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domingo, 22 de fevereiro de 2026

O acaso a meu favor - Página 83

 Por Verônica…

Ao reconhecer aquela silhueta andando com uma serenidade quase insolente, como se não devesse nada a ninguém, meu sorriso surge antes mesmo que eu tenha tempo de pensar sobre isso. E o pior: eu paro a caminhonete. Definitivamente, estou ficando louca.

Observando suas expressões, quase consigo ler o que se passa na cabeça dela. A dúvida, o cálculo rápido, a tentativa de manter o controle. Então falo antes que ela desista:

— Vem… acredito que ninguém esteja nos esperando a essa hora. — digo em tom leve, quase brincando, só para tranquilizá-la.

E quando ela sorri de volta, sei que parar foi a melhor loucura que cometi naquela manhã.

Ela entra no meu carro e ocupa exatamente o mesmo lugar de ontem, e isso já é o suficiente para me deixar inquieta. Como se aquele banco tivesse memória. Como se o corpo dela ali ainda carregasse tudo o que ficou suspenso na noite passada.

Como faltavam apenas algumas quadras até o mercado, não houve tempo para uma saudação à altura do que ela merece. Não um beijo, não um toque, nem sequer uma palavra certa. Apenas a levei comigo até o nosso destino, guardando tudo o que eu gostaria de ter feito para depois.

Ao parar em frente ao mercado, olho para ela — e, como se fosse combinado, a encontro me olhando de volta. Confiro o relógio de pulso. Ainda nos restam alguns minutos.

Desligo o motor, mas não desço. Nem ela. O mercado ainda está fechado, escuro por dentro, e o silêncio da rua parece maior do que deveria. Olho de novo para o relógio. Ainda temos tempo. Pouco… mas temos.

É estranho como vinte minutos podem parecer eternos e insuficientes ao mesmo tempo.

Sinto uma euforia quieta crescer dentro de mim — aquela que não dá vontade de rir alto, mas de segurar, de proteger. A lembrança da noite passada volta inteira: o beijo lento, o quase, o toque contido, a respiração compartilhada. Tudo isso ainda está aqui, pairando dentro do carro como um segredo quente.

Mas, ao mesmo tempo, qualquer barulho me deixa alerta.

Um carro passando mais devagar.
Um passo distante.
Qualquer movimento na esquina.

Meu corpo reage num misto de ansiedade e prazer. Quero esse momento só nosso, mas sei que ele é frágil. Que basta alguém chegar cedo demais para quebrar o encanto.

Olho para Clara de novo. Ela está quieta, mas não distante. Há algo no jeito como ela segura a alça da mochila, como cruza as pernas, como evita me encarar por tempo demais. É o mesmo nervosismo bom que eu sinto.

— Ainda é cedo. — digo, mais para mim do que para ela.

Ela sorri de canto, como quem entende tudo sem precisar de explicação.

E nesse sorriso, percebo que não importa se alguém chegar daqui a cinco ou a vinte minutos. Nada apaga o que vivemos. Nada desfaz o que já aconteceu entre nós.

O medo está ali, sim.
Mas a euforia…
A euforia é maior.

Porque, mesmo com o coração acelerado e os olhos atentos à rua, eu sei:
algumas coisas, quando acontecem, acontecem para sempre.

Desço do carro depressa, como se minha vida dependesse disso. Dou a volta quase correndo e abro a porta dela, tudo sob o olhar atento de Clara.

Ela desce rápido também, mas não deixa de me lançar um olhar cheio de perguntas — uma grande interrogação silenciosa estampada no rosto. É nesse instante que abro um sorriso para ela. Um sorriso cúmplice.

Como se estivéssemos fazendo algo proibido. Parada diante dela, sinto o peso de tudo o que sou e de tudo o que quero ser entrar em conflito. A Verônica responsável sabe que isso é arriscado. Que alguém pode chegar a qualquer momento. Que não é hora nem lugar.

Mas a outra…
A outra está eufórica.

Porque Clara está ali, diante de mim, com aquele olhar curioso e cúmplice, como se confiasse em mim sem perceber o quanto isso me desmonta.

Quero afastá-la. Quero protegê-la.
E, ao mesmo tempo, quero ficar exatamente onde estou.

Dou um passo para trás, só o suficiente para parecer racional, mas não o bastante para quebrar o clima.

— A gente tem pouco tempo. — digo, tentando soar firme.

Ela inclina a cabeça, me analisando, como se soubesse que minhas palavras não combinam com meus olhos.

E ela está certa.

Porque, mesmo com o medo de alguém chegar, tudo em mim vibra com a certeza de que…
valeu a pena cada segundo da noite passada.

E, de alguma forma, estivéssemos gostando exatamente disso.

Próxima página - O acaso a meu favor ... 

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