segunda-feira, 2 de março de 2026

O acaso a meu favor - Página 86

Por Verônica.

Não pensei duas vezes. Abri a porta com força, chamando a atenção de um dos repositores que organizava produtos perto da minha sala.

Quando me aproximei da entrada do mercado, ouvi, na lateral, a voz carregada de raiva de uma mulher mais velha. Clara estava na frente dela, com a expressão de pura culpa.

Mas ela disse que não tinha nada com essa mulher… pensei.

Assim que nossos olhos se encontraram, Clara me lançou um olhar assustado, daqueles que imploram: “Posso explicar.”

A outra revirou os olhos, como se a minha presença fosse um incômodo.
Desgraçada.

— Não lembro de ter me pedido, nem ao Augusto, pra sair do caixa, Clara — falei, ríspida.


Clara abaixou a cabeça quando falei. O peso da culpa era visível.

Estava sozinha no caixa naquela manhã — a cidade vazia, o mercado quieto demais.

— Volta pro caixa, Clara — pedi, firme, mesmo sentindo o peito apertar.

Ela saiu sem discutir. E quando sumiu de vista, o silêncio entre nós ficou insuportável.
Olhei para a mulher.

— Você realmente não entendeu o que eu disse ontem?

— Não! — ela respondeu, com um meio sorriso provocador. 

— Porque quem falou foi você por ela.
Respirei fundo. A lembrança de ontem ainda queimava, misturada com uma insegurança que eu odiava sentir.

— Vai por mim… aquilo que fizemos ontem foi a confirmação da minha resposta pra você.— devolvi, fuzilando-a com o olhar, apesar da ponta de insegurança que aquela mulher ainda me causava.

Por um instante, vi a raiva nos olhos dela… e também a dúvida.

Foi aí que encontrei coragem.

— Se você se importa minimamente com ela… vai embora. Some da vida da Clara!

Era uma ordem… mas também um pedido.

Ela me fuzila com o olhar.
Por um segundo, tenho certeza de que vai me confrontar ali mesmo, na frente de todo mundo.
Mas o que vem em seguida não é confirmação.
É trégua.

Uma trégua silenciosa, pesada, que me atinge mais do que qualquer discussão.

— Tudo, tudo bem — ela diz, com um ar de rendição que não combina com ela. — O importante é ela estar bem.
Aceitação.

Falsa.

Consigo ver no jeito como os ombros dela ficam tensos, no sorriso que não alcança os olhos.

— É — respondo.

E continuo encarando.
Porque desviar agora seria admitir demais.
Ela sustenta meu olhar por mais alguns segundos — tempo suficiente para que tudo que não pode ser dito passe entre nós — e então sai, ainda me olhando, como se estivesse esperando que eu a dissesse mais alguma coisa.

Não tenho mais nada a falar.

Passo as mãos pelos cabelos, jogando-os para trás, num gesto impaciente que entrega mais do que eu gostaria.

É quando percebo.

Algumas das poucas pessoas que já estão no mercado observam a cena.

Rápido demais para ser discreto.
Lento demais para parecer natural.
Endireito a postura imediatamente.

— Bom dia. — cumprimento, com uma educação ensaiada, automática, aquela que uso quando preciso lembrar a todos — e a mim mesma — quem eu sou ali dentro.

A Dona.
A mulher que está no controle.
A que não se envolve.
Volto para o escritório sem olhar para a Clara.
Não porque não quero.

Mas porque, se olhar, eu volto.

E hoje eu preciso que ninguém perceba o quanto isso já passou do ponto profissional.

Fecho a porta atrás de mim com um pouco mais de força do que o necessário.

Só então permito que o ar escape dos meus pulmões.
________________________

Ao me obrigar a focar no que realmente importa, repito para mim mesma que tenho problemas demais no mercado para me distrair com um simples rolo de trabalho.

"Rolo."

A palavra volta como um incômodo físico.
Como se tivesse gosto.

Como se denunciasse a mentira que estou tentando contar para mim mesma desde que a conheci.

As horas passam sem que eu perceba direito. Ou talvez eu esteja apenas fingindo que estou produzindo. Quando levanto os olhos das planilhas e olho para o salão, vejo Clara vindo com um papel na mão.

Ela para no caixa.
Deixa a folha ali.
E sai.

Três clientes esperando.

Meu corpo reage antes da minha cabeça.
Algo está errado.
Saio da sala.

