segunda-feira, 2 de março de 2026

O acaso a meu favor - Página 89

Por Clara:

Mas que ódio de mim.
Ódio da Elise.
Ódio do universo.

Claro que eu sabia que ela estaria vendo eu conversar com a Elise. Até achei que ela estava demorando para aparecer… ou, pior, que simplesmente não tinha se importado.

Mas, quando menos esperei, ela estava lá.
Me olhando como se pudesse me matar só com os olhos.

A verdade é que eu não queria falar com ela.
Não naquele momento.
Não ali.
Não depois de hoje de manhã.

Mas ou eu conversava e encerrava aquela “relação” de interesses, ou ia perder o pouco que tenho com a Verônica — se é que já não perdi.

Minha cabeça está explodindo.

O novato recebeu uma mercadoria do nojento do Valentino.

O Augusto já tinha me falado dele algumas vezes… que a família da Verônica nunca foi com a cara dele.

E agora sou eu, com a cara e a coragem, indo até um dos mercados dele para falar com um gerente — ou com o próprio — para devolver essa mercadoria.
E contando com a sorte.

Não estou fazendo isso para impressionar a Verônica.

Nem para amenizar a minha situação.
Estou fazendo para que ninguém saia prejudicado.
Principalmente ela.

A Verônica vem trabalhando dia e noite para aquele mercado funcionar.

Para mudar tudo.
Para levantar o que estava caindo.
E, se depender de mim, nada do que ela fez vai ser em vão.

Não vai ser um erro causado pelo ego do Augusto que vai jogar tudo o que ela construiu por água abaixo.

____________

O peso do carrinho parece menor do que o peso da minha cabeça.

Luiz empurra o outro ao meu lado em silêncio, como se entendesse que qualquer pergunta agora faria tudo desmoronar. As rodas tremem a cada desnível do calçamento, fazendo os produtos congelados chacoalharem dentro das caixas improvisadas.

Cada solavanco me dá um pequeno ataque no coração.

Não é só mercadoria.
É o nome da Verônica.
É o mercado dela.

É tudo o que ela veio reconstruir em Caldas Novas.
O sol da manhã já começa a esquentar a nuca, e eu sinto uma gota de suor escorrer pelas minhas costas. Minhas mãos estão geladas, mesmo com o esforço.

Engulo seco.

Porque, a cada passo que dou em direção ao mercado do Valentino, tenho a sensação de estar atravessando uma linha invisível.

Território inimigo.

Vai dar certo — Luiz murmura, mais para me acalmar do que por certeza.

Forço um sorriso que não existe.
Vai dar certo.
Tem que dar.
Não por mim.
Por ela.

Por mais que, neste exato momento, eu não saiba em que lugar eu estou na vida da Verônica.

Porque a forma como ela me olhou…
Fecho os olhos por um segundo enquanto empurro o carrinho.

Aquilo não foi só raiva.
Aquilo foi distância.
E isso dói muito mais.

A fachada do mercado do Valentino aparece na esquina como um deboche do destino.
Maior.
Mais moderno.
Chamativo.

As portas de vidro abertas, o ar-condicionado escapando para a rua, os funcionários uniformizados, tudo funcionando em perfeita harmonia.

É impossível não comparar.
É impossível não pensar na pressão que a Verônica carrega.

É impossível não sentir ainda mais responsabilidade.

— É aqui — digo, mesmo sendo óbvio.
Minhas mãos começam a suar de verdade agora.
Cada passo até a entrada parece um teste.

Eu estou entrando no lugar que representa tudo que tenta derrubar o mercado dela.
E estou fazendo isso sozinha.
Sozinha não.
Por ela.

Passo pelas portas automáticas empurrando o carrinho, sentindo os olhares se voltarem imediatamente.

Claro.
Duas pessoas entrando com carrinhos cheios de mercadoria.
Mercadoria deles.
Errada.

Meu coração bate no ouvido.
Um dos funcionários se aproxima, confuso.
— Posso ajudar?

Abro a boca, mas minha voz não sai.
Penso na Verônica.
Na forma como ela prende o cabelo quando está nervosa.
Na maneira como anda pelo mercado como se tivesse nascido ali.
No olhar dela hoje de manhã.
No gosto do beijo.
Na distância de agora.

Respiro fundo.

— Essa mercadoria foi entregue no mercado errado. Nós viemos devolver.

