

Pânico.

Confusão.

Arrependimento.

Tudo junto.

O gerente ao lado parece querer desaparecer. Eles trocam um olhar rápido — quase um código silencioso de “ferrou”.

— Ah… sim… eu… — ela começa, claramente tentando lembrar meu nome.

— Cla… Clara… dona… Ve… Verônica…

O “dona” sai atravessado.

Quase engasgado.

Interessante.

— Clara… — digo, firme. — acredito que temos muito o que conversar sobre o seu atendimento.

Ela encolhe os ombros, num misto de vergonha e resistência, e apenas assente.

Não perco tempo.

Chamo o rapaz que estava limpando a entrada, peço para abaixar parcialmente a porta do mercado e espero até ter a atenção de todos.

Silêncio.

Perfeito.

— Bom… agora que todos sabem quem eu sou… — começo, com a voz firme — preciso que entendam uma coisa.

Todos me olham.

Sem exceção.


— Eu não vim aqui a passeio.

Faço uma breve pausa.


— Vim para, junto com o meu irmão, assumir a gestão do Empório da Economia.

O impacto vem em ondas.

Olhares trocados.

Posturas mudando.


— E já deixo claro… haverá mudanças.

Olho ao redor.

Sem pressa.

Sem suavizar.

Igor me observa, atento, mas não interfere.

O gerente… curiosamente… parece até aliviado.

Depois de alguns minutos, com o restante dos funcionários finalmente chegando, concluo:

— E todos aqueles que chegaram atrasados…


Lanço um olhar direto para o gerente.

— Advertência por escrito.


Silêncio.

Denso.

Pesado.


Então deixo meu olhar cair… exatamente onde quero.

Clara.

— Incluso você.


Ela me encara.

Confusão.

Revolta.

E, talvez… pela primeira vez…

Consequência.


A moça do caixa — que acabei de descobrir se chamar Clara — reage no exato momento em que menciono a advertência. Não apenas pelo atraso, mas pela forma como conduziu o atendimento.

Não sei se aquela postura foi exclusiva comigo.

Mas, ainda assim… cortar o mal pela raiz é essencial.

— É sério isso? — ela pergunta, incrédula.

— É só um procedimento, Clara. — respondo, com firmeza. — Você foi ríspida e me atendeu de forma desrespeitosa. Imagina se fosse um cliente?

E antes que ela diga qualquer coisa, continuo:

— Não é pessoal. — viro-me para os demais funcionários. — Preciso manter um padrão. As penalidades devem ser aplicadas de forma igual para todos.

Observo o restante da equipe chegando aos poucos, quase sorrateiros. Alguns evitam contato visual. Outros… claramente ainda carregam os resquícios de uma noite mal dormida — ou bem vivida demais. O cheiro de álcool denuncia um deles antes mesmo de qualquer explicação.

Arrumo os óculos, retomando o controle da situação.

— Aos que chegaram agora: tudo o que foi dito será enviado no grupo do WhatsApp.

Faço uma pausa.

— Agora… preciso saber de algo.

Todos me encaram.

Inclusive Clara.

E, diferente dos outros, ela não disfarça o desdém.

— Passei por algumas seções e encontrei… eficiência. — digo, medindo as palavras. — E outras… um completo fiasco.

Passo a mão pelos cabelos, levemente impaciente.

— Quem é responsável pelas seções de chocolates, sucos e destilados?

Uma mão se levanta.

A mesma.

Clara.

Assinto, lentamente.

— Certo… — continuo. — E a parte da limpeza? Corredores, calçadas, banheiro…

A mesma mão se ergue novamente.

Dessa vez, não é surpresa.

É… desconforto.

Faço uma última pergunta, já com uma sensação incômoda se formando.

— Existe alguém ausente hoje? Folga ou falta?

Silêncio.

Então—

— Eu, Verônica.

Meu nome sai da boca dela com uma precisão quase cirúrgica.

— Hoje era pra ser minha folga.

Algo no tom dela muda o ambiente.

— Ontem eu fiz dois turnos… cobrindo a caixa que faltou hoje. — continua. — E, na ausência do repositor, eu e o Luís recebemos todas as mercadorias dessas seções que você acabou de citar.

Sinto minha expressão mudar.

Minimamente.

Mas o suficiente.

