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segunda-feira, 2 de março de 2026

O acaso a meu favor - Página 87

Por Verônica II.

Vejo Clara voltar para o caixa sem que eu precise dizer uma única palavra.

Ela simplesmente vai.
Assume o lugar.

Postura reta, movimentos rápidos, a educação impecável de sempre. Em menos de dez minutos atende os três clientes como se o mundo ao redor não estivesse desmoronando.

Como se entre nós não existisse um silêncio pesado desde cedo.

Observo de longe.

O controle que ela tem
.
A segurança.

A forma como resolve tudo com uma naturalidade que me desarma.

Como se nada tivesse acontecido.
Como se o caos no meio do mercado não estivesse correndo contra o tempo.

Quando ela termina, vem direto até mim.
Sem rodeios.

— Podemos pelo menos devolver para a empresa correta?

Ela não faz ideia.
Não sabe que a empresa “correta” é o meu maior rival.

Perfeito.

Respiro fundo, mantendo a expressão neutra.
— Estou vendo o que posso fazer, Clara.

Mas o meu “resolver” naquele momento é ligar para o Augusto e fazer com que ele assuma a responsabilidade por isso.
Levo o celular ao ouvido.

Chama.

Chama.

Nada.

— Você sabe quantas caixas foram abertas? — ela pergunta, já se abaixando no meio da mercadoria espalhada.

— Sim, sim. Sabemos — respondo automaticamente.
Mas não sabemos.

Não de verdade.

Vejo quando ela pede para o Luiz trazer carrinhos.
Ela não pede minha autorização.
Ela não espera.

— Me deixa ver a nota novamente, Verônica.
Ainda com o celular no ouvido, estendo o papel para ela.

Ela não olha para mim.

E isso me atinge de um jeito completamente desproporcional.

Ela começa a agir.
Retira os produtos das prateleiras.
Separa por tipo.
Organiza.
Rápida.
Focada.

Como se o tempo estivesse gritando no ouvido dela.
E está.

Os congelados.

Droga.
Sinto a pressão subir pelo meu corpo.

— Clara — chamo, já sem conseguir esconder a irritação —, como eu vou devolver essa mercadoria para a empresa correta sem as caixas? Sem a embalagem adequada?

Ela não para.

Nem por um segundo.
— Simples! — responde, e o deboche na voz dela me acerta em cheio.

Então ela me olha.
Direto.
Sem recuar.

— Fica aí ligando para quem você quiser. Eu e o Luiz tentamos devolver para a empresa correta.

É um desafio.
É provocação.
Mas é, acima de tudo, uma solução.

Ela volta ao trabalho no mesmo instante, ajoelhada no chão frio do corredor, salvando um problema que era meu.

E isso me irrita.
Porque está funcionando.
Porque é eficiente.

Porque ela não precisou de mim para começar.
Solto um suspiro nervoso e assumo o caixa.
O celular ainda no ouvido.

A ligação chamando de novo.
Minha voz volta ao automático.

— Bom dia.
— Crédito ou débito?
— Obrigada, volte sempre.

Mas nada em mim está ali.

Minha atenção está dividida entre o telefone, o prejuízo e Clara no chão do mercado, prendendo o cabelo de qualquer jeito, dando ordens para o Luiz, conferindo produto por produto com uma concentração que eu conheço.

E que eu admiro.
Ela não olha para mim.
Nem uma vez.
E isso incomoda mais do que o deboche.
Muito mais.

Atendo outro cliente com o sorriso profissional que todos conhecem.

Mas meus olhos escapam para ela de novo.
Para a forma como assume.
Para a forma como resolve.
Para a forma como, mesmo irritada comigo, continua lutando pelo mercado.
Lutando contra o tempo.
Lutando por algo que é meu.

Que é nosso.

E é nesse instante que a verdade vem, crua, impossível de ignorar:

Ela não está salvando só a mercadoria.
Ela está salvando a mim.

Próxima página - O acaso a meu favor ... 

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