Minha voz sai firme.
Mais do que eu estou me sentindo.
O homem parece ainda mais confuso, olha para os produtos, olha para mim, olha para o Luiz.

E então eu sinto.
Antes mesmo de ver.
A presença.
É como uma mudança no ar.
Alguém para ao nosso lado.

— Interessante…
A voz é calma. Segura. Quase divertida.
Viro o rosto.

E sei exatamente quem é.
Não porque já vi.

Mas porque a forma como ele me observa não é de um simples gerente.

É de alguém que está acostumado a estar no controle.

Valentino.

Ele analisa primeiro os carrinhos.
Depois o uniforme do mercado da Verônica.
E só então para em mim.
Sem pressa.

Como se estivesse montando um quebra-cabeça.

— Então foi você que decidiu trazer pessoalmente.

Não é uma pergunta.
É uma constatação.

Sinto meu orgulho se contorcer dentro do peito.
Porque eu estou aqui.
No mercado dele.
Tentando consertar um erro que nem foi meu.
Por causa dela.
Endireito os ombros.

— Foi um erro nosso. Estou tentando evitar prejuízo para os dois lados.

Ele sorri de canto.
Mas não é um sorriso simpático.
É um sorriso de quem está avaliando.

— Gerente?
— Operadora de caixa.

Ele ergue as sobrancelhas, claramente surpreso.
Olha para o Luiz.
Para os carrinhos.
Para a forma como os produtos estão separados.
Organizados.
Pensados.

— E ainda assim foi você quem resolveu isso.
Não respondo.

Porque não foi sobre mim.
Nunca foi.
Mas ele continua me olhando como se eu fosse um dado novo em um jogo antigo.

— Qual é o seu nome?

Hesito por um segundo.
Como se falar meu nome ali fosse uma traição.

— Clara.

Ele repete, como se estivesse guardando.

— Clara… você sabe que a maioria dos gerentes dos mercados daqui teria ligado, discutido, tentado empurrar a culpa para quem recebeu.
Dá um passo mais perto.

— Você veio pessoalmente. Com os produtos organizados. Pensando na perda dos congelados.

Meu coração dispara.
Não pelo elogio.
Mas pelo peso do que isso significa.

— Estou pensando no prejuízo — respondo.
Mas nós duas sabemos que não é só isso.

Ele inclina levemente a cabeça.

— Se um dia quiser trabalhar em um lugar onde essa sua iniciativa seja reconhecida da maneira certa… — ele tira um cartão do bolso e estende — … as portas estão abertas.

O mundo para por um segundo.
O cartão na mão dele.
O nome do mercado.
O rival.
O inimigo.
A oportunidade.
E, na minha cabeça, só existe uma imagem:
Verônica.
Me olhando.
Aquele olhar.
Meu estômago afunda.
Não é sobre emprego.
Nunca seria.
Não para mim.
Não ali.
Não vindo dele.
Não quando tudo em mim pertence àquele outro mercado.
Àquela outra mulher.
Dou um passo para trás.

— Eu não fiz isso por reconhecimento.

Minha voz falha pela primeira vez.
Mas continuo.

— Fiz porque era o certo.
Ele sorri de novo.
Dessa vez diferente.

Como se tivesse entendido algo que eu não disse.

— Foi o que eu imaginei.

Ele não insiste.

Mas também não tira os olhos de mim.
E isso me dá ainda mais certeza:
A guerra entre os dois mercados é real.
E, de alguma forma, agora eu estou no meio dela.
Seguro o ar dentro dos pulmões.

Porque, pela primeira vez desde que saí de lá…
O medo não é só de ter perdido a Verônica.
É de perceber o quanto tudo ao redor dela é maior do que nós duas.

Muito maior.
Mas, mesmo assim…
Mesmo com o orgulho ferido.
Mesmo com o olhar distante dela.
Mesmo com a Elise.
Mesmo com esse desastre.

Se for preciso atravessar essa cidade inteira empurrando carrinhos…
Eu atravesso.
Por ela.

Próxima página - O acaso a meu favor ... 

O acaso a meu favor - Página 88

Por Verônica III

Como os dois mercados do Valentino ficam a apenas uma quadra da minha empresa, vejo Clara e o repositor saírem a pé mesmo, empurrando um carrinho cada um — principalmente o dos congelados —, deixando outros dois aqui no supermercado.