— Então… desculpa — ela ajusta a alça da mochila, com calma — se eu não te recebi com um sorriso, te dei boas-vindas e fiz um tour pelo mercado.

O sarcasmo agora não é mais escondido.

É declarado.

E, pela primeira vez, eu enxergo com clareza.

Não é apenas uma funcionária.

É alguém sobrecarregada.

E ainda assim… eficiente.

Até demais.

O suficiente para me enfrentar.

Mesmo agora.

Mesmo sabendo quem eu sou.

— E sim… — ela continua — eu vou assinar sua advertência com o maior prazer.

Dá um passo para trás.

Depois outro.

Já se afastando.

— Mas agora… — diz, virando-se em direção à saída — eu vou voltar pra minha folga.

Pausa.

Ela olha por cima do ombro.

— Porque, até onde eu sei… eu ainda tenho esse direito. Não é mesmo?

O acaso a meu favor - Página 04

Página 04 – Capítulo 01


(Narração por Clara)

Hoje, em plena terça-feira, agradeço aos deuses por finalmente ser minha folga…

A não ser, claro, que aconteça mais algum imprevisto com a Juliana.

Penso isso.

Erro meu.

Antes mesmo de terminar o pensamento — como se o universo estivesse apenas esperando a deixa — meu celular começa a vibrar ao lado do travesseiro.

Fico encarando o aparelho por alguns segundos, considerando seriamente a possibilidade de ignorar. Deixar vibrar. Deixar tocar. Deixar o problema explodir sozinho em algum canto do mercado.

Mas não.

Porque, claro… a Bruna está de férias.

E eu, segundo a hierarquia invisível daquele lugar, sou o famoso: “contato de emergência.”

Ou seja: a trouxa oficial.

Atendo.

Nem me dou ao trabalho de cumprimentar.

— Estou aí em trinta minutos.

Desligo antes mesmo de ouvir qualquer resposta. Levanto arrastando o corpo, passo a mão no rosto e sigo direto pro banheiro, pegando a toalha no caminho como quem já desistiu da própria dignidade logo cedo.

Banho tomado em velocidade absurda — nível olímpico mesmo — saio enrolada na toalha com duas missões claras:

Trocar a caixa de areia do Bento

Colocar comida pro dito cujo

Ainda bem que deixei o uniforme separado no sofá na noite anterior.

Ou melhor… no que um dia foi um sofá, mas hoje claramente pertence ao senhor Bento, atual dono da casa.

Paro.

Olho.

Respiro fundo.

Uma perfeita moita de pelos em formato de círculo ocupa exatamente a minha camiseta.

Levanto o olhar lentamente… e lá está ele. Parado no batente da porta. Me encarando.

— Sério, Bento?!

Cruzo os braços, indignada.

— Tanto lugar nessa casa… e você escolhe justamente o meu uniforme?

Ele pisca.

Se aproxima.

E começa a se esfregar nas minhas pernas como se nada tivesse acontecido.

Pedido de desculpa? Talvez.

Manipulação emocional? Com certeza.

Reviro os olhos, mas deixo pra lá. Me visto rápido e começo a luta contra os pelos usando fita adesiva — porque, claramente, essa é a tecnologia mais avançada que tenho às seis da manhã.

Passo um creme no cabelo, ajeitando com os dedos mesmo pra manter aquele efeito “ondulado natural” — que na prática é: “foi o que deu”.

Abro a geladeira, pego um achocolatado e dou um gole.

Qual foi? Vocês nunca começaram o dia assim não?

Dou um beijo estalado na cabeça do ingrato — que, inclusive, odeia contato físico em 90% do tempo — e sigo pra porta.

Paro.

Olho a fechadura.

Tranco.

Dou dois passos.

Volto.

Confiro de novo.

E começo meu ritual mental obrigatório:

“Eu tranquei a porta.”

“Eu tranquei a porta.”

EU TRANQUEI A PORTA.

Sério… vocês também são assim?

Porque não é possível que isso seja só comigo.


Você sai atrasado, vira a esquina… e de repente:

“Será que tranquei?”

“Será que desliguei o fogão?”

“Será que deixei a geladeira aberta??”


Esses dias voltei pra casa desesperada achando que tinha deixado tudo aberto.

Resultado?

Tudo fechado. Tudo normal.

