O cartão ainda está na mão dele quando tudo muda.
O olhar deixa de ser curioso.
Fica técnico.
Frio.
Profissional.
— A nota fiscal — ele pede, estendendo a mão como se estivesse acostumado a ser atendido imediatamente.
Não há grosseria.
Mas também não há espaço para hesitação.
Procuro na pasta que trouxe apertada contra o peito e entrego o papel.
Ele não pega de qualquer jeito.
Confere primeiro o cabeçalho.
O CNPJ.
O endereço.
A data.
Cada detalhe.
Luiz e eu ficamos em silêncio, como dois alunos diante de uma prova oral.
— Quem recebeu essa mercadoria? — pergunta, sem tirar os olhos do documento.
— Um funcionário novo — respondo.
Ele solta um “hum” quase imperceptível.
Então estende a nota para um dos encarregados ao lado.
— Confere item por item.
Aponta para outro funcionário.
— Você, com eles. Verifica as quantidades.
É automático.
É organizado.
É rápido.
Em poucos segundos, estamos cercados por gente abrindo caixas térmicas improvisadas, conferindo códigos, olhando validade, passando as mãos nas embalagens já geladas pela umidade.
Eu observo tudo com o coração na garganta.
Não tem mais como voltar atrás.
— Onde está o restante da mercadoria?
A pergunta vem direta.
Sem olhar para mim.
— No nosso estoque. Nós trouxemos primeiro os congelados por causa da temperatura — respondo, tentando manter a voz firme.
Agora ele me olha.
Direto.
E assente de leve.
Como se aquilo fosse exatamente a resposta que ele esperava.
— Pelo menos alguém pensou.
Não sei se é um elogio.
Não sei se é uma provocação.
Mas sinto o rosto esquentar.
Os minutos passam arrastados.
Cada “confere”.
Cada “ok”.
Cada produto recolocado nas caixas.
É um julgamento.
E eu sinto como se estivesse sendo avaliada junto com eles.
Valentino pega novamente a nota, faz algumas marcações com uma caneta que surgiu do nada, confere com o que os funcionários dizem em voz baixa.
O silêncio ao redor começa a chamar atenção de quem entra no mercado.
Eu só consigo pensar em uma coisa:
Verônica.
No que ela faria.
Na forma segura como ela falaria.
Na postura que ela teria.
Endireito os ombros.
Não por mim.
Por ela.
Por representar o mercado dela aqui.
Por não deixar que isso vire motivo de deboche.
— Certo! — ele diz por fim, dobrando a nota com calma. — A conferência está correta.
Meu coração dispara.
Mas ele ainda não terminou.
Ele nunca termina na primeira frase.
Ele dá um passo na minha direção.
Perto o suficiente para que só eu ouça o resto.
— Eu vou aceitar a devolução.
O ar volta para os meus pulmões de uma vez só.
Luiz solta o fôlego ao meu lado.
Mas então vem o sorriso.
Aquele sorriso de canto.
Aquele que não é bondade.
É aviso.
— Mesmo fora das embalagens corretas.
Ele inclina levemente a cabeça.
— Considere isso… uma exceção.
Sinto que tem mais.
E tem.
— Porque foi você quem veio trazer.
As palavras param no ar entre nós.
— E não a arrogância da família Moreli.
É como um tapa.
Não em mim.
Nela.
E isso dói de um jeito absurdo.
Meu maxilar trava.
Porque eu sei que ele quer uma reação.
Quer que eu defenda.
Quer confirmar alguma coisa.
Mas eu não dou.
Não ali.
Não no mercado dele.
Não na frente dos funcionários dele.
Engulo seco.
— Obrigada por aceitar a devolução. — respondo, profissional.
Fria.
Do jeito que a Verônica faria.
O sorriso dele aumenta um milímetro.
Como se tivesse entendido exatamente o que aconteceu dentro de mim.
— Não haverá uma próxima vez amigável.
Agora é para todos ouvirem.
Para mim.
Para o Luiz.
Para os funcionários.
Para o mercado inteiro.
Um aviso.
Uma linha traçada.
Uma guerra declarada sem precisar levantar a voz.
Assinto.
Porque não tem mais nada que eu possa fazer.
Os funcionários começam a recolher as mercadorias.
O carrinho vai ficando vazio.
E, com ele, uma parte do peso que eu estava carregando.
Mas não tudo.
Porque o nome dela ainda está ecoando na minha cabeça.
“Arrogância da família Moreli.”
Como se ele não soubesse.
Como se ele não entendesse.
Como se por trás daquela postura tivesse alguém que virou noites tentando salvar um lugar que já estava caindo.
Viro o rosto para a saída.
Antes que ele veja qualquer coisa no meu olhar.
Porque, naquele momento, eu tenho certeza de duas coisas:
Eu faria tudo de novo.
Sem pensar.
Por ela.
E, se alguém falar daquele jeito da Verônica na minha frente outra vez…
Eu não sei se vou conseguir ficar em silêncio.
Próxima página - O acaso a meu favor ...
Nenhum comentário:
Postar um comentário