segunda-feira, 21 de julho de 2025

O acaso a meu favor - Página 42

 Por Clara...

Ultimamente, venho mais cansada que o normal. Não é só o corpo — é um tipo de exaustão que mora entre o peito e a cabeça, como se até os pensamentos estivessem arrastando os pés. Sinto um reboliço estranho, como se dentro de mim houvesse uma sala em reforma: sentimentos antigos saindo aos trancos, fazendo barulho, enquanto outros, novos e sem nome, vão entrando devagar, ocupando espaços que nem sei se estão prontos. É tudo muito rápido, muito intenso, e eu… eu ainda estou tão ferida. Carrego rachaduras que finjo que já cicatrizaram, mas que, quando tocadas de jeito certo — ou errado —, voltam a arder. Por isso, esses indícios que vêm se manifestando no meu peito, especialmente por ela, me assustam. Porque não sei se são reais, ou só mais uma fantasia tentando se agarrar em algo bonito. E porque, no fundo, tenho medo de não conseguir sustentar de novo algo que me faça sentir tanto.

Foi no fim da tarde daquele mesmo dia, quando o calor já começava a recuar e o mercado entrava naquele ritmo mais morno. Eu estava repondo umas sacolas no caixa quando olhei para a sala envidraçada da gerência. Verônica estava lá, sentada de lado na cadeira, a mão apoiando a testa e o olhar perdido em algum ponto fora da janela. Não havia nada de grandioso na cena, mas algo nela me prendeu. O corpo dela parecia pesado — não de sono, mas de quem carrega muita coisa no silêncio. Eu a conheço o suficiente pra saber que, quando está assim, se esconde atrás de tarefas. Que prefere parecer ocupada do que vulnerável.

Esperei uns minutos, e quando ela saiu da sala, indo em direção ao estoque, deixei sobre sua mesa um dos cafés que havíamos feito para os funcionários. Sem bilhete, sem palavra, sem gesto chamativo. Só deixei ali. E voltei pro meu lugar. Ela viu. Pegou o copo. E antes de entrar no corredor dos fundos, por um segundo, me olhou. Um olhar rápido, mas cheio de coisa não dita. E foi só isso. Mas foi o bastante pra mim. Porque às vezes, quando a gente reconhece a dor do outro em silêncio, a gente diz mais do que qualquer frase bonita.

....................

Me senti bem em ensinar para as meninas coisas e detalhes que, lá no começo, ninguém se deu ao trabalho de me mostrar. Coisas simples, mas que fariam tanta diferença se tivessem me dito. Senti como se, de alguma forma, estivesse quebrando um ciclo — aquele em que a gente aprende na marra, apanha calada, e depois repete a mesma frieza com quem chega. Não quis ser assim. Ensinar com paciência foi como oferecer à elas o que eu mesma precisei e não tive. E, no fundo, acho que também era um jeito de cuidar de mim. Como se cada explicação dada fosse também um abraço atrasado à Clara que um dia se sentiu sozinha demais atrás de um caixa tentando dar conta de tudo sem entender nada.

Ultimamente, venho ficando sensível demais, como se estivesse andando com a pele virada do avesso. Às vezes sinto que todo mundo vê — menos quem eu gostaria que visse. E talvez essa sensação tenha algo a ver com meu pai. Rogerio sempre foi um homem seco, do tipo que ama em silêncio, no máximo com um prato de comida deixado na mesa. Fomos só nós dois desde que minha mãe foi embora com outro homem — eu tinha sete anos, ele não disse uma palavra, só ficou. E mesmo assim, quando contei que era mulher que me fazia o coração bater, ele recuou como se tivesse levado um choque. Não me cortou da vida dele, mas também nunca mais a olhou do mesmo jeito. Liga no Natal, aparece com uma sacola de frutas de vez em quando, pergunta da saúde — mas desvia o olhar se toco em qualquer coisa que diga respeito a quem eu sou de verdade. E eu… fico ali, tentando me contentar com as migalhas desse amor torto, que não me rejeita, mas também não me acolhe.