E eu… atrasada.

Agora me diz: como você explica isso pro gerente?

“Ah, então… quase causei um colapso existencial por causa da geladeira.”

Quase levei uma advertência, claro. Aquela clássica ameaçazinha educada:

“Se acontecer de novo…”

Sim, Augusto. Vai acontecer de novo.

Mas seguimos.

Um dia de cada vez.

Ou, no meu caso… sobrevivendo de turno em turno.


Hoje, querendo ou não, eu uso o trabalho pra ocupar a cabeça.

E pra ganhar um pouco mais também — porque agora somos só eu e o Bento.

Faço alguns bicos fora do horário do mercado pra juntar uma reserva. Pra lazer… e pra segurança.

Não gosto de deixar ele sozinho.

Mas também sei que outro animal agora exigiria tempo.

E tempo… é exatamente o que eu não tenho.

Apesar disso, o Bento não parece triste por ser o único gato da casa.

Ele sente falta… de mim.

E eu?

Eu sinto falta de muita coisa que existia aqui antes.

Mas algumas ausências… são necessárias.

Porque certos fantasmas… é melhor manter à distância.

Chego no mercado e dou de cara com o carro do Igor.

Ótimo.

Minha alma entra primeiro no estabelecimento — meu corpo só vem depois, correndo atrás.

Assim que entro, noto uma mulher andando pelos corredores, analisando tudo com atenção.

Fiscalização?

Só pode.

Porque, pra o Igor estar ali naquele horário… alguma coisa deu muito errado.

E eu já estou pronta pra fazer o Augusto desembuchar.

Vou entrando, ligando as luzes no caminho, fazendo o básico.

E uma pergunta começa a incomodar:

Cadê todo mundo?

— A revoada deve ter sido boa… — comento sozinha, num tom meio arrastado.

Avisto o novato no meio do mercado, parado, com cara de quem acabou de perceber que fez uma escolha duvidosa na vida.

Sigo até o ponto.

De longe, vejo Igor conversando com Augusto.

Ou melhor…

Vejo Igor falando.

E Augusto apenas concordando com a cabeça, celular no ouvido, vermelho de raiva.

De branco, o homem conseguiu ficar vermelho.

Um talento.

Seguro a risada.

Profissionalismo, Clara. Profissionalismo.

Me aproximo.

— Bom dia.

Eles respondem — cada um à sua maneira — e Augusto já me entrega o caixa, como quem passa um problema adiante.

Perfeito.

Mais um dia comum.

Ou pelo menos… é o que parece.


Caminho até o meu caixa ainda meio no automático, quando a mulher que estava rondando os corredores simplesmente surge na minha frente, bloqueando meu caminho a poucos metros.

Ela me analisa.

Sem pressa.

Como se estivesse avaliando um produto… defeituoso.

— Você que é a mocinha atrasada para o serviço?

Estou tão atordoada que, por um segundo, nem capto o desdém na voz.

— Sim… houve um imprevisto, mas já estou aqui. — respondo, tentando manter o tom neutro. — A senhora precisa de ajuda com alguma coisa?

Ela solta uma risadinha curta, seca. Sem humor nenhum.

— Ainda se faz de sonsa…

…Oi?

Não entendo exatamente de onde veio aquilo. Mas paro. Olho pra ela. De cima a baixo.

E penso:

Se o que fosse de bonita fosse de educada… talvez desse até pra tratar melhor.

Olha… eu sei que me atrasei. E sei que não foram “só” trinta minutos.

Mas, sinceramente?

Estou ali, na minha folga, cobrindo turno dos outros… e ainda tenho que ouvir isso de uma mulher que claramente acordou decidida a ser insuportável?

Ah, não.

— Moça, primeiramente… bom dia. — digo, já com o pavio bem mais curto. — Espero que esteja bem. Mas eu preciso abrir o caixa pra te atender melhor, tudo bem?

O deboche veio fino. Bem treinado. Cortesia do próprio mercado.

E pelo olhar dela… acertou em cheio.

Se ela pudesse me estrangular ali mesmo, provavelmente já estaria escolhendo o ângulo.

Dou a volta no caixa, me agacho pra ligar o computador e começo a tirar o lixo — porque, claro, o turno da noite mais uma vez decidiu que isso não era problema deles.

