Por Clara:
Mas que ódio de mim.
Ódio da Elise.
Ódio do universo.
Claro que eu sabia que ela estaria vendo eu conversar com a Elise. Até achei que ela estava demorando para aparecer… ou, pior, que simplesmente não tinha se importado.
Mas, quando menos esperei, ela estava lá.
Me olhando como se pudesse me matar só com os olhos.
A verdade é que eu não queria falar com ela.
Não naquele momento.
Não ali.
Não depois de hoje de manhã.
Mas ou eu conversava e encerrava aquela “relação” de interesses, ou ia perder o pouco que tenho com a Verônica — se é que já não perdi.
Minha cabeça está explodindo.
O novato recebeu uma mercadoria do nojento do Valentino.
O Augusto já tinha me falado dele algumas vezes… que a família da Verônica nunca foi com a cara dele.
E agora sou eu, com a cara e a coragem, indo até um dos mercados dele para falar com um gerente — ou com o próprio — para devolver essa mercadoria.
E contando com a sorte.
Não estou fazendo isso para impressionar a Verônica.
Nem para amenizar a minha situação.
Estou fazendo para que ninguém saia prejudicado.
Principalmente ela.
A Verônica vem trabalhando dia e noite para aquele mercado funcionar.
Para mudar tudo.
Para levantar o que estava caindo.
E, se depender de mim, nada do que ela fez vai ser em vão.
Não vai ser um erro causado pelo ego do Augusto que vai jogar tudo o que ela construiu por água abaixo.
____________
O peso do carrinho parece menor do que o peso da minha cabeça.
Luiz empurra o outro ao meu lado em silêncio, como se entendesse que qualquer pergunta agora faria tudo desmoronar. As rodas tremem a cada desnível do calçamento, fazendo os produtos congelados chacoalharem dentro das caixas improvisadas.
Cada solavanco me dá um pequeno ataque no coração.
Não é só mercadoria.
É o nome da Verônica.
É o mercado dela.
É tudo o que ela veio reconstruir em Caldas Novas.
O sol da manhã já começa a esquentar a nuca, e eu sinto uma gota de suor escorrer pelas minhas costas. Minhas mãos estão geladas, mesmo com o esforço.
Engulo seco.
Porque, a cada passo que dou em direção ao mercado do Valentino, tenho a sensação de estar atravessando uma linha invisível.
Território inimigo.
— Vai dar certo — Luiz murmura, mais para me acalmar do que por certeza.
Forço um sorriso que não existe.
Vai dar certo.
Tem que dar.
Não por mim.
Por ela.
Por mais que, neste exato momento, eu não saiba em que lugar eu estou na vida da Verônica.
Porque a forma como ela me olhou…
Fecho os olhos por um segundo enquanto empurro o carrinho.
Aquilo não foi só raiva.
Aquilo foi distância.
E isso dói muito mais.
A fachada do mercado do Valentino aparece na esquina como um deboche do destino.
Maior.
Mais moderno.
Chamativo.
As portas de vidro abertas, o ar-condicionado escapando para a rua, os funcionários uniformizados, tudo funcionando em perfeita harmonia.
É impossível não comparar.
É impossível não pensar na pressão que a Verônica carrega.
É impossível não sentir ainda mais responsabilidade.
— É aqui — digo, mesmo sendo óbvio.
Minhas mãos começam a suar de verdade agora.
Cada passo até a entrada parece um teste.
Eu estou entrando no lugar que representa tudo que tenta derrubar o mercado dela.
E estou fazendo isso sozinha.
Sozinha não.
Por ela.
Passo pelas portas automáticas empurrando o carrinho, sentindo os olhares se voltarem imediatamente.
Claro.
Duas pessoas entrando com carrinhos cheios de mercadoria.
Mercadoria deles.
Errada.
Meu coração bate no ouvido.
Um dos funcionários se aproxima, confuso.
— Posso ajudar?
Abro a boca, mas minha voz não sai.
Penso na Verônica.
Na forma como ela prende o cabelo quando está nervosa.
Na maneira como anda pelo mercado como se tivesse nascido ali.
No olhar dela hoje de manhã.