O cenário me atinge de uma vez só.
Mercadoria espalhada no meio do mercado.

Caixas abertas.
Produto sendo reposto.
Sem conferência.
Sem autorização.
Sem controle.

Sinto o estresse subir instantaneamente.

— Como você não perguntou a ninguém se essa nota era daqui? — A vejo perguntar com a voz firme, cortante, direcionada ao rapaz ao lado das caixas.
Ele se encolhe.

— Desculpa… o Augusto só pediu para eu receber.

O nome dele a faz travar o maxilar.

— Cadê o Augusto?

Ninguém sabe.
Ótimo.
Perfeito.
É quando percebo que Clara está ali.
Não perdida.
Não nervosa.
Atenta.

O olhar dela vai de mim para a mercadoria, da mercadoria para o funcionário, como se estivesse segurando aquela situação sozinha há tempo demais.

— Clara, o que você está fazendo aqui? — pergunto, e o meu tom sai mais arrogante do que eu gostaria.

 — O caixa tem três clientes esperando por uma operadora.

Assim que ela se vira para mim, eu sinto.
Não é a Clara de hoje cedo.
É a do primeiro dia.
Postura reta.
Olhar firme.
Profissional.
E aquilo me atinge em cheio.

— Cadê o "seu" gerente? — ela pergunta, enfatizando de propósito.

Não é sobre hierarquia.
É sobre responsabilidade.

— Está no intervalo. Por quê? — respondo, já sentindo que perdi o controle da situação em algum ponto que não vi.

Ela respira fundo antes de falar. Controle. Clara também está se controlando.

— Porque ele autorizou um funcionário sem experiência suficiente a receber mercadoria. — diz, medindo as palavras para não expor o rapaz.
Estendo a mão.

- E pior, mercadoria do mercado do Valentino.

Nesse momento sinto a fúria subir pelo meu pescoço.

Ela me entrega a nota sem hesitar.
O toque dos nossos dedos é rápido.
Elétrico.
Indesejado naquele momento.
Confiro.
Valor.
Pedido.
Empresa.
E o mundo para por um segundo.

— Como que o Augusto recebe a droga das mercadorias daquele homem?

Minha voz sai mais baixa, mais perigosa.

Levanto os olhos.
E vejo o estrago.
Caixas abertas.
Produtos já misturados com os nossos.
Reposição pela metade.
Não é mais um erro.
É um prejuízo.
Sinto o sangue esquentar.
Passo as mãos pelos cabelos, tentando organizar a cabeça, enquanto faço o cálculo automático de tempo, retrabalho, troca com fornecedor, conferência de estoque.

Problema.
Grande.
Quando olho para Clara outra vez, ela está me observando.

Não com desafio.
Não com julgamento.
Mas esperando.

Esperando que eu assuma.

Que eu resolva.
Que eu seja a Verônica que ela conhece.
E isso me desmonta mais do que qualquer confronto.
Porque ela veio até mim.
Ela deixou o caixa.
Ela quebrou o protocolo.
Em favor do mercado.

E eu estava ocupada demais chamando isso de rolo.
.
— Para tudo — digo, assumindo o comando, a voz firme voltando ao lugar. — Ninguém mexe em mais nada.

Clara solta o ar discretamente.

Alívio.
Confiança.
Parceria.

Mesmo que a gente não tenha resolvido o que está entre nós.


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domingo, 22 de fevereiro de 2026

O acaso a meu favor - Página 85

Por Verônica.

Ao perceber que já nos colocamos em risco demais, puxo-a para mim só para sentir o peso do corpo dela contra o meu e o ritmo da sua respiração misturado ao meu. — Já está na hora de sairmos daqui, se não quisermos problemas — digo, baixo, mesmo que cada parte de mim queira prolongar aqueles segundos.

Vejo-a assentir. Não nos beijamos. Apenas ficamos ali, compartilhando o mesmo ar, o mesmo calor, o mesmo silêncio cheio de tudo. Deixo que ela saia primeiro e, assim que a porta que leva ao galpão se move, o som do metal arrastando atravessa meus ouvidos alto demais para aquela manhã ainda adormecida.

— Verônica? — ouço a voz do Augusto no meio do breu. — O que está procurando nesse escuro?

Agradeço mentalmente ao meu cérebro por funcionar tão rápido quando preciso de uma resposta — seja ela totalmente verdadeira ou não.