Quando levanto, ela está parada na minha frente. Mão na cintura. Me encarando como se eu devesse explicações da minha existência.

Respiro fundo.

— Moça… mais uma vez… — começo, já impaciente. — você precisa de alguma coisa?

Enquanto movo o mouse pra abrir o sistema, faço um mantra mental:

Colabora. Só colabora. Não me faz perder a paciência.

Ela não responde.

Eu encaro de volta.

Com aquele olhar clássico de:

E aí? Vai falar ou vai continuar fazendo cena?

Ela ajeita a postura, inspira fundo…

— Garota… você não sabe mesmo com quem está falando?

Ah.

É esse tipo.

— Não, moça. Não conheço. — respondo, puxando a cadeira e me sentando. — Mas me diga… que celebridade a senhorita é?

Pronto.

Foi o suficiente.

Ela abre a boca, indignada.

E, sinceramente?

Estou começando a me divertir.

— É assim que vocês tratam os clientes por aqui?

— Não. — respondo, leve. — Só os mal-educados e antipáticos… como vossa senhoria.

Reviro os olhos, cumprimento uma cliente que entra no mercado e completo:

— E, olha… vai por mim. Eu ainda sou a melhorzinha daqui.


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O acaso a meu favor - Página 05


O acaso a meu favor - Página 03

 Pagina 03 – Capitulo 01.


Ao acordar na manhã seguinte, abri os olhos com um suspiro determinado, como de costume. Tomei um banho gelado para despertar o corpo — e, principalmente, a mente. Ao sair do quarto, passei pelo corredor que levava diretamente ao escritório do meu falecido pai. Um sentimento de conforto invadiu meu coração e me deixou ainda mais determinada a cumprir o que vim fazer aqui, em Caldas Novas.


Chegando à cozinha, senti o cheiro de café fresco perfumando o ambiente. Logo, minha voz soou:


— Acredito que vou querer uma xícara de café. — Disse com um leve sorriso.

Meu irmão, ao me ver sentando à mesa ao seu lado, abriu um grande sorriso — como se estivéssemos recriando uma memória antiga.

— Bom dia, minha irmã. — Disse ele, me cumprimentando com um beijo no rosto.


Vi Lia terminando de preparar o café que perfumava toda a casa. Logo ela se juntou a nós à mesa e a cumprimentei com um abraço apertado. Percebi sua felicidade ao me ver ali, e ela disse:

— Verônica, você não sabe a felicidade que é te ter de volta em casa.


Senti a sinceridade em suas palavras. Eu e Lia sempre nos demos muito bem. Lembro de algumas mensagens em que ela me contava o quanto Igor estava desesperado e preocupado com a situação do mercado.

Eles estão juntos há cerca de três anos. No ano passado, durante o aniversário de Lia, Igor a pediu em casamento — e a felicidade se espalhou por ambas as famílias. Fiquei emocionada ao saber que meu irmão encontrou a pessoa certa para fazer um pedido tão importante.

Entre risadas e brincadeiras, eu e meu irmão seguimos em seu carro, rumo ao mercado fundado por nosso pai.

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Ao parar o carro em frente ao mercado, uma avalanche de sentimentos — que até então eu tentava ignorar — veio como um soco no estômago. Permiti que algumas lágrimas escorressem, mas logo tratei de limpá-las. Como apoio, recebi um aperto reconfortante no ombro do meu irmão.


Esperamos o gerente abrir o mercado. Permanecemos em silêncio, pois meu irmão, que me conhece bem, sabe que para corrigir cada erro que levou nosso comércio à beira da falência, duas coisas são fundamentais: paciência e, principalmente, muita observação.


E, nesse curto tempo, já observei duas falhas: o atraso na abertura do mercado e a quantidade de funcionários que chegaram depois do horário. Esperamos cerca de vinte minutos até que, enfim, abrimos as portas do carro e saímos — cada um de um lado. A primeira impressão é a que fica, certo? Pois essa... ficou.


— Igor... — o chamei de forma a captar sua atenção. — Tem alguém responsável pela limpeza externa do mercado?


Antes de me responder, ele observou ao redor: calçadas, paredes, entradas. Então, virou-se para mim e respondeu, um pouco constrangido:


— Iremos cuidar disso. — disse, visivelmente envergonhado ao perceber a situação em termos de “primeira impressão”.


