Por Verônica.
Não pensei duas vezes. Abri a porta com força, chamando a atenção de um dos repositores que organizava produtos perto da minha sala.
Quando me aproximei da entrada do mercado, ouvi, na lateral, a voz carregada de raiva de uma mulher mais velha. Clara estava na frente dela, com a expressão de pura culpa.
Mas ela disse que não tinha nada com essa mulher… pensei.
Assim que nossos olhos se encontraram, Clara me lançou um olhar assustado, daqueles que imploram: “Posso explicar.”
A outra revirou os olhos, como se a minha presença fosse um incômodo.
Desgraçada.
— Não lembro de ter me pedido, nem ao Augusto, pra sair do caixa, Clara — falei, ríspida.
Clara abaixou a cabeça quando falei. O peso da culpa era visível.
Estava sozinha no caixa naquela manhã — a cidade vazia, o mercado quieto demais.
— Volta pro caixa, Clara — pedi, firme, mesmo sentindo o peito apertar.
Ela saiu sem discutir. E quando sumiu de vista, o silêncio entre nós ficou insuportável.
Olhei para a mulher.
— Você realmente não entendeu o que eu disse ontem?
— Não! — ela respondeu, com um meio sorriso provocador.
— Porque quem falou foi você por ela.
Respirei fundo. A lembrança de ontem ainda queimava, misturada com uma insegurança que eu odiava sentir.
— Vai por mim… aquilo que fizemos ontem foi a confirmação da minha resposta pra você.— devolvi, fuzilando-a com o olhar, apesar da ponta de insegurança que aquela mulher ainda me causava.
Por um instante, vi a raiva nos olhos dela… e também a dúvida.
Foi aí que encontrei coragem.
— Se você se importa minimamente com ela… vai embora. Some da vida da Clara!
Era uma ordem… mas também um pedido.
Ela me fuzila com o olhar.
Por um segundo, tenho certeza de que vai me confrontar ali mesmo, na frente de todo mundo.
Mas o que vem em seguida não é confirmação.
É trégua.
Uma trégua silenciosa, pesada, que me atinge mais do que qualquer discussão.
— Tudo, tudo bem — ela diz, com um ar de rendição que não combina com ela. — O importante é ela estar bem.
Aceitação.
Falsa.
Consigo ver no jeito como os ombros dela ficam tensos, no sorriso que não alcança os olhos.
— É — respondo.
E continuo encarando.
Porque desviar agora seria admitir demais.
Ela sustenta meu olhar por mais alguns segundos — tempo suficiente para que tudo que não pode ser dito passe entre nós — e então sai, ainda me olhando, como se estivesse esperando que eu a dissesse mais alguma coisa.
Não tenho mais nada a falar.
Passo as mãos pelos cabelos, jogando-os para trás, num gesto impaciente que entrega mais do que eu gostaria.
É quando percebo.
Algumas das poucas pessoas que já estão no mercado observam a cena.
Rápido demais para ser discreto.
Lento demais para parecer natural.
Endireito a postura imediatamente.
— Bom dia. — cumprimento, com uma educação ensaiada, automática, aquela que uso quando preciso lembrar a todos — e a mim mesma — quem eu sou ali dentro.
A Dona.
A mulher que está no controle.
A que não se envolve.
Volto para o escritório sem olhar para a Clara.
Não porque não quero.
Mas porque, se olhar, eu volto.
E hoje eu preciso que ninguém perceba o quanto isso já passou do ponto profissional.
Fecho a porta atrás de mim com um pouco mais de força do que o necessário.
Só então permito que o ar escape dos meus pulmões.
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Ao me obrigar a focar no que realmente importa, repito para mim mesma que tenho problemas demais no mercado para me distrair com um simples rolo de trabalho.
"Rolo."
A palavra volta como um incômodo físico.
Como se tivesse gosto.
Como se denunciasse a mentira que estou tentando contar para mim mesma desde que a conheci.
As horas passam sem que eu perceba direito. Ou talvez eu esteja apenas fingindo que estou produzindo. Quando levanto os olhos das planilhas e olho para o salão, vejo Clara vindo com um papel na mão.
Ela para no caixa.
Deixa a folha ali.
E sai.
Três clientes esperando.
Meu corpo reage antes da minha cabeça.
Algo está errado.
Saio da sala.
O cenário me atinge de uma vez só.
Mercadoria espalhada no meio do mercado.
Caixas abertas.
Produto sendo reposto.
Sem conferência.
Sem autorização.
Sem controle.
Sinto o estresse subir instantaneamente.
— Como você não perguntou a ninguém se essa nota era daqui? — A vejo perguntar com a voz firme, cortante, direcionada ao rapaz ao lado das caixas.
Ele se encolhe.
— Desculpa… o Augusto só pediu para eu receber.
O nome dele a faz travar o maxilar.
— Cadê o Augusto?
Ninguém sabe.
Ótimo.
Perfeito.
É quando percebo que Clara está ali.
Não perdida.
Não nervosa.
Atenta.
O olhar dela vai de mim para a mercadoria, da mercadoria para o funcionário, como se estivesse segurando aquela situação sozinha há tempo demais.
— Clara, o que você está fazendo aqui? — pergunto, e o meu tom sai mais arrogante do que eu gostaria.
— O caixa tem três clientes esperando por uma operadora.
Assim que ela se vira para mim, eu sinto.
Não é a Clara de hoje cedo.
É a do primeiro dia.
Postura reta.
Olhar firme.
Profissional.
E aquilo me atinge em cheio.
— Cadê o "seu" gerente? — ela pergunta, enfatizando de propósito.
Não é sobre hierarquia.
É sobre responsabilidade.
— Está no intervalo. Por quê? — respondo, já sentindo que perdi o controle da situação em algum ponto que não vi.
Ela respira fundo antes de falar. Controle. Clara também está se controlando.
— Porque ele autorizou um funcionário sem experiência suficiente a receber mercadoria. — diz, medindo as palavras para não expor o rapaz.
Estendo a mão.
- E pior, mercadoria do mercado do Valentino.
Nesse momento sinto a fúria subir pelo meu pescoço.
Ela me entrega a nota sem hesitar.
O toque dos nossos dedos é rápido.
Elétrico.
Indesejado naquele momento.
Confiro.
Valor.
Pedido.
Empresa.
E o mundo para por um segundo.
— Como que o Augusto recebe a droga das mercadorias daquele homem?
Minha voz sai mais baixa, mais perigosa.
Levanto os olhos.
E vejo o estrago.
Caixas abertas.
Produtos já misturados com os nossos.
Reposição pela metade.
Não é mais um erro.
É um prejuízo.
Sinto o sangue esquentar.
Passo as mãos pelos cabelos, tentando organizar a cabeça, enquanto faço o cálculo automático de tempo, retrabalho, troca com fornecedor, conferência de estoque.
Problema.
Grande.
Quando olho para Clara outra vez, ela está me observando.
Não com desafio.
Não com julgamento.
Mas esperando.
Esperando que eu assuma.
Que eu resolva.
Que eu seja a Verônica que ela conhece.
E isso me desmonta mais do que qualquer confronto.
Porque ela veio até mim.
Ela deixou o caixa.
Ela quebrou o protocolo.
Em favor do mercado.
E eu estava ocupada demais chamando isso de rolo.
.
— Para tudo — digo, assumindo o comando, a voz firme voltando ao lugar. — Ninguém mexe em mais nada.
Clara solta o ar discretamente.
Alívio.
Confiança.
Parceria.
Mesmo que a gente não tenha resolvido o que está entre nós.
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