 Ainda sinto o cheiro da Clara na minha roupa e preciso vestir a minha expressão de rotina antes que a luz revele qualquer coisa.

— Bom dia, Augusto — o cumprimento com uma tranquilidade que não corresponde ao que meu coração está fazendo agora.

O silêncio do galpão parece amplificar tudo.

— Eu pedi para a Clara ligar para mim. Não a viu pelo corredor? — digo, escolhendo as palavras com cuidado, me equilibrando naquela linha tênue entre a verdade e a mentira.

Não consigo ver a expressão dele na escuridão, mas o pequeno intervalo antes da resposta faz meu corpo inteiro ficar em alerta.

— Sim, sim. Eu a vi.

E então a luz se acende.
Branca. Direta.
Revelando nossos rostos, nossas feições ainda marcadas pelo início da manhã — e, no meu caso, pelo que acabou de acontecer.
Piscar se torna necessário, mas mantenho a postura firme. Profissional. Intocável.
Por dentro, ainda estou no escuro com ela.

Ao pegar minha bolsa em cima de uma das prateleira do galpão, vejo Augusto se afastar em direção ao salão para ajudar os meninos a abrir o mercado. Só então percebo que já chegaram os outros funcionários. 

Quando ele some do meu campo de visão é que solto o ar preso nos pulmões.

Um suspiro longo. Necessário.

Como aquela menina conseguiu seguir exatamente a minha linha de raciocínio?

A pergunta vem acompanhada do gosto dos lábios dela ainda vivo na minha boca, como se o beijo tivesse acontecido há segundos, e não minutos.

Passo a língua discretamente sobre os lábios, num gesto automático, e fecho o armário.
Sigo para o meu escritório.
Ali dentro, protegida pela porta que se fecha atrás de mim, volto a ser a Verônica de todos os dias. A que resolve. A que decide. A que ninguém questiona.

Ligações.

E-mails.

Planilhas.

Números.

Pedidos.

Respostas firmes.

O mundo volta para o eixo da rotina, mas meu corpo ainda carrega o eco do que aconteceu no escuro do galpão.
……

As horas passam sem que eu perceba.
Só noto o tempo quando, quase por instinto, meus olhos procuram por Clara nas câmeras.
E ela não está.
O alerta é imediato.

Franzo a testa e olho para o relógio.
Ainda não é o horário de almoço dela.
Até porque ela vai almoçar comigo.
A certeza disso é tão natural que a ausência dela começa a me incomodar de verdade.
Abro todas as câmeras, uma por uma, percorrendo cada corredor do mercado, cada setor, cada ponto cego que eu conheço de cor.
Até que encontro.

E o que vejo faz meu maxilar travar.
Clara.
Com ela. De novo.
Elise.

Sinto o sangue ferver de um jeito rápido e perigoso, completamente diferente da calma calculada que sustentei durante toda a manhã.

Meu corpo se inclina para frente na cadeira sem que eu perceba, como se a proximidade com a tela pudesse mudar alguma coisa.

O jeito como Elise fala perto demais.
A forma como Clara se mantém ali.
O tempo que dura.
Tempo demais.

Uma irritação densa sobe pelo meu peito, misturada com algo que reconheço na mesma hora e que me recuso a nomear.
Não é só raiva.
É pior.

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O acaso a meu favor - Página 84

 Por Clara…

Ao tentar presumir o que Verônica queria fazer, não sei se entro em pânico ou em êxtase. Quando a vejo olhar para o relógio de pulso, ouço o barulho da porta se abrindo. Um meio sorriso travesso me escapa antes mesmo de eu perceber, e quando ela me dá as costas, entendo exatamente o que devo fazer. Não penso duas vezes antes de segui-la.

Enquanto caminho atrás dela, não consigo evitar analisá-la. A saia lápis desenha o corpo de um jeito que parece calculado, firme, seguro. A blusa social vermelha — um marsala elegante — contrasta com a postura confiante que ela carrega sem esforço algum. Verônica anda como quem sabe exatamente quem é. E isso me desarma.

Ela abre a porta lateral do mercado, olha rapidamente para os lados antes de entrar. Meu coração acelera com o simples gesto. Tudo ali parece clandestino demais para uma manhã comum.

Assim que entro, ela fecha a porta atrás de nós com cuidado excessivo. O silêncio do lugar vazio nos envolve. O mercado ainda dorme, mas meu corpo está completamente acordado.

