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quarta-feira, 25 de junho de 2025

O acaso a meu favor - Página 04

Página 04 – Capítulo 01


(Narração por Clara)

Hoje, em plena terça-feira, agradeço aos deuses por finalmente ser minha folga…

A não ser, claro, que aconteça mais algum imprevisto com a Juliana.

Penso isso.

Erro meu.

Antes mesmo de terminar o pensamento — como se o universo estivesse apenas esperando a deixa — meu celular começa a vibrar ao lado do travesseiro.

Fico encarando o aparelho por alguns segundos, considerando seriamente a possibilidade de ignorar. Deixar vibrar. Deixar tocar. Deixar o problema explodir sozinho em algum canto do mercado.

Mas não.

Porque, claro… a Bruna está de férias.

E eu, segundo a hierarquia invisível daquele lugar, sou o famoso: “contato de emergência.”

Ou seja: a trouxa oficial.

Atendo.

Nem me dou ao trabalho de cumprimentar.

— Estou aí em trinta minutos.

Desligo antes mesmo de ouvir qualquer resposta. Levanto arrastando o corpo, passo a mão no rosto e sigo direto pro banheiro, pegando a toalha no caminho como quem já desistiu da própria dignidade logo cedo.

Banho tomado em velocidade absurda — nível olímpico mesmo — saio enrolada na toalha com duas missões claras:

Trocar a caixa de areia do Bento

Colocar comida pro dito cujo

Ainda bem que deixei o uniforme separado no sofá na noite anterior.

Ou melhor… no que um dia foi um sofá, mas hoje claramente pertence ao senhor Bento, atual dono da casa.

Paro.

Olho.

Respiro fundo.

Uma perfeita moita de pelos em formato de círculo ocupa exatamente a minha camiseta.

Levanto o olhar lentamente… e lá está ele. Parado no batente da porta. Me encarando.

— Sério, Bento?!

Cruzo os braços, indignada.

— Tanto lugar nessa casa… e você escolhe justamente o meu uniforme?

Ele pisca.

Se aproxima.

E começa a se esfregar nas minhas pernas como se nada tivesse acontecido.

Pedido de desculpa? Talvez.

Manipulação emocional? Com certeza.

Reviro os olhos, mas deixo pra lá. Me visto rápido e começo a luta contra os pelos usando fita adesiva — porque, claramente, essa é a tecnologia mais avançada que tenho às seis da manhã.

Passo um creme no cabelo, ajeitando com os dedos mesmo pra manter aquele efeito “ondulado natural” — que na prática é: “foi o que deu”.

Abro a geladeira, pego um achocolatado e dou um gole.

Qual foi? Vocês nunca começaram o dia assim não?

Dou um beijo estalado na cabeça do ingrato — que, inclusive, odeia contato físico em 90% do tempo — e sigo pra porta.

Paro.

Olho a fechadura.

Tranco.

Dou dois passos.

Volto.

Confiro de novo.

E começo meu ritual mental obrigatório:

“Eu tranquei a porta.”

“Eu tranquei a porta.”

EU TRANQUEI A PORTA.

Sério… vocês também são assim?

Porque não é possível que isso seja só comigo.


Você sai atrasado, vira a esquina… e de repente:

“Será que tranquei?”

“Será que desliguei o fogão?”

“Será que deixei a geladeira aberta??”


Esses dias voltei pra casa desesperada achando que tinha deixado tudo aberto.

Resultado?

Tudo fechado. Tudo normal.

E eu… atrasada.

Agora me diz: como você explica isso pro gerente?

“Ah, então… quase causei um colapso existencial por causa da geladeira.”

Quase levei uma advertência, claro. Aquela clássica ameaçazinha educada:

“Se acontecer de novo…”

Sim, Augusto. Vai acontecer de novo.

Mas seguimos.

Um dia de cada vez.

Ou, no meu caso… sobrevivendo de turno em turno.


Hoje, querendo ou não, eu uso o trabalho pra ocupar a cabeça.

E pra ganhar um pouco mais também — porque agora somos só eu e o Bento.

Faço alguns bicos fora do horário do mercado pra juntar uma reserva. Pra lazer… e pra segurança.

Não gosto de deixar ele sozinho.

Mas também sei que outro animal agora exigiria tempo.

E tempo… é exatamente o que eu não tenho.

Apesar disso, o Bento não parece triste por ser o único gato da casa.

Ele sente falta… de mim.

E eu?

Eu sinto falta de muita coisa que existia aqui antes.