Percebi também que as paredes estavam bem desgastadas pela pintura antiga. Os banners que anunciam o que oferecemos estavam tão desbotados quanto, dificultando a leitura e a visualização do conteúdo. Nota mental: isso precisa ser resolvido com urgência.

Ao entrar no mercado, senti a ausência de uma figura crucial para o funcionamento do local: a caixa.

Igor, percebendo a mesma ausência, seguiu para dentro do mercado à procura da funcionária responsável pela função. Já haviam se passado trinta minutos do horário de abertura e todos os computadores e luzes do local ainda estavam desligados.


Aproveitei sua ausência e comecei a caminhar pelos corredores do mercado. Logo percebi a falta de organização e a negligência do funcionário responsável por algumas seções. Em contrapartida, outros corredores estavam impecáveis — um claro reflexo do comprometimento e eficiência de quem cuida deles. Outra nota mental: preciso conhecer cada funcionário. Especialmente os que fazem bem o seu trabalho.


Caminhando mais um pouco, encontrei caixas abertas e espalhadas nos corredores, como se alguém estivesse repondo os produtos, mas não tivesse conseguido finalizar — ou, pior, simplesmente tivesse deixado para terminar no dia seguinte.

Aproveitei o passeio para observar a estrutura do ambiente e percebi que, para arrecadar dinheiro, primeiro será preciso investir. O lugar precisa, no mínimo, parecer confortável para quem entra. Algumas lâmpadas estavam queimadas, prateleiras empenadas, e até os ventiladores precisavam de manutenção.


Antes de pensarmos em reerguer este lugar, será preciso uma boa reforma. E, para isso, preciso saber exatamente quanto temos em caixa, e se ainda existe algum valor disponível para realizar essa manutenção geral no mercado.


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O acaso a meu favor - Página 04

O acaso a meu favor - Página 02

 Pagina 02 – Capitulo 01.


Hoje estou mais cansada do que imaginei que estaria ao longo da semana.

Era folga da Juliana. A Thaís ainda está de férias.
E, como sempre… sobrou pra mim.

Dois turnos.

Segunda-feira costuma ser tranquila — pouco movimento, pouca confusão. E, para muita gente, isso seria um alívio.

Pra mim… é perigoso.

Porque cabeça vazia nunca vem sozinha.

Hoje apareceram vários vendedores atrás do Augusto — gente oferecendo produto, cobrando reposição, tentando empurrar qualquer coisa que coubesse nas prateleiras. Enquanto isso, eu e o Luís ficávamos nos bastidores, recebendo mercadoria das empresas com contrato.

Juliana de folga.
Seu Francisco também.

Ou seja… o essencial funcionando no limite.

Luís ficou responsável pela perfumaria e pelos congelados. Eu, com o cuidado de quem pisa em vidro, cuidava das mercadorias próximas ao caixa — Havaianas, doces, chocolates…

Coisas pequenas.
Mas que, se derem errado, viram problema grande.

E problema… é a última coisa que eu quero levar pra casa.

Já passava das 17h40 quando vi o Antônio pegando as chaves da mão do Igor e saindo com a caminhonete branca. Estranhei por um segundo… mas deixei pra lá.

Antônio não é só funcionário.
É praticamente uma extensão do dono.

Se saiu, tinha motivo.

Ou pelo menos… era o que eu preferia acreditar.

Quando terminamos de receber tudo, fizemos o possível pra adiantar a reposição. Priorizamos os congelados — sempre. O que não deu tempo, ficou pelos corredores, separado pro Francisco resolver no dia seguinte.

Mais um acúmulo.

Mais um amanhã sobrecarregado.

A noite caiu devagar… e com ela, o movimento também.

O mercado foi ficando vazio. Silencioso.

Augusto se trancou no escritório.

E, de repente, era só eu… e aquele espaço grande demais.

Foi aí que ela veio.

Camila.

Me sentei no caixa, deixando o corpo descansar por alguns segundos. Mas a mente… essa não obedece.

Ela corre.

Volta.

Insiste.

O término com a Camila despertou algo em mim que eu ainda não sei nomear. Não é força. Não é superação.

É sobrevivência.

Pura.

Crua.

Muitas das nossas brigas começaram exatamente por isso…
pelo que eu estou fazendo agora.