— Mas que menina teimosa… — penso comigo mesma, sentindo o maxilar travar.

Não é covardia não resolver pessoalmente o erro do meu, até então, gerente.

É orgulho.

E nunca — nunca — Valentino vai me ver implorando por causa de um erro fútil como o de hoje.

Vejo Clara seguir determinada pelo calçamento, forçando o carrinho, sem olhar para trás.

E eu não sei exatamente explicar o que estou sentindo agora.

Isso me desconcerta.
Me faz estranhar a mulher que eu sou.

A frieza que sempre existiu em mim… vacila.

Estou seriamente preocupada com a forma como o que eu e Clara temos pode me desalinh ar, pode me tirar do foco que me trouxe para Caldas Novas.

Reerguer o negócio da família.

Esse sempre foi o plano.

Sempre.

Ao assumir o caixa no lugar de Clara, fico refletindo entre um atendimento e outro.

Penso em mil e uma maneiras de amenizar o que tenho com ela.

Ou, pelo menos, tentar.

Vejo Augusto surgir na minha frente, visivelmente assustado, e nesse exato momento me levanto da cadeira.

— Verônica… eu… — ele gagueja, a voz falhando. — Eu sinto… sinto muito.

Fico olhando nos olhos dele como se pudesse estilhaçá-lo apenas com o olhar.

Sem pressa.
Sem suavizar.

— Apenas resolva esse problema o mais rápido possível.

Ele engole em seco.

O nervosismo dele é quase palpável.

— O-onde está a n-nota, Verônica? — pergunta com cautela, escolhendo cada palavra como se pisasse em cacos de vidro.

E eu espero que ele continue assim por um bom tempo.

A nota está nas mãos da Clara.

O olhar assustado se transforma em confusão.

— Clara? Por que estaria com a Clara?

Sustento o silêncio só para vê-lo se perder dentro dele.

— Mas… cadê ela? Eu… eu preciso fazer alguma coisa… devolver a mercadoria ou… ou localizar a nossa… eu… eu…

Levanto apenas uma das mãos.

Um gesto pequeno.
Suficiente.
Ele se cala na mesma hora.

— Quando Clara chegar, peça explicações. Já que errar está sendo um trabalho em equipe, nada mais justo.

Saio de trás do caixa, e ele entende — sem que eu precise dizer nada — que aquele lugar agora é dele.

E que o erro também.

Ele se ajeita atrás do caixa como quem aceita uma sentença.

Não agradece.
Não questiona.
Não respira direito.

E eu gosto disso.

Gosto de ver que ele entendeu o peso do erro.
Que entendeu que, ali, quem sustenta tudo sou eu.
Dou dois passos para trás, observando por alguns segundos.

Ele erra o código de uma mercadoria.

As mãos tremem.
Perfeito.

Viro as costas antes que ele perceba que continuo olhando.

Mas o controle que eu tenho sobre o mercado não chega nem perto do controle que perdi sobre mim.
Porque, inevitavelmente, meu pensamento volta para Clara.

Para nós duas.
Para a noite passada.

Como é que, em questão de horas, tudo saiu de algo… perfeito… para isso?

Ontem havia silêncio, respiração compartilhada, cuidado.

O gosto dela ainda estava na minha boca quando cheguei em casa.

Hoje existe um mercado em crise, um gerente incompetente, mercadoria no lugar errado…

E Elise.

O nome atravessa minha mente como um arranhão.

A turista.
A conversa.
O olhar de Elise para ela.

A forma como as duas estavam próximas.

A trégua silenciosa que Clara me ofereceu mais cedo — e que agora parece distante, quase inexistente.

Solto o ar devagar, sentindo a mandíbula travada.

Não é só o problema do mercado.
Nunca é só o mercado.

É a sensação absurda de que, em uma única noite, eu permiti que alguém atravessasse todas as minhas defesas…

E, na manhã seguinte, já estou disputando espaço com outra pessoa.

Como se o que aconteceu entre nós pudesse ser substituído.
Como se fosse… pouco.

Passo a mão pelos cabelos, tentando recuperar o eixo.

Não posso me desalinhar.
Não por causa disso.
Não por causa dela.

Eu vim para essa cidade com um objetivo.
Reerguer o negócio da minha família.

Frieza.
Foco.
Controle.

É isso que sempre funcionou.

Mas então me vem a imagem dela empurrando o carrinho pela calçada, carregando um problema que era meu.

