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domingo, 22 de fevereiro de 2026

O acaso a meu favor - Página 75

Continuação — por Clara…

No instante em que Verônica começa a me guiar para o carro, algo dentro de mim… trava.
Não é rejeição. Não é arrependimento.
É outra coisa — algo mais profundo, mais íntimo, mais novo do que tudo que já senti.

Meu corpo inteiro acende com o toque dela, com o jeito que suas mãos firmes seguram minha cintura, com a língua dominando o beijo como se soubesse exatamente o que eu sempre quis. E isso… isso é o que me deixa sem chão.

A vontade é tão grande que assusta.

Então, no meio desse calor todo, meu corpo instintivamente desacelera. Não puxo ela para longe — apenas diminuo a intensidade, diminuo o ritmo, como se meu corpo pedisse um segundo para entender o que está acontecendo.

O beijo amolece, perde um pouco da urgência, e se torna mais lento… mais respirar do que tocar.
E ela percebe.
Verônica sempre percebe.

Meus lábios vão soltando os dela devagar, como se ainda quisessem ficar ali. A ponta da minha testa encosta na dela, e eu respiro fundo, ofegante, tentando puxar o ar que ela roubou de mim.

Ela também respira pesado, como se estivesse lutando contra o próprio impulso.
Nossas bocas ficam ali, quase encostadas, sem se beijar — e esse “quase” lateja mais do que o beijo.

Fecho os olhos por um instante, sentindo o gosto dela ainda na minha boca, sentindo minhas próprias pernas tremerem. Meu coração bate tão rápido que tenho certeza de que ela sente contra o corpo dela.

Abro os olhos e encontro o olhar dela: quente, preocupado, atento, como se estivesse pronta para voltar um passo se eu quisesse… ou para avançar todos, se eu pedisse.

E com a voz ainda embargada, baixa demais para qualquer pessoa além dela ouvir, eu digo:

— Espera… — minhas mãos sobem para o peito dela, não empurrando, só… segurando. — Eu só… — respiro fundo, tentando me organizar. — Eu nunca… senti isso assim antes.

Vejo o rosto dela suavizar, vejo aquela força que ela tem derreter só um pouco, virando um cuidado que deixa meu estômago ainda mais quente.

Ela passa o polegar devagar na minha bochecha, num toque tão leve que me dá vontade de chorar e rir ao mesmo tempo.

— Tá tudo bem, Clara… — ela sussurra, perto demais da minha boca. — A gente vai no seu tempo.

Meu corpo relaxa um pouco com isso.
A tensão muda — não diminui — só muda de lugar.
Fica mais doce, mais íntima, mais nossa.

E nesse espaço entre uma respiração e outra, ainda colada nela, ainda com os lábios formigando, percebo que não é o carro que me preocupa.
É o fato de que, pela primeira vez, eu quero demais tudo que vem depois.

Ainda com minha testa encostada na dela, tentando recuperar o fôlego que ela arrancou de mim, sinto os dedos de Verônica deslizarem até a minha nuca num carinho lento. Quase me desfaz.

— Clara… — ela me chama tão baixinho que parece que meu nome foi feito só pra sair da boca dela.

Engulo seco.

— Eu… — Tento falar, mas a respiração ainda tropeça. — Eu só fiquei surpresa. Não é que eu não queira.

Verônica arqueia um dos cantos da boca, quase sorrindo, como se estivesse aliviada e perigosa ao mesmo tempo.

— Eu sei que você quer. — Ela diz sem arrogância — só com aquela certeza que me desmonta. — Eu senti.

Sinto meu rosto esquentar mais do que a noite fria permite.

— Verônica… — Tento reclamar, mas minha voz sai rindo e tremida.

Ela aproxima a boca da minha, a um sopro de distância.
Nem beija.
Só fica ali, me provocando com o ar que divide comigo.

— Quer que eu pare de sentir? — Ela pergunta, com aquele tom grave que me dá arrepios na espinha.

— Não… — respondo tão rápido que ela ri contra minha boca.

— Então me deixa te ouvir. — A mão dela aperta levemente minha cintura. — Te deixa sentir também.

Meu coração ameaça explodir.

— Eu senti mesmo… — admito, baixinho. — Senti tudo. E acho que ainda tô sentindo.

Ela finalmente encosta a testa na minha, os olhos fechados, como se respirasse alívio.

— Clara, eu tô tentando ir devagar — ela confessa. — Mas quando você me beija desse jeito… — A voz dela falha só um pouco. — Fica difícil lembrar onde te tocar primeiro.

Sinto meu corpo perder o chão.

— Falar assim não ajuda — digo, tentando disfarçar o tremor na minha voz.

Ela sorri contra meu queixo e sobe a mão para a linha do meu maxilar, tão devagar que me dá vontade de fechar os olhos.

— Não tô aqui pra ajudar — ela murmura. — Tô aqui porque você me deixa… completamente fora de controle.

Eu rio, sem força nenhuma para fingir que isso não me abala.

— E eu? — pergunto, quase sem ar. — Tô parecendo o quê pra você?

Verônica me olha como se estivesse vendo algo sagrado e proibido ao mesmo tempo.

— Você parece alguém que eu esperei mais tempo do que admito.
Ela desce o polegar pela minha boca.
— E parece alguém que eu quero beijar outra vez. Muito devagar.

Meu corpo inteiro responde antes da minha boca.

Encosto de leve meus lábios nos dela, num toque suave, quase um agradecimento.

— Então beija… — sussurro. — Mas assim. Desse jeito.

Verônica segura meu rosto com as duas mãos, como se eu fosse algo delicado — ou perigoso — e aproxima a boca da minha com uma paciência que me enlouquece.

— Como você quiser, Clara. — Ela murmura… e finalmente me beija de novo.

Não rápido.
Não urgente.
Mas profundamente, como se estivesse aprendendo o caminho da minha boca pela primeira vez, outra vez.

E eu deixo.
Deixo porque quero.
Porque desejo.
Porque, naquele momento, não existe mais nada além dela.

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