Trabalhando demais.

Turnos dobrados.
Cansaço acumulado.
Uma promessa constante de que era só “por enquanto”… que tudo aquilo era pra construir um futuro melhor pra nós.

Mas não foi suficiente.

Nunca foi.

E o que era só desgaste virou rachadura.

Depois, virou abismo.

Traições.
Desrespeito.
Discussões que não levavam a lugar nenhum.
Chantagens emocionais.
Refúgio em vícios.

E, no fim… ela foi embora.

Três anos tentando consertar algo que não fui eu quem quebrei.

Três anos… pra nada.

Tento afastar esses pensamentos, mas eles não vão.

Eles se acomodam.

Pesam.

Se repetem.

Como um filme que alguém esqueceu de desligar dentro da minha cabeça.

E eu fico ali…

Assistindo tudo de novo.

Sem poder pular nenhuma cena.


O silêncio do mercado já começava a pesar diferente.

Não era mais aquele silêncio de fim de expediente — era o tipo que faz a gente pensar demais… sentir demais.

Passei a mão no rosto, como quem tenta acordar de um pensamento ruim, e endireitei a postura na cadeira.

— Chega, Clara… — murmurei baixo, mais pra mim do que pra qualquer outra coisa.

Porque, se eu deixasse… eu afundava.

E hoje, definitivamente, não era um bom dia pra isso.

Voltei minha atenção para o caixa, organizei alguns papéis sem necessidade nenhuma — só pra ocupar as mãos, já que a cabeça insistia em não colaborar.

Foi então que, ao olhar para a entrada, vi o Antônio passando em frente ao mercado, seguindo em direção à garagem para guardar a caminhonete do Igor.

Menos de três minutos depois, ele reaparece.

E, claro… não poderia entrar de forma normal.

— E então, Clara... — diz ele, surgindo com aquele sorriso malicioso que já vem com problema embutido —, quando vamos sair pra tomar uma cerveja?

Reviro os olhos, mas não seguro o canto do sorriso.

— Antônio, eu gosto de mulheres.

Ele nem pisca.

Solta uma gargalhada e devolve, na maior naturalidade do mundo:

— Mas eu posso ser a Antônia pra você!

E pronto.

Não teve jeito.

A risada escapou antes que eu pudesse segurar, enquanto balançava a cabeça em pura incredulidade.

Porque, no meio de tanto caos…

Sempre tem alguém disposto a fazer a gente esquecer — nem que seja por alguns segundos.


Ao chegar em casa, avisto meu gato Bento todo jogado no sofá. Dou uma risada nasal com a cena. Ao perceber que cheguei, ele faz a maior festa, se esfregando nas minhas pernas. Pego-o no colo e dou logo uns beijos naquele gorducho... e, mal se passam alguns segundos, lá estou eu cuspindo os pelos que ficaram na boca.


Solto-o pela casa e, então, encaro o vazio daquele apartamento. Imaginar que aqui já foi palco de brigas, discussões… mas também de sorrisos, músicas, muito amor e carinho. Porém, para viver o lado bom, eu precisava aceitar coisas que meu orgulho não suportava — e então o fim se fez necessário.


Espanto esses pensamentos ao perceber que estava prestes a cair numa armadilha emocional que me machucaria até adormecer. Me apresso em neutralizar aquele sentimento com um banho gelado.

Ao sair do banho, passo em frente ao espelho da sala. Não sei por que milagre ele ainda está intacto, conhecendo bem o gato que tenho... Quase tudo nessa sala foi destruído acidentalmente pelo querido Bento do meu coração.


Enfim, ao me olhar, percebo o quão maltratada estou. Os cabelos vivem presos, as sobrancelhas mais parecem monocelhas, as olheiras denunciam noites mal dormidas... Estou com a aparência de uma mulher abandonada — o pior, abandonada por si mesma.

Com esses pensamentos, visto uma roupa leve e vou dormir com o propósito de começar a me cuidar mais. Porque ninguém merece me ver nesse estado vegetativo pós-término.

 

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O acaso a meu favor - Página 03

O acaso a meu favor - Página 91

Por Clara III: Ao sair do mercado do Valentino, solto o ar que nem percebi que estava prendendo. Vem um alívio. Mas junto dele, um sorriso t...