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segunda-feira, 2 de março de 2026

O acaso a meu favor - Página 88

Por Verônica III

Como os dois mercados do Valentino ficam a apenas uma quadra da minha empresa, vejo Clara e o repositor saírem a pé mesmo, empurrando um carrinho cada um — principalmente o dos congelados —, deixando outros dois aqui no supermercado.

— Mas que menina teimosa… — penso comigo mesma, sentindo o maxilar travar.

Não é covardia não resolver pessoalmente o erro do meu, até então, gerente.

É orgulho.

E nunca — nunca — Valentino vai me ver implorando por causa de um erro fútil como o de hoje.

Vejo Clara seguir determinada pelo calçamento, forçando o carrinho, sem olhar para trás.

E eu não sei exatamente explicar o que estou sentindo agora.

Isso me desconcerta.
Me faz estranhar a mulher que eu sou.

A frieza que sempre existiu em mim… vacila.

Estou seriamente preocupada com a forma como o que eu e Clara temos pode me desalinh ar, pode me tirar do foco que me trouxe para Caldas Novas.

Reerguer o negócio da família.

Esse sempre foi o plano.

Sempre.

Ao assumir o caixa no lugar de Clara, fico refletindo entre um atendimento e outro.

Penso em mil e uma maneiras de amenizar o que tenho com ela.

Ou, pelo menos, tentar.

Vejo Augusto surgir na minha frente, visivelmente assustado, e nesse exato momento me levanto da cadeira.

— Verônica… eu… — ele gagueja, a voz falhando. — Eu sinto… sinto muito.

Fico olhando nos olhos dele como se pudesse estilhaçá-lo apenas com o olhar.

Sem pressa.
Sem suavizar.

— Apenas resolva esse problema o mais rápido possível.

Ele engole em seco.

O nervosismo dele é quase palpável.

— O-onde está a n-nota, Verônica? — pergunta com cautela, escolhendo cada palavra como se pisasse em cacos de vidro.

E eu espero que ele continue assim por um bom tempo.

A nota está nas mãos da Clara.

O olhar assustado se transforma em confusão.

— Clara? Por que estaria com a Clara?

Sustento o silêncio só para vê-lo se perder dentro dele.

— Mas… cadê ela? Eu… eu preciso fazer alguma coisa… devolver a mercadoria ou… ou localizar a nossa… eu… eu…

Levanto apenas uma das mãos.

Um gesto pequeno.
Suficiente.
Ele se cala na mesma hora.

— Quando Clara chegar, peça explicações. Já que errar está sendo um trabalho em equipe, nada mais justo.

Saio de trás do caixa, e ele entende — sem que eu precise dizer nada — que aquele lugar agora é dele.

E que o erro também.

Ele se ajeita atrás do caixa como quem aceita uma sentença.

Não agradece.
Não questiona.
Não respira direito.

E eu gosto disso.

Gosto de ver que ele entendeu o peso do erro.
Que entendeu que, ali, quem sustenta tudo sou eu.
Dou dois passos para trás, observando por alguns segundos.

Ele erra o código de uma mercadoria.

As mãos tremem.
Perfeito.

Viro as costas antes que ele perceba que continuo olhando.

Mas o controle que eu tenho sobre o mercado não chega nem perto do controle que perdi sobre mim.
Porque, inevitavelmente, meu pensamento volta para Clara.

Para nós duas.
Para a noite passada.

Como é que, em questão de horas, tudo saiu de algo… perfeito… para isso?

Ontem havia silêncio, respiração compartilhada, cuidado.

O gosto dela ainda estava na minha boca quando cheguei em casa.

Hoje existe um mercado em crise, um gerente incompetente, mercadoria no lugar errado…

E Elise.

O nome atravessa minha mente como um arranhão.

A turista.
A conversa.
O olhar de Elise para ela.

A forma como as duas estavam próximas.

A trégua silenciosa que Clara me ofereceu mais cedo — e que agora parece distante, quase inexistente.

Solto o ar devagar, sentindo a mandíbula travada.

Não é só o problema do mercado.
Nunca é só o mercado.

É a sensação absurda de que, em uma única noite, eu permiti que alguém atravessasse todas as minhas defesas…

E, na manhã seguinte, já estou disputando espaço com outra pessoa.

Como se o que aconteceu entre nós pudesse ser substituído.
Como se fosse… pouco.

Passo a mão pelos cabelos, tentando recuperar o eixo.

Não posso me desalinhar.
Não por causa disso.
Não por causa dela.

Eu vim para essa cidade com um objetivo.
Reerguer o negócio da minha família.

Frieza.
Foco.
Controle.

É isso que sempre funcionou.

Mas então me vem a imagem dela empurrando o carrinho pela calçada, carregando um problema que era meu.

Determinada.
Teimosa.
Brilhante.

E, pela primeira vez em muito tempo…

Eu não sei se quero voltar a ser a mulher que era antes dela.

Próxima página - O acaso a meu favor ... 




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