Determinada.
Teimosa.
Brilhante.

E, pela primeira vez em muito tempo…

Eu não sei se quero voltar a ser a mulher que era antes dela.

Próxima página - O acaso a meu favor ... 




O acaso a meu favor - Página 87

Por Verônica II.

Vejo Clara voltar para o caixa sem que eu precise dizer uma única palavra.

Ela simplesmente vai.
Assume o lugar.

Postura reta, movimentos rápidos, a educação impecável de sempre. Em menos de dez minutos atende os três clientes como se o mundo ao redor não estivesse desmoronando.

Como se entre nós não existisse um silêncio pesado desde cedo.

Observo de longe.

O controle que ela tem
.
A segurança.

A forma como resolve tudo com uma naturalidade que me desarma.

Como se nada tivesse acontecido.
Como se o caos no meio do mercado não estivesse correndo contra o tempo.

Quando ela termina, vem direto até mim.
Sem rodeios.

— Podemos pelo menos devolver para a empresa correta?

Ela não faz ideia.
Não sabe que a empresa “correta” é o meu maior rival.

Perfeito.

Respiro fundo, mantendo a expressão neutra.
— Estou vendo o que posso fazer, Clara.

Mas o meu “resolver” naquele momento é ligar para o Augusto e fazer com que ele assuma a responsabilidade por isso.
Levo o celular ao ouvido.

Chama.

Chama.

Nada.

— Você sabe quantas caixas foram abertas? — ela pergunta, já se abaixando no meio da mercadoria espalhada.

— Sim, sim. Sabemos — respondo automaticamente.
Mas não sabemos.

Não de verdade.

Vejo quando ela pede para o Luiz trazer carrinhos.
Ela não pede minha autorização.
Ela não espera.

— Me deixa ver a nota novamente, Verônica.
Ainda com o celular no ouvido, estendo o papel para ela.

Ela não olha para mim.

E isso me atinge de um jeito completamente desproporcional.

Ela começa a agir.
Retira os produtos das prateleiras.
Separa por tipo.
Organiza.
Rápida.
Focada.

Como se o tempo estivesse gritando no ouvido dela.
E está.

Os congelados.

Droga.
Sinto a pressão subir pelo meu corpo.

— Clara — chamo, já sem conseguir esconder a irritação —, como eu vou devolver essa mercadoria para a empresa correta sem as caixas? Sem a embalagem adequada?

Ela não para.

Nem por um segundo.
— Simples! — responde, e o deboche na voz dela me acerta em cheio.

Então ela me olha.
Direto.
Sem recuar.

— Fica aí ligando para quem você quiser. Eu e o Luiz tentamos devolver para a empresa correta.

É um desafio.
É provocação.
Mas é, acima de tudo, uma solução.

Ela volta ao trabalho no mesmo instante, ajoelhada no chão frio do corredor, salvando um problema que era meu.

E isso me irrita.
Porque está funcionando.
Porque é eficiente.

Porque ela não precisou de mim para começar.
Solto um suspiro nervoso e assumo o caixa.
O celular ainda no ouvido.

A ligação chamando de novo.
Minha voz volta ao automático.

— Bom dia.
— Crédito ou débito?
— Obrigada, volte sempre.

Mas nada em mim está ali.

Minha atenção está dividida entre o telefone, o prejuízo e Clara no chão do mercado, prendendo o cabelo de qualquer jeito, dando ordens para o Luiz, conferindo produto por produto com uma concentração que eu conheço.

E que eu admiro.
Ela não olha para mim.
Nem uma vez.
E isso incomoda mais do que o deboche.
Muito mais.

Atendo outro cliente com o sorriso profissional que todos conhecem.

Mas meus olhos escapam para ela de novo.
Para a forma como assume.
Para a forma como resolve.
Para a forma como, mesmo irritada comigo, continua lutando pelo mercado.
Lutando contra o tempo.
Lutando por algo que é meu.

Que é nosso.

E é nesse instante que a verdade vem, crua, impossível de ignorar:

Ela não está salvando só a mercadoria.
Ela está salvando a mim.

Próxima página - O acaso a meu favor ... 

O acaso a meu favor - Página 91

Por Clara III: Ao sair do mercado do Valentino, solto o ar que nem percebi que estava prendendo. Vem um alívio. Mas junto dele, um sorriso t...