quarta-feira, 25 de junho de 2025

O acaso a meu favor - Página 05

 

                          Pagina 05 – Capitulo 01.

Narração por Verônica:


Não.

Eu não acredito no que essa garota acabou de me dizer.

Na minha cara.

Sem o menor receio.

Ou ela não sabe com quem está falando…

ou simplesmente não se importa.

E, sinceramente? Ainda não sei qual das duas opções me irrita mais.

Vejo meu irmão vindo na minha direção, acompanhado de um homem — cerca de trinta anos, postura tensa.

O gerente, imagino.

Ele para à minha frente e me cumprimenta. Educado. Rápido. Claramente já ciente de quem eu sou.

Ou pelo menos deveria estar.

Igor guarda o celular, observa a cena… e então resolve, com uma tranquilidade quase irritante:

— Augusto, Clara… acho que ainda não apresentei vocês à minha irmã.

Pausa.

Eu observo.

A garota.

O gerente.

Os dois.

— Essa é a Verônica. Minha irmã mais velha.

Ah…

Agora sim.

Viro lentamente na direção dela.

E a expressão que encontro?

Impagável.

Pânico.

Confusão.

Arrependimento.

Tudo junto.

O gerente ao lado parece querer desaparecer. Eles trocam um olhar rápido — quase um código silencioso de “ferrou”.

— Ah… sim… eu… — ela começa, claramente tentando lembrar meu nome.

— Cla… Clara… dona… Ve… Verônica…

O “dona” sai atravessado.

Quase engasgado.

Interessante.

— Clara… — digo, firme. — acredito que temos muito o que conversar sobre o seu atendimento.

Ela encolhe os ombros, num misto de vergonha e resistência, e apenas assente.

Não perco tempo.

Chamo o rapaz que estava limpando a entrada, peço para abaixar parcialmente a porta do mercado e espero até ter a atenção de todos.

Silêncio.

Perfeito.

— Bom… agora que todos sabem quem eu sou… — começo, com a voz firme — preciso que entendam uma coisa.

Todos me olham.

Sem exceção.


— Eu não vim aqui a passeio.

Faço uma breve pausa.


— Vim para, junto com o meu irmão, assumir a gestão do Empório da Economia.

O impacto vem em ondas.

Olhares trocados.

Posturas mudando.


— E já deixo claro… haverá mudanças.

Olho ao redor.

Sem pressa.

Sem suavizar.

Igor me observa, atento, mas não interfere.

O gerente… curiosamente… parece até aliviado.

Depois de alguns minutos, com o restante dos funcionários finalmente chegando, concluo:

— E todos aqueles que chegaram atrasados…


Lanço um olhar direto para o gerente.

— Advertência por escrito.


Silêncio.

Denso.

Pesado.


Então deixo meu olhar cair… exatamente onde quero.

Clara.

— Incluso você.


Ela me encara.

Confusão.

Revolta.

E, talvez… pela primeira vez…

Consequência.


A moça do caixa — que acabei de descobrir se chamar Clara — reage no exato momento em que menciono a advertência. Não apenas pelo atraso, mas pela forma como conduziu o atendimento.

Não sei se aquela postura foi exclusiva comigo.

Mas, ainda assim… cortar o mal pela raiz é essencial.

— É sério isso? — ela pergunta, incrédula.

— É só um procedimento, Clara. — respondo, com firmeza. — Você foi ríspida e me atendeu de forma desrespeitosa. Imagina se fosse um cliente?

E antes que ela diga qualquer coisa, continuo:

— Não é pessoal. — viro-me para os demais funcionários. — Preciso manter um padrão. As penalidades devem ser aplicadas de forma igual para todos.

Observo o restante da equipe chegando aos poucos, quase sorrateiros. Alguns evitam contato visual. Outros… claramente ainda carregam os resquícios de uma noite mal dormida — ou bem vivida demais. O cheiro de álcool denuncia um deles antes mesmo de qualquer explicação.

Arrumo os óculos, retomando o controle da situação.

— Aos que chegaram agora: tudo o que foi dito será enviado no grupo do WhatsApp.

Faço uma pausa.

— Agora… preciso saber de algo.

Todos me encaram.

Inclusive Clara.

E, diferente dos outros, ela não disfarça o desdém.

— Passei por algumas seções e encontrei… eficiência. — digo, medindo as palavras. — E outras… um completo fiasco.

Passo a mão pelos cabelos, levemente impaciente.

— Quem é responsável pelas seções de chocolates, sucos e destilados?

Uma mão se levanta.

A mesma.

Clara.

Assinto, lentamente.

— Certo… — continuo. — E a parte da limpeza? Corredores, calçadas, banheiro…

A mesma mão se ergue novamente.

Dessa vez, não é surpresa.

É… desconforto.

Faço uma última pergunta, já com uma sensação incômoda se formando.

— Existe alguém ausente hoje? Folga ou falta?

Silêncio.

Então—

— Eu, Verônica.

Meu nome sai da boca dela com uma precisão quase cirúrgica.

— Hoje era pra ser minha folga.

Algo no tom dela muda o ambiente.

— Ontem eu fiz dois turnos… cobrindo a caixa que faltou hoje. — continua. — E, na ausência do repositor, eu e o Luís recebemos todas as mercadorias dessas seções que você acabou de citar.

Sinto minha expressão mudar.

Minimamente.

Mas o suficiente.

— Então… desculpa — ela ajusta a alça da mochila, com calma — se eu não te recebi com um sorriso, te dei boas-vindas e fiz um tour pelo mercado.

O sarcasmo agora não é mais escondido.

É declarado.

E, pela primeira vez, eu enxergo com clareza.

Não é apenas uma funcionária.

É alguém sobrecarregada.

E ainda assim… eficiente.

Até demais.

O suficiente para me enfrentar.

Mesmo agora.

Mesmo sabendo quem eu sou.

— E sim… — ela continua — eu vou assinar sua advertência com o maior prazer.

Dá um passo para trás.

Depois outro.

Já se afastando.

— Mas agora… — diz, virando-se em direção à saída — eu vou voltar pra minha folga.

Pausa.

Ela olha por cima do ombro.

— Porque, até onde eu sei… eu ainda tenho esse direito. Não é mesmo?

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