Mas algumas ausências… são necessárias.

Porque certos fantasmas… é melhor manter à distância.

Chego no mercado e dou de cara com o carro do Igor.

Ótimo.

Minha alma entra primeiro no estabelecimento — meu corpo só vem depois, correndo atrás.

Assim que entro, noto uma mulher andando pelos corredores, analisando tudo com atenção.

Fiscalização?

Só pode.

Porque, pra o Igor estar ali naquele horário… alguma coisa deu muito errado.

E eu já estou pronta pra fazer o Augusto desembuchar.

Vou entrando, ligando as luzes no caminho, fazendo o básico.

E uma pergunta começa a incomodar:

Cadê todo mundo?

— A revoada deve ter sido boa… — comento sozinha, num tom meio arrastado.

Avisto o novato no meio do mercado, parado, com cara de quem acabou de perceber que fez uma escolha duvidosa na vida.

Sigo até o ponto.

De longe, vejo Igor conversando com Augusto.

Ou melhor…

Vejo Igor falando.

E Augusto apenas concordando com a cabeça, celular no ouvido, vermelho de raiva.

De branco, o homem conseguiu ficar vermelho.

Um talento.

Seguro a risada.

Profissionalismo, Clara. Profissionalismo.

Me aproximo.

— Bom dia.

Eles respondem — cada um à sua maneira — e Augusto já me entrega o caixa, como quem passa um problema adiante.

Perfeito.

Mais um dia comum.

Ou pelo menos… é o que parece.


Caminho até o meu caixa ainda meio no automático, quando a mulher que estava rondando os corredores simplesmente surge na minha frente, bloqueando meu caminho a poucos metros.

Ela me analisa.

Sem pressa.

Como se estivesse avaliando um produto… defeituoso.

— Você que é a mocinha atrasada para o serviço?

Estou tão atordoada que, por um segundo, nem capto o desdém na voz.

— Sim… houve um imprevisto, mas já estou aqui. — respondo, tentando manter o tom neutro. — A senhora precisa de ajuda com alguma coisa?

Ela solta uma risadinha curta, seca. Sem humor nenhum.

— Ainda se faz de sonsa…

…Oi?

Não entendo exatamente de onde veio aquilo. Mas paro. Olho pra ela. De cima a baixo.

E penso:

Se o que fosse de bonita fosse de educada… talvez desse até pra tratar melhor.

Olha… eu sei que me atrasei. E sei que não foram “só” trinta minutos.

Mas, sinceramente?

Estou ali, na minha folga, cobrindo turno dos outros… e ainda tenho que ouvir isso de uma mulher que claramente acordou decidida a ser insuportável?

Ah, não.

— Moça, primeiramente… bom dia. — digo, já com o pavio bem mais curto. — Espero que esteja bem. Mas eu preciso abrir o caixa pra te atender melhor, tudo bem?

O deboche veio fino. Bem treinado. Cortesia do próprio mercado.

E pelo olhar dela… acertou em cheio.

Se ela pudesse me estrangular ali mesmo, provavelmente já estaria escolhendo o ângulo.

Dou a volta no caixa, me agacho pra ligar o computador e começo a tirar o lixo — porque, claro, o turno da noite mais uma vez decidiu que isso não era problema deles.

Quando levanto, ela está parada na minha frente. Mão na cintura. Me encarando como se eu devesse explicações da minha existência.

Respiro fundo.

— Moça… mais uma vez… — começo, já impaciente. — você precisa de alguma coisa?

Enquanto movo o mouse pra abrir o sistema, faço um mantra mental:

Colabora. Só colabora. Não me faz perder a paciência.

Ela não responde.

Eu encaro de volta.

Com aquele olhar clássico de:

E aí? Vai falar ou vai continuar fazendo cena?

Ela ajeita a postura, inspira fundo…

— Garota… você não sabe mesmo com quem está falando?

Ah.

É esse tipo.

— Não, moça. Não conheço. — respondo, puxando a cadeira e me sentando. — Mas me diga… que celebridade a senhorita é?

Pronto.

Foi o suficiente.

Ela abre a boca, indignada.

E, sinceramente?

Estou começando a me divertir.

— É assim que vocês tratam os clientes por aqui?

— Não. — respondo, leve. — Só os mal-educados e antipáticos… como vossa senhoria.

Reviro os olhos, cumprimento uma cliente que entra no mercado e completo:

— E, olha… vai por mim. Eu ainda sou a melhorzinha daqui.


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