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quarta-feira, 25 de junho de 2025

O acaso a meu favor - Página 02

 Pagina 02 – Capitulo 01.


Hoje estou mais cansada do que imaginei que estaria ao longo da semana.

Era folga da Juliana. A Thaís ainda está de férias.
E, como sempre… sobrou pra mim.

Dois turnos.

Segunda-feira costuma ser tranquila — pouco movimento, pouca confusão. E, para muita gente, isso seria um alívio.

Pra mim… é perigoso.

Porque cabeça vazia nunca vem sozinha.

Hoje apareceram vários vendedores atrás do Augusto — gente oferecendo produto, cobrando reposição, tentando empurrar qualquer coisa que coubesse nas prateleiras. Enquanto isso, eu e o Luís ficávamos nos bastidores, recebendo mercadoria das empresas com contrato.

Juliana de folga.
Seu Francisco também.

Ou seja… o essencial funcionando no limite.

Luís ficou responsável pela perfumaria e pelos congelados. Eu, com o cuidado de quem pisa em vidro, cuidava das mercadorias próximas ao caixa — Havaianas, doces, chocolates…

Coisas pequenas.
Mas que, se derem errado, viram problema grande.

E problema… é a última coisa que eu quero levar pra casa.

Já passava das 17h40 quando vi o Antônio pegando as chaves da mão do Igor e saindo com a caminhonete branca. Estranhei por um segundo… mas deixei pra lá.

Antônio não é só funcionário.
É praticamente uma extensão do dono.

Se saiu, tinha motivo.

Ou pelo menos… era o que eu preferia acreditar.

Quando terminamos de receber tudo, fizemos o possível pra adiantar a reposição. Priorizamos os congelados — sempre. O que não deu tempo, ficou pelos corredores, separado pro Francisco resolver no dia seguinte.

Mais um acúmulo.

Mais um amanhã sobrecarregado.

A noite caiu devagar… e com ela, o movimento também.

O mercado foi ficando vazio. Silencioso.

Augusto se trancou no escritório.

E, de repente, era só eu… e aquele espaço grande demais.

Foi aí que ela veio.

Camila.

Me sentei no caixa, deixando o corpo descansar por alguns segundos. Mas a mente… essa não obedece.

Ela corre.

Volta.

Insiste.

O término com a Camila despertou algo em mim que eu ainda não sei nomear. Não é força. Não é superação.

É sobrevivência.

Pura.

Crua.

Muitas das nossas brigas começaram exatamente por isso…
pelo que eu estou fazendo agora.

Trabalhando demais.

Turnos dobrados.
Cansaço acumulado.
Uma promessa constante de que era só “por enquanto”… que tudo aquilo era pra construir um futuro melhor pra nós.

Mas não foi suficiente.

Nunca foi.

E o que era só desgaste virou rachadura.

Depois, virou abismo.

Traições.
Desrespeito.
Discussões que não levavam a lugar nenhum.
Chantagens emocionais.
Refúgio em vícios.

E, no fim… ela foi embora.

Três anos tentando consertar algo que não fui eu quem quebrei.

Três anos… pra nada.

Tento afastar esses pensamentos, mas eles não vão.

Eles se acomodam.

Pesam.

Se repetem.

Como um filme que alguém esqueceu de desligar dentro da minha cabeça.

E eu fico ali…

Assistindo tudo de novo.

Sem poder pular nenhuma cena.


O silêncio do mercado já começava a pesar diferente.

Não era mais aquele silêncio de fim de expediente — era o tipo que faz a gente pensar demais… sentir demais.

Passei a mão no rosto, como quem tenta acordar de um pensamento ruim, e endireitei a postura na cadeira.

— Chega, Clara… — murmurei baixo, mais pra mim do que pra qualquer outra coisa.

Porque, se eu deixasse… eu afundava.

E hoje, definitivamente, não era um bom dia pra isso.

Voltei minha atenção para o caixa, organizei alguns papéis sem necessidade nenhuma — só pra ocupar as mãos, já que a cabeça insistia em não colaborar.

Foi então que, ao olhar para a entrada, vi o Antônio passando em frente ao mercado, seguindo em direção à garagem para guardar a caminhonete do Igor.

Menos de três minutos depois, ele reaparece.

E, claro… não poderia entrar de forma normal.

— E então, Clara... — diz ele, surgindo com aquele sorriso malicioso que já vem com problema embutido —, quando vamos sair pra tomar uma cerveja?

Reviro os olhos, mas não seguro o canto do sorriso.

— Antônio, eu gosto de mulheres.

Ele nem pisca.

Solta uma gargalhada e devolve, na maior naturalidade do mundo:

— Mas eu posso ser a Antônia pra você!

E pronto.

Não teve jeito.

A risada escapou antes que eu pudesse segurar, enquanto balançava a cabeça em pura incredulidade.

Porque, no meio de tanto caos…

Sempre tem alguém disposto a fazer a gente esquecer — nem que seja por alguns segundos.


Ao chegar em casa, avisto meu gato Bento todo jogado no sofá. Dou uma risada nasal com a cena. Ao perceber que cheguei, ele faz a maior festa, se esfregando nas minhas pernas. Pego-o no colo e dou logo uns beijos naquele gorducho... e, mal se passam alguns segundos, lá estou eu cuspindo os pelos que ficaram na boca.


Solto-o pela casa e, então, encaro o vazio daquele apartamento. Imaginar que aqui já foi palco de brigas, discussões… mas também de sorrisos, músicas, muito amor e carinho. Porém, para viver o lado bom, eu precisava aceitar coisas que meu orgulho não suportava — e então o fim se fez necessário.


Espanto esses pensamentos ao perceber que estava prestes a cair numa armadilha emocional que me machucaria até adormecer. Me apresso em neutralizar aquele sentimento com um banho gelado.

Ao sair do banho, passo em frente ao espelho da sala. Não sei por que milagre ele ainda está intacto, conhecendo bem o gato que tenho... Quase tudo nessa sala foi destruído acidentalmente pelo querido Bento do meu coração.


Enfim, ao me olhar, percebo o quão maltratada estou. Os cabelos vivem presos, as sobrancelhas mais parecem monocelhas, as olheiras denunciam noites mal dormidas... Estou com a aparência de uma mulher abandonada — o pior, abandonada por si mesma.

Com esses pensamentos, visto uma roupa leve e vou dormir com o propósito de começar a me cuidar mais. Porque ninguém merece me ver nesse estado vegetativo pós-término.

 

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