Naquela noite, depois de fechar o mercado, fiquei mais tempo que o necessário organizando umas caixas no estoque. O barulho abafado das obras, o cheiro de poeira e café velho, tudo parecia mais suportável do que encarar o vazio do quarto. Quando finalmente cheguei em casa, deixei o celular na mesa e fui direto pro banho. Ao voltar, uma chamada perdida piscava na tela: “Pai”. Só isso. Uma ligação de onze segundos. Nenhuma mensagem depois. Nenhum “Oi, era só pra saber como você está”. E aquilo, por mais pequeno que fosse, me embaralhou por dentro.

Fiquei ali, parada, olhando pro número como quem olha pra uma ferida que nunca fechou direito. Tantas vezes imaginei ele dizendo que se orgulha de mim, que entende, ou pelo menos tenta. Tantas vezes desejei ouvir um "só quero que você seja feliz", mesmo que entre dentes. Mas não. A ligação perdida era tudo. Era sempre assim: ele não me corta, mas também não me toca. E no fundo, isso machuca mais do que qualquer silêncio absoluto. Porque me deixa presa nessa corda bamba entre o amor condicionado e a esperança boba de que um dia, talvez, ele me enxergue por inteiro.

Pensei em responder. Abri a tela da conversa com ele e escrevi “Oi, pai”. Só isso. Duas palavras simples que pareceram pesar uma tonelada. Apaguei. Tentei de novo: “Tá tudo bem por aqui. E aí?” — mas as palavras me pareciam falsas. Porque não tava tudo bem. Porque ele nunca dizia se por lá também estava. Fiquei olhando para a tela azulada por longos minutos, o polegar parado em cima do botão de enviar. E então fechei tudo. Não por raiva. Por cansaço. Por saber que, mais uma vez, ele só me procuraria até onde fosse confortável pra ele. E que qualquer tentativa minha de ir além disso seria uma cobrança que ele fingiria não ouvir.

Deitei no escuro do quarto com o celular virado pra baixo e a cabeça cheia. Me dei conta de que o que mais me incomodava não era a ligação perdida. Era o quanto isso ainda me atingia. O quanto, mesmo depois de tudo, eu ainda queria ser validada por alguém que nunca soube, de fato, me ver. E esse nó silencioso, essa vontade de ser amada do jeito certo, sem precisar esconder parte de quem sou… talvez seja o mesmo que me impede de olhar com clareza pra o que estou começando a sentir por Verônica. Porque amar alguém de verdade exige coragem — e eu ainda não sei se tenho, em partes.

Próxima página - O acaso a meu favor ...Página 43

quarta-feira, 16 de julho de 2025

O acaso a meu favor - Página 41

 Por Verônica...

Já se passaram alguns dias desde o desabafo da Clara, e de lá pra cá, tenho percebido ela mais silenciosa. Não aquele silêncio calmo de quando está concentrada, mas um tipo de silêncio que esconde coisa demais — como quem carrega perguntas não respondidas. E, para ser sincera, isso me inquieta. Só que, dessa vez, não estou conseguindo acompanhá-la de perto como gostaria. A obra tomou conta do meu tempo, da minha atenção, e até dos meus passos. Em pleno funcionamento do mercado, ainda tem gente medindo, batendo, serrando e subindo estruturas por cima do movimento. Um caos funcional.

Por conta disso, mantive o horário estendido das sete da manhã às dezoito horas, e reorganizei a equipe para conseguir dar conta sem sobrecarregar ninguém. Alguns entraram mais cedo para poder sair cedo, outros se adaptaram como deu. No meio disso tudo, a cabeça trabalha em mil lugares ao mesmo tempo, e ainda assim… me pego desviando o olhar vez ou outra na direção dela. Só pra ver se está tudo bem. Mas ela tem se mantido distante, contida. E eu entendo — às vezes, é preciso recuar para processar o que não se consegue dizer em voz alta.

Faltam apenas sete dias para o desligamento oficial de Juliana, Paulo e Luiz. A contagem já começou, e apesar de tudo o que acontece ao redor, algumas despedidas pesam mais do que outras. Mesmo quando são necessárias. Mesmo quando são urgentes.

Naquele fim de tarde abafado, entre o barulho do martelete e o vai e vem dos funcionários tentando manter o ritmo, encontrei uma pequena pausa no meio do caos. Fui até a sala do estoque para assinar umas ordens de pagamento quando notei, sobre o balcão da copa, a garrafinha azul fosca da Clara esquecida. Aquela mesma, com o nome meio apagado, riscado de caneta. Um detalhe comum, mas que prendeu meu olhar por alguns segundos. Talvez pelo simples fato de eu saber exatamente de quem era.