No gosto do beijo.
Na distância de agora.
Respiro fundo.
— Essa mercadoria foi entregue no mercado errado. Nós viemos devolver.
Minha voz sai firme.
Mais do que eu estou me sentindo.
O homem parece ainda mais confuso, olha para os produtos, olha para mim, olha para o Luiz.
E então eu sinto.
Antes mesmo de ver.
A presença.
É como uma mudança no ar.
Alguém para ao nosso lado.
— Interessante…
A voz é calma. Segura. Quase divertida.
Viro o rosto.
E sei exatamente quem é.
Não porque já vi.
Mas porque a forma como ele me observa não é de um simples gerente.
É de alguém que está acostumado a estar no controle.
Valentino.
Ele analisa primeiro os carrinhos.
Depois o uniforme do mercado da Verônica.
E só então para em mim.
Sem pressa.
Como se estivesse montando um quebra-cabeça.
— Então foi você que decidiu trazer pessoalmente.
Não é uma pergunta.
É uma constatação.
Sinto meu orgulho se contorcer dentro do peito.
Porque eu estou aqui.
No mercado dele.
Tentando consertar um erro que nem foi meu.
Por causa dela.
Endireito os ombros.
— Foi um erro nosso. Estou tentando evitar prejuízo para os dois lados.
Ele sorri de canto.
Mas não é um sorriso simpático.
É um sorriso de quem está avaliando.
— Gerente?
— Operadora de caixa.
Ele ergue as sobrancelhas, claramente surpreso.
Olha para o Luiz.
Para os carrinhos.
Para a forma como os produtos estão separados.
Organizados.
Pensados.
— E ainda assim foi você quem resolveu isso.
Não respondo.
Porque não foi sobre mim.
Nunca foi.
Mas ele continua me olhando como se eu fosse um dado novo em um jogo antigo.
— Qual é o seu nome?
Hesito por um segundo.
Como se falar meu nome ali fosse uma traição.
— Clara.
Ele repete, como se estivesse guardando.
— Clara… você sabe que a maioria dos gerentes dos mercados daqui teria ligado, discutido, tentado empurrar a culpa para quem recebeu.
Dá um passo mais perto.
— Você veio pessoalmente. Com os produtos organizados. Pensando na perda dos congelados.
Meu coração dispara.
Não pelo elogio.
Mas pelo peso do que isso significa.
— Estou pensando no prejuízo — respondo.
Mas nós duas sabemos que não é só isso.
Ele inclina levemente a cabeça.
— Se um dia quiser trabalhar em um lugar onde essa sua iniciativa seja reconhecida da maneira certa… — ele tira um cartão do bolso e estende — … as portas estão abertas.
O mundo para por um segundo.
O cartão na mão dele.
O nome do mercado.
O rival.
O inimigo.
A oportunidade.
E, na minha cabeça, só existe uma imagem:
Verônica.
Me olhando.
Aquele olhar.
Meu estômago afunda.
Não é sobre emprego.
Nunca seria.
Não para mim.
Não ali.
Não vindo dele.
Não quando tudo em mim pertence àquele outro mercado.
Àquela outra mulher.
Dou um passo para trás.
— Eu não fiz isso por reconhecimento.
Minha voz falha pela primeira vez.
Mas continuo.
— Fiz porque era o certo.
Ele sorri de novo.
Dessa vez diferente.
Como se tivesse entendido algo que eu não disse.
— Foi o que eu imaginei.
Ele não insiste.
Mas também não tira os olhos de mim.
E isso me dá ainda mais certeza:
A guerra entre os dois mercados é real.
E, de alguma forma, agora eu estou no meio dela.
Seguro o ar dentro dos pulmões.
Porque, pela primeira vez desde que saí de lá…
O medo não é só de ter perdido a Verônica.
É de perceber o quanto tudo ao redor dela é maior do que nós duas.
Muito maior.
Mas, mesmo assim…
Mesmo com o orgulho ferido.
Mesmo com o olhar distante dela.
Mesmo com a Elise.
Mesmo com esse desastre.
Se for preciso atravessar essa cidade inteira empurrando carrinhos…
Eu atravesso.
Por ela.
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