— "A gente tem alguns minutos" — ela dizia, em tom baixo, quase sério demais para quem claramente está sentindo o mesmo que eu.

Cruzo os braços, tentando fingir normalidade.

— Você sempre irá fazer isso? — provoco. — Me sequestra cedo, me trazer para lugares vazios…

Ela ri de canto, aquele riso que não mostra tudo, mas promete.

— Só quando vale a pena.

Nos encaramos por tempo demais. O espaço entre nós diminui sem que nenhum passo seja dado. Sinto o cheiro dela de novo, aquele mesmo da noite passada, e meu estômago reage imediatamente.

— Verônica… — começo, sem saber exatamente o que dizer.

Ela inclina levemente a cabeça, atenta, como se cada palavra minha importasse mais do que deveria.

— Clara — responde, usando meu nome como se fosse algo delicado.

E ali, naquele mercado ainda fechado, com o medo de alguém chegar a qualquer segundo, percebo que não é só desejo.

É vontade de ficar.

Mesmo quando não é o lugar.

Mesmo quando não é a hora.

Verônica dá um passo à frente, finalmente rompendo o espaço invisível que nos separava. O ar parece mais denso quando ela se aproxima, como se o mundo lá fora tivesse sido suspenso só para aquele instante.

Sinto os dedos dela tocarem minha cintura com cautela primeiro, quase pedindo permissão. Mas o toque esquenta rápido, firme, decidido. Meu corpo responde antes que minha mente consiga formular qualquer argumento sensato. Seguro o tecido da blusa dela entre os dedos, sentindo a textura macia sob minhas mãos, a temperatura da pele que aquece por baixo.

Ela me olha como se estivesse confirmando algo que já sabia.

E então me beija.

Não é um beijo apressado. É um beijo que carrega um peso doce, um gosto de reencontro. Os lábios dela demoram nos meus como se estivessem reaprendendo o caminho. Há cheiro de perfume misturado ao café que provavelmente tomou antes de sair de casa. Há cheiro de saudade — aquele impossível de explicar, mas que eu reconheceria em qualquer lugar.

Ela desliza uma das mãos para minha nuca, os dedos se entrelaçando no meu cabelo com delicadeza possessiva. Meu coração dispara de um jeito quase irritante. Eu me aproximo mais, pressionando nossos corpos, sentindo a firmeza dela, a segurança que me envolve inteira.

Quando o beijo se aprofunda, solto um suspiro contra a boca dela. Verônica responde com um som baixo, quase um murmúrio satisfeito, como se estivesse esperando por aquilo desde sempre — ou, pelo menos, desde a última vez que estivemos assim.

Ela se afasta por um segundo, só o suficiente para encostar a testa na minha. Nossos narizes se tocam de leve. Os olhos dela estão mais escuros.

— Eu estava com saudade — ela admite, a voz rouca, sincera demais para alguém tão controlada.

Eu arqueio uma sobrancelha, fingindo indignação enquanto ainda tento recuperar o fôlego.

— Não acredito que estava com tantas saudades, nos vimos a poucas horas.

Ela ri baixinho, aquele riso que vibra no peito e passa direto para o meu. Os dedos dela apertam levemente minha cintura, como se estivesse me punindo pela provocação.

— Algumas horas são demais — responde, roçando o polegar na minha pele, desenhando círculos lentos que me fazem arrepiar. — Principalmente depois de ontem.

Sinto meu rosto esquentar, mas não recuo. Pelo contrário, puxo-a de volta pela gola da blusa, selando nossos lábios outra vez, dessa vez com menos paciência e mais verdade.

O beijo ganha intensidade, mas ainda carrega cuidado. Há pressa no toque, mas não há desespero. Só vontade. Vontade de ficar ali, mesmo com o risco, mesmo com o relógio correndo contra nós.

Quando finalmente nos afastamos, o silêncio do mercado parece diferente. Não é mais vazio. Está carregado de respirações descompassadas e olhares que dizem mais do que qualquer declaração poderia dizer.

Verônica encosta a testa na minha de novo, fechando os olhos por um instante.

E eu percebo que, se dependesse de mim, o mercado poderia abrir, o mundo poderia bater à porta.

Eu ainda escolheria ficar exatamente ali. Com ela.

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O acaso a meu favor - Página 91

Por Clara III: Ao sair do mercado do Valentino, solto o ar que nem percebi que estava prendendo. Vem um alívio. Mas junto dele, um sorriso t...