Não sei explicar o motivo, mas acabei pegando um pedaço de papel do caderno de controle e escrevendo algo rápido. Nada muito pensado. Algo leve, quase como quem joga uma âncora discreta num dia que parece meio perdido.

"Se hoje estiver puxado, respira. Eu vejo o que consigo."
— V.

Dobrei o papel e prendi na lateral da garrafinha, de um jeito que só ela perceberia. Sem intenção de fazer disso um gesto marcante — era só uma forma simples de dizer que, mesmo com tudo acontecendo ao mesmo tempo, eu estava por perto.

Coloquei a garrafa no canto do caixa dela, entre os papéis e os itens de rotina. E voltei para o som das máquinas, para as fitas métricas, para os horários espremidos entre cimento e pedidos pendentes. Talvez ela nem comente. Talvez nem leia de imediato. E tudo bem. Não era sobre resposta. Era só sobre deixar um rastro — desses que só quem realmente repara, entende.

Foi enquanto eu falava com o eletricista, ali de canto, que meus olhos caíram na cena diante do caixa. Clara explicava algo para as meninas novas — com uma paciência rara, daquelas que nem sempre ela se permite ter. Tinha um jeito calmo nos gestos, uma firmeza suave na voz, e mesmo entre a movimentação do mercado e o barulho das obras, parecia que ela criava uma pequena bolha de atenção ali. E então, como num acaso cronometrado, ela encontrou o bilhete. Vi quando seus dedos tocaram a garrafinha e ela parou por um segundo, como quem reconhece mais do que apenas um papel preso por fita. Nenhuma reação escancarada — nem sorriso, nem suspiro. Mas havia algo no modo como ela guardou o bilhete, quase com reverência, como quem entende o cuidado silencioso de um gesto que não exige retorno. E ali, observando de longe, percebi que é isso o que mais me desconcerta nela: essa forma leve e sincera de dar atenção ao que quase ninguém vê. Clara é feita dessas entrelinhas. E talvez, só talvez... seja por isso que tem me atravessado de um jeito que nem eu sei explicar.

Não sei exatamente o porquê fiz isso. Talvez nem seja algo que se explique com clareza. Só sei que, naquele instante, quis estar diante dos seus olhos. Não como um acontecimento, nem como algo especial… só estar ali. Presente nos seus pensamentos, mesmo que por um segundo. Quis fazer parte do que a move, do que ela carrega em silêncio entre um turno e outro. E é estranho — porque não costumo querer ser vista assim, nem me importar tanto com a atenção de alguém. Mas com ela... é diferente. Como se bastasse um gesto simples pra que algo em mim se sentisse menos disperso. Mais ancorado.

Próxima página - O acaso a meu favor ...Página 42

O acaso a meu favor - Página 40

 Continuação por Clara...

Assim que começou a dar o horário da Juliana entrar, comecei a agilizar meu caixa. Já sei que ela não é muito de chegar antes, então preferi ir organizando tudo para não deixar acúmulo. O mercado estava mais leve naquele momento — talvez por causa do silêncio temporário do Augusto, que tinha saído para o intervalo. Sempre tive esse tipo de percepção… ou análise, como gosto de chamar. E ali, sozinha com meus pensamentos, ela voltou com força.

Percebi, não de hoje, que por mais que a Juliana já tenha pisado na bola várias vezes por aqui, nunca vi o Augusto repreendê-la do jeito que costuma fazer comigo. Nunca uma voz mais alta, uma cobrança incisiva, muito menos uma advertência por escrito — mesmo depois de faltar por dias seguidos. E não é ciúme, nem vitimismo. É observação. Porque quando é comigo, basta um erro pequeno para ele jogar o peso do mundo sobre minhas costas, como se eu tivesse uma dívida constante a pagar.

Não entendo. Ou talvez entenda sim. Mas não gosto nem de pensar. Há algo ali, nas entrelinhas do tratamento, que incomoda — um tipo de diferença que ninguém diz em voz alta, mas que machuca por dentro. E nesse momento, entre um caixa fechado e outro abrindo, o que mais me bate é a sensação de injustiça silenciosa. Daquelas que não aparecem nos relatórios nem nos murais da empresa. Mas que se acumulam, dia após dia, dentro da gente. E com esse pensamentos, vejo Verônica saindo de algum lugar dos corredores e só depois, percebo que ela estava me observando.

Verônica apareceu na porta do estoque com a prancheta na mão e aquele olhar de quem enxerga tudo sem dizer de imediato. Encostei no balcão do caixa, fingindo que conferia os valores no visor, mas a verdade é que minha cabeça já não estava mais ali. Quando ela se aproximou, percebi que meus ombros estavam tensos demais. E foi aí que ela falou, baixo, como quem não queria invadir:

— Tá tudo certo com você?

Pensei em dizer que sim. Que era só mais um dia corrido. Mas meu silêncio durou mais do que devia, e Verônica, com aquela sensibilidade escondida por trás da firmeza, só me olhou. Me vi abrindo a guarda sem perceber.

— É que às vezes parece que o peso aqui dentro não é dividido igual, sabe?

Ela franziu o cenho, mas não respondeu de imediato. Esperei uns segundos, e continuei:

— A Juliana some dois, três dias, e nada. Nenhuma cobrança, nenhum olhar atravessado. Já eu… se deixo passar uma vírgula, o Augusto já vem com sermão, tom, e aquela pose de quem tá sempre certo. Eu só não entendo. Ou talvez entenda, mas... enfim.

Verônica apoiou a prancheta no balcão, ficou em silêncio por alguns segundos e disse, com uma calma que me desarmou:

— Eu já percebi também. E não pense que está passando despercebido. Só tenho sido estratégica sobre quando e como agir. Porque, às vezes, corrigir algo na frente de todo mundo só muda a aparência. Eu quero que mude a estrutura.

Aquilo me pegou desprevenida. A firmeza dela em silêncio, a forma como vinha observando tudo sem interferir com pressa. Me senti, pela primeira vez em muito tempo, validada. Como se alguém visse, de verdade, aquilo que vinha me corroendo por dentro.

— Obrigada por me dizer isso — falei, quase num sussurro.

Ela apenas assentiu, com aquele olhar sério que guarda tanta coisa, e antes de voltar ao estoque, ainda completou:

— Você não está sozinha aqui, Clara. E ninguém vai te fazer acreditar no contrário.

Ao ouvir aquilo de Verônica — aquela frase direta, firme e cheia de algo que me abraçou por dentro — não sei se me conforta ou me assusta. 

Porque sim, é um alívio imenso saber que ela enxerga, que ela está atenta às falhas que se escondem por trás das hierarquias e da rotina. É bom sentir que não estou sozinha nessa sensação de injustiça que engulo há tanto tempo. Mas, ao mesmo tempo… há um medo que se pendura em mim. Um medo sutil, mas presente.

Tenho receio de como os outros enxergam nossa proximidade. Já ouvi os cochichos, os olhares de canto, os risos abafados quando ela me chama para conversar na sala dela ou quando nossas trocas de palavras vêm com uma naturalidade que não exige esforço. A maioria não entende. Ou não quer entender. E aí surge a ideia venenosa: de que estou me beneficiando. Que estou "tirando casquinha". Que me aproximei dela por interesse.

Mas o que mais me assusta… é a possibilidade de um dia ela mesma pensar isso. De que, por mais que hoje nossos silêncios se entendam, por mais que haja uma conexão que nenhum papel explica, algum detalhe, alguma interpretação errada a faça olhar para mim de um jeito diferente. Que ela duvide da minha intenção. Do meu sentir.

E isso me apavora mais do que qualquer bronca do Augusto. Porque, se tem algo que estou tentando fazer com cuidado, é não sujar o que sinto com urgência ou expectativa. Tentar seguir, dia após dia, nesse equilíbrio frágil entre admiração, desejo e medo. Porque se ela duvidar de mim… tudo desaba.

Próxima página - O acaso a meu favor ...Página 41

O acaso a meu favor - Página 74

  Continuação — O beijo… por Verônica O “quase” entre nossas bocas dura longos segundos — segundos que esticam o mundo, que dilatam o ar ao...